quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Muito açúcar, poucas remelas!

Hoje levei a manhã a pensar em como o meu mundo é pequeno. Ou será dos meus olhos? Desta miopia que teima em voltar! Esta ideia bateu-me à porta no meio de uma aula sobre cobras venenosas.
E agora que já tenho a vossa atenção, passo a explicar. 
Durante as minhas duas últimas semanas aqui na Índia estou a fazer um curso de Medicina Tropical, o que é uma oportunidade excelente de sedimentar tudo o que vi e aprendi nos últimos tempos. O grupo de professores é de grande qualidade, tudo gente com muita experiência e de vários países, assim como os alunos.
Começámos na segunda-feira com a velha e boa malária, a ceifar vidas desde… sabe-se lá, há tanto para fazer, mas há melhorias, há esperança. E, por aí fora, fomos navegando o mapa dos trópicos, os parasitas, as diarreias, as crianças que não chegam aos 5 anos, as doenças que não têm medicamentos porque não afetam as pessoas “certas”. Como por exemplo, a doença do sono. Não, não é o cansaço que todos sentimos por não dormirmos tudo o que precisávamos, é aquela que vem com a mosca Tsé-Tsé e que vai matando africanos sem dar contas a ninguém. Sabiam que o único medicamento disponível para a forma grave da doença ainda é à base de arsénio e que só por si também mata os doentes, mas não temos alternativa… o mercado africano não é muito atrativo para as farmacêuticas (silêncio!).

Continuamos a viagem com aquilo que leva o nome de “doenças tropicais negligenciadas” ou achavam que a negligência não se aplicava às doenças? Há para aí muito parasita a quem ninguém liga nenhuma! Sozinhos no nosso mundo, abandonados à sua vontade. Mas, também, há um grupo de inconformados que com um financiamento aqui e outro ali vão fazendo andar a carruagem, e a ciência avança com passinhos de bebé enquanto empurra com a barriga os constrangimentos, os interesses, os lados errados do mundo. Mas avançamos!

E a semana dança no ritmo da savana africana, das metrópoles asiáticas, dos rios da américa do sul, das tribos da Papua Nova Guiné! Ai que ritmo, ai que “abre-olhos” como dizia o outro, ai que sorte que esta mini infeciologista tem e um desabafo salta do coração para a boca: “ é isto, é mesmo isto!”.

Entretanto vem a primeira aula da manhã, beberico o meu açúcar polvilhado de leite com um bocadinho de café e oiço o Sr. Professor, um senhor inglês com os seus 70 anos, homem brilhante, fartou-se de publicar artigos, escreveu capítulos de alguns dos meus livros, já viu muito, já fez muito, e não precisa de muito para me ganhar a atenção (o açúcar também ajuda). Falamos de cobras venenosas e da sua importância médica, ele descreve as cobras e os seus habitats, os venenos, os antídotos, mostra fotografias e vai dizendo: “aqui na Tanzânia onde trabalhei 7 anos, nos anos 80, tivemos um doente que veio 2 dias depois da mordida de cobra…”, mais uma fotografia: “ aqui em Bangkok onde ajudei a começar o hospital e onde trabalhei uns quantos anos e tivemos este doente…”, “olha este é um doente na Nigéria”, “isto foi no Panamá”… e continuou… A aula foi excelente, falámos dos bichinhos venenosos quase todos, mas o melhor foi ouvi-lo falar, e não foi só o sotaque que achei delicioso, foi a vida, uma vida inteira de verdadeiras aventuras a lutar contra as negligências, uma inspiração! Hoje, cá estava ele na Índia com os seus cabelos brancos, num subúrbio sem graça nenhuma onde não pára de chover, e a cumprimentar-me com um “bom dia” que aprendeu no Brasil quando lá foi para estudar as cobras.

No meio deste cenário, convenço-me ou sou convencida (?) que vejo mal! Vejo pouco! E longe da vista, longe do coração! Em resposta vou murmurando, em súplica, que quero ver melhor. Mais longe, mais perto. Mais! Talvez assim o que vejo me chegue ao coração! Porque só depois deste ajuste nos sentidos é que posso realmente contribuir e participar na luta das negligências e da injustiça. Enquanto escrevo lembro-me da D. Domingas, uma senhora que vi na Guiné, a primeira picada de cobra que vi… não conseguimos fazer nada… e caminhei em silêncio com os olhos mais abertos. Hoje, 5 anos depois, volto a limpar as remelas do tempo e da mesmice e agradeço pelo que vejo e peço para ver melhor! Para fazer melhor! Para servir melhor!

Leitor imaginário, não consigo deixar de estar grata pela oportunidade gigante que estou a ter! Quero ver como é que vou pôr isto tudo na mala daqui a 10 dias.

Restantes amigos, se chegaram aqui há pouco tempo e não conhecem as histórias da Guiné, andem para trás aqui no blog e encontrarão um conjunto de aventuras africanas! Um abraço!

domingo, 8 de novembro de 2015

Os corredores da pediatria

Esta semana andei pela infeciologia pediátrica. Já não via crianças na consulta ou na enfermaria há muito tempo, resultado: andei a maior parte do tempo de coração encolhido, espremido na tentativa de manter os olhos abertos e acabar com a visão em túnel.

As crianças aqui são mais pequenas, enfezadas, a tisica, o arroz sem mais nada, a lombriga e o resto dos parasitas intestinais, o muito que correm, tudo isto dá em crianças magras, baixinhas, olhos encovados, imunidade frágil, portadoras de doenças que nunca me tinham passado pelos olhos, quanto mais pelas mãos.

A semana foi assim, cheia de coisas novas, umas mais duras do que outras, apimentada de sorrisos curiosos e bebés magrinhos! Lembro-me de duas meninas na consulta, irmãs, muito parecidas, olhei para elas e pensei devem ter 6-5 anos, elétricas, não pararam quietas, tantas perguntas num inglês simples que fui entendendo com ajuda, interessadíssimas em conhecer-me, em tocar-me e sem vergonha até um beijo na face me roubaram. Queridas meninas que afinal tinham 11 e 10 anos, ambas com tuberculose óssea em tratamento. De repente, involuntariamente, lembro-me dos nossos meninos com 11 anos, a quem chamamos pré-adolescentes, com os seus telemóveis, os seus penteados, os sapatos a condizer com o chapéu, e sim, o coração encolhe com as diferenças dum mundo injusto.

Continuamos, e vêm os meninos que têm VIH, com os seus xaropes e comprimidos, tantos medicamentos para tão pouca idade, tantas consequências, um futuro condicionado (…) O médico conhece-os bem, eles sorriem, e eu cá dentro agradeço pelo avanço científico no VIH, falta muito, mas já temos muito, obrigada pelos medicamentos e pelo conhecimento, obrigada porque não mandamos estes meninos e os seus pais para casa sem solução!

O dia da visita à enfermaria é sempre mais difícil, aqui eles estão mesmo doentes, muito dengue, muita meningite, a tuberculose sempre presente, a pergunta constantemente dirigida a mim: “ Já tinhas visto isto?” E a resposta constantemente repetida: “ Não, nós não temos, é a primeira vez que vejo! Não temos doenças tropicais, ou temos vacina, ou temos um bom sistema de cuidados de saúde primários (Ai é bom, é tão bom, vocês nem imaginam) ”.
Seguimos para a unidade de cuidados intensivos, bebés entubados, crianças muito doentes, não gosto nada disto, de cama em cama, a patologia vai piorando! Chegamos à última, uma menina de 9 anos com difteria, vejo pela primeira vez uma doença que até agora era só a letra D ao lado do T na vacina TD (tétano e difteria), quadro gravíssimo, tinha entrado ontem, 3 dias de doença, a suspeita fez com que se iniciasse o tratamento, análises em curso, umas horas depois vim a saber que a criança faleceu (silêncio). A vacina teria evitado isto, 9 anos, aquilo a que chamamos morte desnecessária… Silêncio! E é em silêncio que o coração se vai contraindo enquanto escrevo isto, a vontade de fazer alguma coisa neste mundo desigual explode com a taquicardia, e de sístole em sístole encho o coração com fome e sede de justiça! 

A miopia melhora, o coração está cheio e uma memória da semana passada reaparece, vi um jovem com lepra, um leproso, já no fim do tratamento, quase sem sintomas, para a infeciologista que vive dentro de mim foi ótimo, um caso de lepra, o primeiro que vi na vida! Mas para a pessoa que vive dentro de mim, foi mais do que a raridade da patologia, enquanto examinava os nervos da perna, lembrei-me do Mestre, imaginei-o a tocar o leproso que ninguém queria tocar, um leproso bem mais doente do que o que estava à minha frente, imaginei-o a tocar com a intensão de curar muito mais do que a lepra, e o coração enche-se com vontade de se esvaziar!

Leitor imaginário, a viagem continua e a aprendizagem também, estou contente e grata por esta oportunidade.
Restantes amigos um abraço aqui da Índia que continua quente e suja mas cheia de coisas para aprender. Obrigada pelas mensagens, pelos comentários, pela companhia…


terça-feira, 27 de outubro de 2015

A courgette tem uma prima na Índia!


 São 8h da manhã. O silêncio inunda a sala, lá no fundo ouve-se o barulho da ventoinha e cá no fundo é difícil não ouvir a confusão dos pensamentos. Aconteceu tanto nestes quase 2 meses que será difícil encaixotar, fazer malas e partir, desconfio que depois desta experiência haverão coisas que nunca mais irão embora, ficarão… farão morada! Espero que sim.

Então enquanto espero pelo início da consulta, oiço o meu fundo, observo os dias que passaram e tento passar para este caderno laranja o que é passível de partilha. Passaram duas semanas desde o último texto, cheias, recheadas de aventuras e desejo de aventuranças.

No outro dia, dei comigo num jantar do serviço em casa da chefe, ofereci-me para preparar um prato, mostrar a gastronomia portuguesa e, finalmente, comer o que gosto! Mas, como tudo na Índia, foi extremamente difícil! Primeiro, tinha de ser vegetariano, dadas as especificidades alimentares da religião, depois tinha de encontrar os ingredientes. Acabei por fazer as minhas courgettes recheadas (uma espécie de prato de assinatura), que de Portuguesas não têm nada, mas são vegetarianas, ou pelo menos, desta vez foram, porque originalmente levam cogumelos, bacon e queijo de cabra. Aqui fiz com cogumelos (viva os fungos ecuménicos) e paneer (um primo indiano em 4º grau do requeijão). Cheguei mais cedo e mãos à obra, numa cozinha que não é minha, com um palato tão diferente dos que habitualmente se sentam à minha mesa. Antes disso fui às compras, uma linda aventura, trouxe 2 enormes legumes esbranquiçados, parecidos com courgette, ali algures entre a abóbora e a courgette. O medo do pepino só acabou quando as abri ao meio e vi o que se assemelhava ao pretendido.
Depois lá fui, o prato foi acontecendo, com olhares de estranheza, com perguntas sobre o conteúdo, um legume aberto ao meio, sem especiarias, sem óleo, sem molho?

E eu segura! E eu contente! Escondida atrás da prima da courgette! A cozinha não era minha, mas são todas parecidas, o prato não é igual, mas é parecido. Parecido é bom! Parecido é familiar! É bom estar em casa outra vez! Afinal a fome e a vontade de comer o que nunca se comeu mas cheira bem são dogmas internacionais.
Voilà! Courgettes recheadas na mesa… E não é que gostaram! Comeram tudo! E eu sentada no chão a observar, somos todos iguais, mais picante menos picante. Conversámos, contaram-se histórias, o apetite abriu-nos a boca e o coração. Boas courgettes!

A Índia vai-se aproximando com uma abordagem cheia de solavancos. Aqui as relações são difíceis, cheias de porcelanas, de hierarquias, de preconceitos (?), estranha-se o novo, acolhe-se com cautela, então com pezinhos de lã, com legumes recheados, sorrisos sinceros e alguns relatos de aventuras passadas nesta terra incrível, com tudo isto vou conquistando um espaço, pequeno e apertado como todos os espaços na Índia!

Mesmo quando me perguntam as coisas mais insólitas, como aquela vez em que um dos médicos mais respeitados do serviço me perguntou que língua é que os médicos portugueses falavam entre eles? E que língua é que se fala nas faculdades de medicina? Seguido de uma cara de espanto quando lhe digo que é Português e não Inglês. (É com cada uma…). Depois veio o clássico erro, mas não menos engraçado, ao falar de Portugal alguém cheio de certeza exclama: “Oh como eu gostava de visitar o teu país, o Rio de Janeiro deve ser lindo!” (Rir dos outros é feio!). E lá expliquei a geografia da velha Europa. E não, a nossa comida não é como a espanhola (cruzes, credo!), nem como a italiana, nem como a grega. É nossa e é a melhor do mundo!

Leitor imaginário, é assim… Vamos alimentando o povo de “prima de courgette” e de cultura geral!

Restantes leitores, abraços, abraços. Falta menos, custa menos! Obrigada pela companhia!

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Ainda a procissão vai a meio…


Falta metade! E é caso para dizer o pior já passou. Esperemos!

O dia alongou-se, cheguei ao hospital às 8h e vim no autocarro das 19h30, um dia destes habituam-se e ainda me metem a fazer urgências de 24h. Por falar nisso, tenho umas certas saudades de fazer urgência, saudades da equipa, das loucuras da sala de reanimação, saudades de estar em casa (o hospital também conta como casa, uma espécie, um sótão!).

A viajem para casa foi gira, já tinha escurecido e a cidade transformou-se. Sentadinha no banco do autocarro, entre solavancos, assisti em “primeira classe” ao espetáculo noturno, as famílias cá fora, as barraquinhas de comida apinhadas de gente, homens a beber chá na beira da estrada, veículos de todos os tamanhos e cores em cima uns dos outros, luzes coloridas penduradas sem preocupação aos cantos, nos toldos, onde houve lugar, a música estridente e alegre, as buzinas de vários timbres, eu… e um sorriso estampado. Os pensamentos voam, lembro-me do dia que passou, tão cheio e bom (!).

Começou com a visita médica à enfermaria, lá vamos nós cama a cama discutir diagnósticos, confirmar a história com a família que está sempre lá e não arreda pé do lado do doente, palpar as barriguinhas à procura de baços e de fígados, revemos radiografias, confirmamos suspeitas.
Aprendo sempre tanto! 
Apesar do calor que começa pela manhã, das muitas escadas, da azia que me acompanha, do sono que pesa nos olhos e daquela sensação de que não sei o que devia saber, devia estudar mais, tenho de estudar mais, sentimento que rói as entranhas e as confianças e que me faz hesitar as respostas que estão à porta da língua e que roídas e encolhidas voltam para dentro. Apesar! Agora é mais fácil! Tenho menos medo de errar, pergunto mais, postulo, discordo, digo piadas (Tento! O inglês é uma língua muito insípida.) e aos bocadinhos esta casa também vai sendo minha.   

 E o espanto mantem-se! E o sorriso também! Muito se aprende aqui! Muita infeção, muita meningite tem esta gente, não é só a doença é a história que espanta. No outro dia, a filha a contar as alterações neurológicas da mãe, refere que a senhora veio para o hospital porque comeu cocó (!), não vá o médico não perceber a gravidade da situação. E o outro que foi com a vaca ao veterinário para as vacinas, o bicho assustou-se deu um coice, o dono caiu e dias depois estava já cheio de febre e de infeção, mas o problema dele foi a vaca, não foi o VIH que ele andava a passear aos anos! Pobre vaca! Os insólitos! A Índia!

Dou comigo com o tal sorriso estampado, enquanto me passeio neste hospital gigante que tem guardas com apitos a direcionar pessoas e os carros, e lembro-me do privilégio e apesar de peganhenta e com fome, sorrio!

Depois chego ao escritório onde nos últimos dias me tenho dedicado à ciência, bela ciência esta de pôr dados numa folha de Excel, mas é assim que se constrói um bocadinho, uma colherzinha de ciência e um nome numa publicação internacional.
Enquanto estou de olhos em bico a registar biópsias surge um convite para dar uma aula aos alunos de medicina do terceiro ano e lá vou eu, ver como corre, e vejo o doente com eles, aconselho a não ter medo de tocar, a olhar nos olhos, a ouvir, a prestar atenção aos detalhes, a pele, a marcha, o pulso… Por momentos, lembro-me das minhas primeiras excursões pela enfermaria em Santa Maria, que medo, que estranho, a ideia impossível de acabar um curso interminável. Agora, pouquíssimos anos depois, num sítio improvável ensino a tocar no doente como aquele professor imponente me ensinou, e assim passo o testemunho aos jovens médicos que serão, quem sabe, médicos no nenhures da Índia. O sorriso volta e veio para ficar. Que bom, esta ideia de ter contribuído com um grãozinho na construção destes novos médicos, que privilégio!

Volto à cadeira e ao Excel e muitos dados depois são horas do autocarro, hoje até enquanto atravesso a estrada o que é sempre assustador, penso no tal privilégio e não consigo deixar de sorrir!

Leitor imaginário, de grão a grão vou enchendo o papo de sorrisos! (e de papaias… que boas papaias!)

Leitores que por acaso ou convicção foram apanhados por aqui, um abraço para todos, espero que estes grãos também vos ajudem nas vossas obras. 

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Coisas boas?

Hoje o dia correu bem! Tenho a sensação de que quando finalmente estiver habituada e me sentir um bocadinho em casa, chegou Dezembro e é tempo de fazer a mala! Os dias muito bons aqui são raros, mas têm vindo a aumentar de frequência!

Então decidi trazer-vos, a vocês e à velhota pessimista que vive dentro de mim (numa cadeira de balanço com gatos) as coisas boas desta terra! Lembro-me de ter feito isto na Guiné talvez o leitor imaginário se lembre e na altura ajudou-me a pôr as coisas em perspetiva, na maioria das vezes é mesmo isso, uma questão de dioptrias e de degraus. Então hoje subimos juntos aqui à montanha de Vellore, olhamos cá para baixo e observamos o top 5 cá da vila!

1. Os fungos! A sério, aqui as pessoas têm infeções fúngicas como nunca imaginei! É lindo (ponto de vista do infeciologista: é espetacular, é brutal, tira uma fotografia por favor!). Passo a explicar, o Sr. Kumar (equivalente de Zé António) tem uma impressão na perna de alguns meses a esta parte e, por isso, vai ao médico: Oh Sr. Kumar mostre lá a perninha, ele levanta uma espécie de pano aos quadradinhos que os homens enrolam à cintura que vem até aos pés (portanto uma saia!), e quando me aproximo vejo sair, ali da perna do Kumar, uma coisa gigante tipo couve, vem de lá uma lesão enormíssima cheia de nódulos do tornozelo ao joelho e fico a olhar maravilhada, enquanto os médicos indianos mandam para o ar todos os diagnósticos que acabam em micose! E isto, caros leitores, faz o dia de uma pessoa! Já me estou a imaginar em Setúbal, qual sábado de banco, à procura de funguice nas pernocas das velhotas!

2. O lemon rice! Não é arroz com limão, é arroz amarelado com ligeiro aroma a citrinos e com amendoins! É picante, traz 2 ou 3 malaguetas, mas é um bocadinho menos que os outros, e agora posso afirmar que já provei todas as possibilidades de arroz, e este é o melhor. Sendo assim, quase todos os dias, almoço este belo petisco. Um regalo! Uma malga de arroz, meio litro de água e já está, mais um dia (Sim, é mesmo só o arroz com arroz)! Ai, é melhor não falar muito de comida, a ideia deste texto é descrever as coisas boas que tenho aqui!

3. O café! Vá não se exaltem, eles aqui não têm café (sabem lá eles o que isso é!). Chamam café ao galão (mas do clarinho). No primeiro dia, perguntaram-me se queria um café, eu agradeci a gentileza, agarrei no copinho de papel (chávenas nem vê-las) e deparo-me com o tal galão. Eu nunca bebo café com leite, mas pronto, estão a oferecer, não vou fazer a desfeita, o problema… Ai o problema é a nata! Detesto nata! E aquilo tinha um natão gigante. E agora? Lá me pus aos malabarismos com o copo a tentar colar a nata aos lados para poder beber à vontade e quando, finalmente, ganhei a luta e experimentei o cafezinho, pimbas era doce que doía, e é sempre assim… o café, o chá, o sumo de laranja tem tudo muito mais açúcar do que precisa! Mas, agora que já me estou a habituar, sabe-me bem o tal café a meio da manhã!

4. O campus universitário! O campus é a uns 20 min de autocarro do Hospital e é aqui que vivo! Foi extremamente difícil arranjar um quartinho, já mudei de quarto 3 vezes, mas agora, finalmente, tenho esta caminha confirmada até ao fim da jornada! Isto é uma espécie de Oásis no meio da Índia! Aqui é tudo arranjadinho, verde, silencioso, até há esquilos, macacos e avestruzes! Acima de tudo é seguro e dá para descansar a cabeça das buzinadelas!

5. O jantar de quarta-feira! Reza a lenda que desde 2007 que às quartas-feiras, todos os internacionais a estagiar aqui se juntam para jantar num hotel aqui perto, comida indiana, mas melhorzinha! O melhor jantar da semana, há sempre pessoas novas para conhecer e há uma sensação de ocidente e familiaridade que se junta à mesa e que sabe tão bem!

Leitor imaginário, hoje deixo-te o top 5… um dia destes conto-te o resto!

Restantes leitores e amigos, como viram isto não é assim tão mau… tem é açúcar a mais!  

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Passou um mês!

Passaram muitas coisas. Todos os dias há uma avalanche de sentimentos que destrói, destrói e depois constrói, todos os dias. A Índia é um sítio difícil para viver! Demasiado calor, demasiado pó no ar, há picante em tudo o que está no prato, buzinadelas constantes e ensurdecedoras e há a diferença e a distância cultural. Não é mau, é diferente!

Ainda agora, 5 minutos antes de começar a escrever, enquanto estou sentada à espera do médico para irmos ver os doentes, está um homem em pé a 1 metro de distância de mim, a olhar-me fixamente nos olhos, tempo suficiente para eu reparar, olhar rapidamente para confirmar, baixar o olhar e pensar: “O que é que acontece se eu fizer o mesmo?” E olhei para ele olhos nos olhos… A ver quem ganha! Depois de segundos que pareceram largos minutos ele desviou o olhar, e eu pensei: “Desconfortável, não é? Toma lá que é para aprenderes!” Mas afinal aprender o quê? O conceito de espaço pessoal? É tão diferente! É tudo tão diferente! Estas diferenças que até são engraçadas com o tempo custam, pesam, irritam… Cansam!

No entanto, depois olho à volta e lembro-me do privilégio. O que é que este projeto de infeciologista está a fazer neste subúrbio indiano? Este sonho de ser relevante, este desejo de justiça e a vontade visceral de contribuir trouxeram-me aqui. Então entre tropeços e saltinhos de alegria vamos andando. Andando e agradecendo pelo privilégio, mesmo nos dias difíceis.

A semana passada foi difícil! Morreu um menino de 17 anos, o primeiro caso de raiva humana que vi. Fizemos tudo, cuidados intensivos, protocolos experimentais, tudo. A raiva mata quase sempre, mas falta o quase, e a esperança estava lá no quase, durou 24 dias e depois já não havia quase (silêncio). A família recebeu a notícia com tanta tristeza, tanta que nem a minha falta de Tamil me impediu de ver, poucas lágrimas, sentidas, profundas, eles já não tinham “quase” e eu quase que chorei ali com eles.
Uns dias antes, partiu um amigo, daqueles que são família, e eu estava aqui e eles estavam aí (vocês?). E ao telefone, tanto telefone, a distância tão grande e eu tão pequena com o coração minúsculo, espremido, apertado, destruído. E, mais uma vez, quase chorei com eles (quase?).

Mas hoje pela manhã, uma brisa surpreendentemente fresca lembrou-me que depois da destruição deve vir a construção. Que venha! Venha e fique por cá!

Então, hoje, neste dia cheio de Índia em que continuo à espera do tal médico, com fome, azia e 3 dedos de frustração, hoje… Mãos à obra! A vida é curta e já começou. Que venha a Índia, que venha e de caminho traga uns óculos para a miopia que teima em permanecer.

Leitor imaginário, hoje ficamos assim, a ver se um dia percebemos estas índias.

Restantes leitores, um abraço com saudades vossas!

domingo, 20 de setembro de 2015

O 1º dia de escola

As férias estenderam-se mais uns dias. Memoráveis. Lembranças que vão ficar connosco para sempre. Não necessariamente pelo luxo ou pelo conforto do descanso, mas pela companhia que com o passar do tempo se torna cada vez melhor. As conversas salpicadas de silêncios confortáveis, de observações quase sempre fora do contexto, de passeios de mota à chuva no meio da floresta, de quedas de mota e joelhos esfolados (cotovelos, ombros e mais houvesse!) numa ilha espetacular, de horas e horas passadas em todo o tipo de transportes públicos, dos insólitos (adoramos o insólito), tudo isto transformou este tempo de férias num grande depósito de felicidade!

 Foi com o saco cheio destas aventuras que ele se foi embora e eu fiquei! Fiquei para dar início a outro tipo de aventura, um solo que pode parecer loucura. Talvez seja.

O que é que estás aí a fazer? A resposta mais honesta é que estou aqui para aprender. Crescer. A ver se acrescento alguma coisa a este coração míope e ao léxico do diagnóstico diferencial que carrego comigo.

A odisseia começou em Setembro, já lá vão 3 semanas, não tenho escrito mais, porque às vezes não sei como descrever o que por aqui se passa, mas quero muito cumprir a promessa feita a meia dúzia de amigos e companheiros de caminhada.

O hospital é gigantesco e está sempre, faça chuva ou faça sol (frio é que nem vê-lo), cheio de gente, há gente por todo o lado, e gente muito doente, muito doente e muito nova. Atrevi-me a fazer um comentário do género: “Os vossos doentes são tão jovens, nós lá temos o hospital cheio de idosos!” A resposta veio apontada diretamente ao meu coração ocidental: “ Os velhos ficam em casa, eles nem os trazem, e quando os trazem raramente os internamos, seria um desperdício de recursos.” Engole em seco, fica calada, olha para o chão, sente o choque cultural! E o choque contínua, quando no fim da consulta se fala de dinheiro, a saúde tem preço e escalões, o papel amarelinho mostra o orçamento do internamento que é necessário, o doente responde que não veio preparado, voltará depois… Em sístole rápida, ansiosa, tento desatar o nó do estomago e olho novamente para o chão (silêncio).
E assim se passam os primeiros dias, a realidade é nova, cheia de pontas aguçadas que se espetam na minha ideia de saúde e de justiça, mas foi para isso que vim, para lutar contra a miopia. Mas há mais, muito mais! Tenho aprendido tanto! Isto é um manancial para a infeciologia, há de tudo, das bactérias aos fungos, passando pelos parasitas, sem nunca esquecer os vírus… até o vírus da raiva (vi um caso de raiva logo no primeiro dia, nunca tinha visto). 

Cá ando eu de caderninho laranja a escrever tudo o que vejo, a fazer um esforço enorme para perceber o inglês à indiano, a suar as estopinhas nas muitas escadas do hospital e a beber golinhos de água no corredor meio às escondidas, sempre cansada, sempre com fome, mas com a certeza de que estou no sítio certo. De vez em quando isto lembra-me a Guiné, vem me à mente aquela frase: “ A vida é dura para quem é mole”, aqui apetece-me dizer: ”A Índia é dura e eu sou mole! Molinha!”.

Querido leitor imaginário, a Índia é dura e picante mas também alimenta e disto é que eu preciso para crescer!
Restantes amigos continuamos cá até Novembro, mais 10 semanas de choques, aprendizagens, frustrações, arroz e papaia, onde a vossa companhia é mais importante do que imaginam. 
Um abraço!



terça-feira, 8 de setembro de 2015

As montanhas, a mota, e o … do elefante!

Alugámos uma mota! Yeah! Com o nosso próprio meio de transporte deixamos de estar à mercê da indústria do turismo local com as suas excursões e pacotes sensacionais, assim podemos fazer o nosso itinerário, poupar dinheiro e chatice.

Queríamos ver os elefantes, os tigres, as quedas de água da imponente “rainforest” de Chiang Mai… queríamos ver tudo e em poucos dias, porque as férias são curtas e a Tailândia é grande!
Capacetes apostos lá fomos montanha a dentro! Lindo. Exuberante. A natureza explodiu ali e não contou a ninguém. A viagem de mota foi acompanhada de saltos e solavancos no meio da expressão repetida em desabafo: “Ai que sorte! Ainda bem que viemos!”

E os elefantes? Encontrámos uma placa com um elefante pintado, fomos lá. Afinal não era bem um campo de elefantes, era na verdade, verdadinha, um sítio de reciclagem de resíduos elefantídios do foro intestinal, portanto, reciclavam cocó! Cocó de elefante! Verdadinha, já tinha dito! As criaturas (de mente verde e ecológica) dedicaram a sua existência à reciclagem do “dito” do elefante e, olha, que fazem lindos bloquinhos, postais e afins em papel reciclado de “ vocês já sabem” de elefante. Até têm uma espécie de curso em que ensinam a fazer a reciclagem e tudo, a isso não fomos porque o dinheiro custa a ganhar e não é para andar para aí a mexer em cocó, sem desconsiderar os elefantes que são animais muito fofinhos.
Lá comprei um bloquinho de… cocó! Teve de ser!

Algures nas muitas voltas que demos naquelas montanhas lá descobrimos as cascatas, o campo dos tigres e encontrámos, finalmente, os elefantes (desta vez o produtor e não só o produto), foi espetacular, foi mesmo, mais uma vez, “que sorte!”.

Volta aqui, volta ali, começou a chover e era vê-los em cima da mota, com os seus casaquinhos “impermeáveis” molhadinhos até aos rins (todo o Português sabe que não há coisa pior que uma pontada de ar nos rins, é logo meio caminho andado para ter um princípio de pneumonia, entidade nosológica gravíssima). A saúde conservou-se. Horas depois, muita chuva depois, decidimos voltar para casa, porque à noite todas as árvores são pardas, as curvas apertadas e a mota assusta-se e isso não interessa a ninguém. Partimos, mas um pensamento foi ficando: “ O que é que eu vou fazer com o bloco? Que desperdício escrever listas de compras ou recadinhos! Aliás aquilo que era um desperdício deveria agora tornar-se muito útil.” O pensamento ficou, andou, ruminou, foi ruminado e depois mastigado e depois … (já chega!). Depois tive uma ideia! Cada página deste bloco vai ser um local de agradecimento! Diariamente, vou eleger um acontecimento ou experiência que me fez sentir agradecida! É da maneira que vou conseguir combater os momentos de “auto-lamentação” na Índia (eles vêm aí)! E assim será, a ideia foi aprovada por unanimidade em reunião familiar. Todos os dias uma frase, todos os dias uma coisa que faz exclamar: “que sorte, obrigada!”. A ver se a reciclagem não se fica só pelo cocó do elefante, que há por aí e por aqui muito “resíduo” a precisar de uma lavadela.

Leitor imaginário, agora é que eu vou ser uma pessoa ecológica!
Restantes amigos, um abraço para todos, as histórias andam atrasadas… mas estão a caminho!

Entretanto, porque não dedicarmos uns minutos das nossas vidas “super importantes” a agradecer e a reciclar (pode ser renovar, também pode ser a mente em vez de cocó… como dizia o outro).  


domingo, 30 de agosto de 2015

As banananinhas de Chiang Mai

Deixámos Bangkok em direção ao Norte da Tailândia, Chiang Mai. Com uma ideia em mente desde Lisboa: descansar, sem grandes planos e itinerários, parte da aventura é mesmo isto, ir descobrindo à medida que vamos andando, sem saber os pontos de paragem, tendo apenas em mente o voo para Bombaim no fim do mês.

Chegámos no início da tarde a um “belo” quartinho virado para a estrada principal (desta vez o colchão era melhor), o chamado preço-qualidade satisfatório.
Moída de mais uma viagem e de noites mal dormidas, contudo com vontade de ver e cheirar a nova cidade e diga-se cheia de fome, lá fui eu sozinha em busca dos misteriosos encantos e lanches desta terra. Sozinha porque a nossa linda equipa tinha um membro cansado e cheio de sono… lá fui à procura de qualquer coisa que se comesse!

A ideia era virar à direita no fim da rua e ir em frente. Fui, encontrei um batido de manga e ao voltar pelo mesmo caminho, avistei uma agitação levemente compatível com um mercado! Ai, o que é que eu ia fazer para o Hotel onde a convalescença ainda jazia? Desta vez teria de virar à esquerda na oficina de motas e seguir em frente, voltar seria fácil era só fazer o caminho para trás.

Abandonei o enjoativo batido de manga e entreguei-me ao petisco nas barraquinhas de rua, que maravilha! E à minha frente o famoso mercado de Chiang Mai no seu tímido “montar a barraca”. Comprei um cacho de mini bananinhas e biscoitos secos em solidariedade e fui passeando por ali. Adoro estas confusões recheadas de fruta que nunca tinha visto, galinhas, roupas e carradas de gente de todos os tamanhos e feitios. Pensamento sim, pensamento não, imaginei-me na Índia às compras para o jantar, a regatear o preço em Tamil… Vai ser giro, uma parte de mim nasceu para isto, a outra vai ter se adaptar, como diriam os Guineenses: “Sufri”!

Volta aqui, volta ali, começou a anoitecer e pus-me a caminho de casa, orgulhosa da minha expedição a solo. Nem tive muito tempo para elogios próprios, porque rapidamente percebi que estava um bocadinho perdida, a noite trouxe a abertura de um sem número de barraquinhas e o fecho de outras lojas. De repente, a rua aumentou de tamanho e mudou de cor, tentei fazer o caminho para casa uma vez, duas vezes, três vezes, quatro e depois deixei de contar. Não tinha telemóvel porque ficou a carregar, não sabia a morada e lembrava-me mal do nome do Hotel… eu saí para ir ali ao fundo da rua e acabei num grande mercado! O consumismo dá cabo de nós!

Já meio desesperada entrei numa loja na esperança que reconhecessem o nome que eu achava que o Hotel tinha, mas não! Mais 3 voltas… e escuro muito escuro! Já totalmente desesperada entrei numa loja de óculos, as meninas tinham um ar confiável e de quem falava inglês, na verdade foram muito prestáveis até um copinho de água me deram, mas o inglês era inexistente, lá consegui que me deixassem usar a internet e finalmente cheguei ao nome e morada do hotel que afinal era pertíssimo. Fui para a porta chamar um Tuk-Tuk e enquanto estou de telemóvel alheio a mostrar o mapa ao motorista e a regatear o preço, olho para trás e aparece o meu diligente marido! Caso para dizer “encheu-se-me o coração de esperança!”. Fica o conselho avulso: “ jovens quando escolherem um marido, arranjem alguém que vos encontre quando se perdem! Melhora significativamente a convivência”.
Bom, lá fomos para casa… com as bananinhas e os erros de orientação!

Leitor imaginário, prometo que na Índia não saio de casa sem o Google maps ou um daqueles chapéus dos miúdos das colónias de férias com a morada e o número de telefone da escola. Ai a minha vida!
Restantes viajantes que por aqui vagueiam, já chega de aventuras destas amanha vamos ver os elefantes! Um abraço para todos.


sábado, 22 de agosto de 2015

Bangkok: uma sopa e uma esquina.

Continuamos em Bangkok! Estou a gostar, principalmente da novidade. Sabe-me bem olhar à volta e ver o desconhecido, as pessoas, os edifícios, as bancas de fruta, o trânsito… Gosto disto!
Claro que estou aqui e volta e meia estou na Índia numa espécie de presságio, num sonho antecipado, num agridoce de quem não sabe para o que vai, um desejo com dois pés atrás, porque um é muito pouco!
Depois olho à volta e digo para mim mesma (dada a ausência de botões, o que é uma grande chatice nestes momentos de introspeção) aproveita as férias, aproveita a anestesia da evasão, desfruta! E a Índia volta para a sua gaveta e o passeio continua!

O problema desta tentativa de organização das ansiedades e dos “nervos” foi uma esquina de Bangkok. Numa noite quente e húmida bem ao estilo asiático, com a boca ainda dormente depois de ter comido uma espécie de sopa de peixe e marisco, maravilhosa, uma explosão de sabor, espetacular, mas picante que doía, doía, ardia, e no fim ficou a dormência do nariz até ao queixo, mas valeu a pena, foi das melhores coisas que comi na vida. Após a refeição, ainda no processo de me recompor da reação inflamatória da sopa, o nariz vermelho de tanto me assoar, o estômago contente pela novidade, o intestino indeciso… Os olhos viram o que não queriam ver.

Dobrámos uma esquina numa rua escura e vimos mulheres (meninas?) sentadas em esteiras com uma tabuleta com um preço. Uma pessoa à venda! Doeu! Ardeu no coração e esqueci-me do outro ardor. O estômago contorceu-se, virou-se, rebolou, ficou a náusea. Uma náusea que subiu à memória e trouxe novamente a Índia! Afinal foi aí que tudo começou! Foi há 4 anos que fomos à Índia para estar com meninas que tinham sido vendidas para serem prostitutas. Ouvi as suas histórias, vi as marcas, vi os olhos de medo, mas também vi esperança e recomeços, dei aulas de inglês e até jogámos ao balde de água e de lá trouxe um bocadinho menos de miopia e um saco com a certeza de que o que de graça recebi deve ser posto em quem precisa.

Então depois da sopa veio esta vontade de continuar a caminhar, a crescer, para poder contribuir num mundo onde a injustiça arde e faz buraco.

A viagem continua! (Às vezes acho que peregrinação encaixa melhor!)

Leitor imaginário agora rumamos a norte… Chiang Mai espera por nós, mais uma vez sem nada marcado, mas vi um quarto por 7€ com ventoinha e água quente, não me parece nada mal!
Restantes leitores, obrigada por estarem aí, gosto imenso da companhia.


sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Às voltas por Bangkok !

Já fez uma semana que aterrámos em Bangkok (ou Banguecoque)!

Passou uma semana mas tenho a sensação que estou aqui há uma infinidade de tempo. Não sei porquê, desconfio que tenha que ver com a intensidade da descoberta e a quantidade de coisas insólitas que nos têm acontecido!

Chegar a Bangkok foi um custo! 27h entre aviões e escalas. Parámos em Bombaim e o meu coração míope bateu mais forte e depois encolheu-se, encolheu-se numa sístole prolongada e esmifrada, respirei fundo, ri-me de nervosa e balbuciei... São 3 meses… 3 meses inteiros! Mas desta vez foi só uma escala prolongada e uns quantos carimbos no passaporte. A Índia está para vir, isto foi só um cheirinho, um cheirinho cheio de ar condicionado e comida ocidental (não te habitues!).

Depois veio Bangkok! Mal falada e mal fadada Bangkok. Ouvi de tudo, cidade terrível e confusa, cheia de prostituição, degradante e mal cheirosa, templos e budas e pouco mais!
Estivemos 4 dias lá e vi pouco do que me contaram e muito de outras coisas. Vi uma metrópole asiática confusa mas sem exageros, com uma rede de transportes públicos fantástica, suja mas sem amontoados de lixo, pobre mas sem a decadência de Bombaim! Aí está! Como o meu termo de comparação é Bombaim, Bangkok não me pareceu mal. Imagino que comparada com Londres ou Estocolmo seja uma tragédia, mas para mim não, adorei!

Chegámos lá sem alojamento reservado mas com a morada de um que parecia decente com uma relação custo-qualidade apresentável e assim fomos nós de mochila às costas Bangkok a dentro à procura de uma caminha! (Que por sinal foi o colchão mais rijo que já me passou pelas costas). 

Depois desta verdadeira estafeta desde Lisboa acabámos a jantar em Chinatown… que maravilha! 
Comida de rua no seu mais alto nível! Milhões... Vá centenas... Bom, dezenas de bancas de coisas estranhas e desconhecidas… provámos espetadinhas, trouxinhas de camarão, sushi (este não era bom) e uma data de outros petiscos sempre picantes. Estou a ganhar uma espécie de resistência papilar ao picante, já consigo comer quase tudo! Resistente ao picante e à restante bicharada, nomeadamente, a que gosta de passear no intestino humano, isto porque temos comido de tudo… mesmo de tudo (também não há muitas opções gastronómicas com as garantidas condições higieno-sanitárias necessárias) e até agora tem sido André-1 vs.Bianca-0 no que toca a fenómenos gastrointestinais. Talvez tenha sido a mariscada em Chinatown, sentados numa mesa no meio da estrada, a ver os empregados lavarem a loiça em 2 alguidares suspeitos com mãos suspeitas, a cozinha nem vi... foi melhor assim! Mas os camarões fritos com molho de sei lá o quê estavam de comer e chorar por mais, o André que o diga!
Aventuras gastronómicas à parte, isto está a ser giro!


Leitor imaginário, amanhã falamos do outro lado de Bangkok! Restantes leitores um abraço dos grandes para quem leu até ao fim! Estou a escrever com mais de uma semana de atraso, mas prometo não vos esconder as coisas giras e insólitas desta aventura por terras Indochinesas!

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Partida, " Lagarta", Fugida!

Cá vou eu.. cá vamos nós! Rumo ao Oriente!

Faltam 7h para o avião partir.. a mala ainda não está feita (em processo!), falta arrumar meia dúzia de coisas.. ideias e emoções incluídas! A mala é pequena! É sempre pequena!
Pequena para guardar a roupa, os livros (contei 10!) e o medo, medo bom e medo mau.. medo do desconhecido e medo desconhecido (para os momentos que sei que tenho medo mas não sei de quê), mas levo mais que medo! Levo "Ganas"- uma vontade visceral de aprender, de crescer, de ser relevante! Vontade de viver os sonhos.. aqueles.. (silêncio!).

E é assim que vamos... A aventura começa em Bangkok num registo de descoberta e de férias, e depois sim..o prato principal... A Índia e o hospital! A Índia, o hospital e a Bianca!

Bom.. a mala já está feita!
Leitor imaginário conto contigo para mais uma aventura, para a partida não falta muito, quanto à "lagarta" no fim da viagem contam-se as borboletas, espero que não seja preciso a "fugida"!!

Um abraço