terça-feira, 28 de dezembro de 2010

"Panaceias & copinhos de água"

“Panaceia” - esta palavra não me sai da cabeça, há dias que anda aos gritos dentro de mim, oiço-a por todo o lado, nos meus sonhos, nos meus esforços, na minha rotina e quando abro a janela do meu mundo, ela está do lado de fora a dizer-me : - “Adeus”- com um sorriso rasgado.

Se for ao cinema ela é a actriz principal, se prestar atenção às letras das canções é sobre ela que cantam, se perguntar ao senhor importante qual a razão das suas horas extraordinárias ele vai dizer em voz off : - “panaceia”, e se interrogar a senhora que limpa as escadas do meu prédio ela vai dizer que: - ” A razão, oh menina, a razão tem um nome – panaceia!

E afinal o que é que significa esta palavra?

Bom, no grego e para os gregos ela representa “ a cura de todos os males”, uma espécie de milagre, de super tónico, um espinafre ultra poderoso!

Mas aqui para nós (e já que ninguém nos ouve) ela terá outras irradiações, comecemos pelo cinema, em Hollywood panaceia quer dizer Romance, mas uma coisa de qualidade, com chama (!), duas pessoas com muito bom aspecto, cabelos brilhantes, sem rugas, sem imperfeições, com as frases estudadas para o momento e a música a condizer com as emoções. Nas canções, a panaceia rimará com um amor que era impossível mas que deixou de ser, ou com sonhos tornados realidade. Para o senhor importante a “cura de todos os males” é a segurança que ele sente quando olha para o extracto da conta, ou quando recebe os aplausos de vários anos de trabalho árduo. Para a senhora da escada a cura virá dum marido que, de uma vez por todas, a trate com respeito, de filhos a endireitar-se na vida, duma ida semanal ao cabeleireiro. Para o estudante universitário a panaceia será passar a todos os exames de modo rápido, indolor e de preferência sem estudar, tudo isto seguido de uma festa poderosíssima! Já os males das famílias modernas serão sarados numa ida ao IKEA: “com um sofá novo, aquela estante e aquela saladeira, aí sim, vamos ser muito mais felizes, ah e não te esqueças daquele pote, temos de ter aquele pote!”

Na verdade, todos nós ansiamos pela cura para os nossos males, e desejamos encontrá-la num só sítio e em doses industriais, procuramos em vários embrulhos: num percurso académico brilhante, numa carreira promissora, num casamento estável, num carro novo, numa viagem ao Cambodja, no último livro de auto ajuda, na última noitada… seria uma lista infindável…

Contudo, temos um problema, a panaceia … esgota-se! O sofá ganha manchas, o namorado fica gordo, os filhos portam-se mal e não querem estudar, a carreira não é o que sonhámos. A vida, por vezes, é feia e cheira mal! E falta, falta sempre qualquer coisa… até porque depois de provarmos, a panaceia sabe a inacabado, a insuficiente, a vazio…ou a vaidade, como o Rei sábio gostava de lembrar! E por falar nele, algures na sua “antologia poética” ou no Eclesiastes, como gostarem mais, existe a frase: “(…) também pôs na mente do homem a ideia da eternidade (…)”

No meio de tantos frascos e elixires, se calhar a panaceia é um mito, uma história mal contada, é provável que não haja remédio para todos os males, até porque, como dizia o outro, “há males que vêm por bem!” e não ganhamos muito em curá-los… Mas então? E a eternidade? Será ela a resposta para tal insatisfação, para este desconforto existencial? Fica a pergunta mas não fica a retórica, esta questão exige resposta, se não a corrida pela panaceia nunca terá fim… e não há necessidade de andar a correr atrás do vento!

Leitor imaginário, o texto de hoje é para ler com dois copinhos de água… para não te engasgares… mas é com este tipo de incómodo que nos mantemos conscientes, orientados e colaborantes… e já lá vai um ano! Hoje aqui o “tasco” faz um ano!

Aos outros leitores, uma boa noite e espero que este “espaço” estimule as conversas com copinhos de água…é para isso que cá estamos!

domingo, 5 de dezembro de 2010

Guiné: “O pós e o pó”

Passaram 63 dias… tantos como os que passei na Guiné…

E só agora é que me sinto preparada para escrever sobre os que passaram e os que passam, sobre o “pós Guiné” e sobre os pós que me ficaram na alma, nos olhos, nas unhas…

Desculpem-me se vos desiludir, é possível que o que vão ver aqui escrito não corresponda às vossas expectativas, até porque também não correspondeu às minhas… Imaginei o regresso a casa, várias vezes, tentei contabilizar as saudades que teria da Guiné, das pessoas, do trabalho, fiz previsões sobre como me sentiria, como seria estar cá e não lá, depois de um período que me pareceu gigante… E finalmente cheguei a Lisboa! Não chorei! Não quis voltar para trás! Adorei a viagem para casa, adorei o facto de haver alcatrão na estrada, delirei com o elevador do meu prédio, com o interruptor da luz, com a torneira cheia de água, com o copo de água fresquinha que bebi sem ter de lhe juntar lixívia, com a comida, com o pequeno-almoço fantástico que estava em cima da mesa… Foi óptimo falar cara a cara com os que são os “meus”! E assim foi… voltei!

Depois apareceram as perguntas… “Então como é que foi a Guiné?” e apareceram os silêncios e um encolher de ombros mais frequente do que o habitual…

-“ A Guiné… foi fixe, foi intenso, sim, essa é a palavra… intenso”.

- “ E mais? Conta mais!”

- “Mais? Não sei… aconteceu tanta coisa… não sei!”

E sempre que me aventurei a contar as minhas histórias, as minhas e as da Guiné… os jantares ficaram mais silenciosos, as faces passaram de descontraídas a pensativas, por vezes culpadas… por vezes sem saber o que dizer. Porque apesar de haver umas quantas histórias engraçadas, a maioria delas não teve e não tem graça nenhuma… a vida é dura, a Guiné foi dura… e eu sou mole!

Contudo, já passou algum tempo… e com ele passou a alegria do conforto que há nesta terra, da comodidade, da segurança… isso já não é tão brilhante e empolgante como foi na primeira semana.

Agora tenho saudades! Uma espécie diferente de saudades, não tenho saudades de comer peixe e arroz todos os dias, nem dos mosquitos, nem de água com lixívia, nem de ler com a lanterna do telemóvel, nem do calor, nem de andar sempre suada e cansada. Mas tenho saudades de olhar para o céu e de ficar em silêncio, por não existir vocabulário suficiente, tenho saudades dos doentes que víamos, de falar crioulo, de andar de calções e chinelos, de andar de mota… de barco, de ter tempo para ler e escrever…para pensar!

Olhando para trás destes 63 dias e falando nas costas e das costas deles diria que tenho saudades do “pó” da Guiné, daquilo que me ficou entranhado, das coisas que agora sou e que antes nem fazia ideia que era, daquilo que vi, que aprendi, dos incómodos que encontrei… E, tal e qual como o pó, estas saudades, acumularam-se desde o primeiro dia. Mas não reparei! A euforia inicial tornou-se demasiado anestesiante, no entanto com o tempo formaram-se montinhos de pó, de cotão… aglomerados de pensamentos, de imagens, de vontade de voltar atrás. Agora consigo ver o pó que há em mim, este pó do “pós Guiné”, espero que no futuro ele se acumule de modo a que seja possível deixar mensagens, fazer esculturas, enfim que sirva para construir! Até lá, há que protegê-lo dos panos e sprays da especialidade, das vidas agitadas, inebriadas e sem sentido, dos dias que correm sem saber para onde, da mania de perseguir o vento… Porque há pó que convém guardar!

Conto com a vossa ajuda para manter a vida empoeirada… consciente, orientada e colaborante, afinal de contas é para isso que este blog serve…

Leitor imaginário e outros resistentes que por aí andem, hoje não houve muitas piadas… cada vez gosto mais de conversas sérias, daquelas com silêncios e encolher de ombros, daquelas que acrescentam pó… Boa noite a todos!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Dia 64_ “O meu último dia na Guiné!”

Daqui a umas horas o avião partirá com destino a Lisboa. E assim se fecha um capítulo desta viagem, sim porque faço parte daquele grupo de pessoas que teima em achar que está sempre de viagem…ou de passagem, como gostarem mais! Rumo… rumo a um mundo melhor!
Foram dois meses cheios de aventuras, trouxe uma mala cheia de sonhos e agora levo duas…cheias, a transbordar, com sonhos, com experiências, com amigos e com umas quantas prendas! Mas, sobretudo, com vontade de continuar esta “epopeia” como um dos leitores lhe chamou, porque estar consciente, orientada e colaborante não se prende com a latitude, mas com a atitude (olha o slogan…!)! O que vale é que a balança do aeroporto de Bissau está avariada e assim não há excesso de peso para ninguém… ai Guiné, Guiné!
Mas antes de fechar a mala, há que agradecer a todos vocês que estiveram desse lado e que me fizeram sentir que não estava sozinha, a vossa companhia apareceu de várias formas, uns leram as minhas histórias, outros escreveram comentários, outros enviaram mails gigantes, mensagens, telefonemas…um ou outro sinal de fumo, muitos de vocês oraram (estou certa e grata por isso, não há nada como a oração dos “fanáticos” e dos justos também!).
Bom, a viagem continuará… espero poder contar com a vossa companhia, para que possamos crescer juntos e assim, atingir a estatura perfeita!
Um abraço e até já!
Leitor imaginário quando chegares a casa vais tomar banho de água quente…ai vais vais!

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Dia 62_ “O Capuchinho Vermelho & Beri-Beri!”

Esta é a minha última noite em Bolama, amanhã vou para Bissau e depois para casa! Entretanto, passaram 2 meses e com eles um sem número de experiências e de vivências, e parece-me que só quando a “poeira baixar” é que darei conta de muitas delas e das suas consequências em mim, na minha maneira de encarar a realidade, nos meus sonhos, na minha cabeça. Ao longo de todos estes dias fiz um esforço para (ao estilo do lobo do Capuchinho Vermelho) ver melhor, ouvir melhor, cheirar melhor, tocar melhor, saborear melhor… e assim aprender mais e melhor! Aqui “não aprender” era quase impossível, a realidade, por vezes chocante, por vezes violenta, por vezes agradável, entrou-me pelos olhos a dentro e teimou em fixar-se… talvez no coração, talvez na pele, talvez num circuito neuronal… o tempo o dirá!
E hoje, mais uma vez, descobri que ir para lá do óbvio é mais do que uma coisa bonita é uma obrigação, em todas as áreas da vida. Aliás se há coisa que tentei praticar nestes dois meses foi uma “atitude integral”, por isso é que nos textos publicados aqui no “tasco” os assuntos vão para além da medicina, a vida é bem mais interessante! Contudo, hoje foi a medicina que me ensinou que andar de olhos bem abertos não é uma opção, esta lição vem dum grupo de rapazes jovens, aparentemente saudáveis, todos da mesma tabanca, que de repente, adoecem com dois quadros clínicos distintos, mas igualmente preocupantes. Alguns dos rapazes apresentavam um edema generalizado, acompanhado de insuficiência cardíaca. Outros apresentavam uma neuropatia periférica dos membros inferiores (falta de força e de sensibilidade nas pernas) com repercussões significativas na marcha. As queixas tinham mais ou menos um mês de duração e nada parecia explicá-las, aliás só as juntámos num mesmo grupo, porque eles apareceram todos no mesmo dia e uns atrás dos outros. Não fazíamos ideia do diagnóstico ou dos diagnósticos, tínhamos várias hipóteses em cima da mesa, umas mais rocambolescas que outras, mas todas acompanhadas dum problema: a falta de meios auxiliares de diagnóstico, é que sem análises, sem radiologia, sem ECG, torna-se complicado perceber se estamos a ir pelo caminho certo. Passado alguns dias, o médico da missão surge com um diagnóstico: deficiência de tiamina (vitamina B1), também conhecida como Beri-Beri, uma doença que não existe no nosso “mundo” e que lá só serve para ocupar espaço nas noites de estudo de estudantes de medicina antes dum exame de bioquímica, ou melhor, servia… Doença estranha, com um nome pouco respeitável, com um quadro clínico muito diverso e por isso difícil de identificar, com consequências graves e nefastas (como a morte), mas com um tratamento fácil, pois basta repor vitamina B1 que é o que está em falta! Assim fizemos, e ontem e hoje constatámos uma melhoria enorme tanto nos doentes edemaciados como nos que tinham dificuldades em andar, é bom ter soluções… é tão bom!
Moral da história, estes doentes seriam tratados para duas doenças diferentes, com tratamentos desadequados se por acaso alguém não tivesse agarrado em vários livros com vontade de encontrar a melhor solução para este problema.
Ora, como seria de esperar, nunca mais me vou esquecer desta doença, agora o que espero é que também nunca mais me esqueça de, em todas as situações da vida, pôr todas as hipóteses de diagnóstico ou de decisão em cima da mesa e de ponderar cada uma delas com seriedade em vez de ficar com a óbvia, porque apesar de raro o Beri-Beri anda por aí… e se “em medicina o que é raro é raro e o que é comum é comum”, na vida isto nem sempre é assim!
E por hoje é tudo…
Leitor imaginário mais um dia e vamos para casa!
Leitores que gostam de imaginar continuemos de olhos abertos…os diagnósticos em conjunto têm mais piada!

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Dia 58_ “Os mitos da África”

O meu estágio está quase a acabar, em breve voltarei ao meu “mundo” que agora já não é o mesmo, até porque espero já não ser a mesma, se não tudo isto teria sido um grande desperdício de tempo e de recursos. E é em jeito de conclusão (provavelmente, uma de muitas) que hoje decidi escrever sobre os mitos que existem sobre “a África”, sendo que só nesta expressão reside um erro gigante, porque não há “a África”, mas as Áfricas! Várias, diferentes, cada país, cada região, cada povo tem uma identidade, não se pode pôr tudo num mesmo saco e dizer com a entoação dum turista a cheirar a repelente, besuntado em protector solar e calções de linho “na África” é assim ou é assado! Só a ignorância poderá não perceber as diferenças.

Comecemos então com um dogma muito famoso:

- Na África (sintam a ironia!) há muita fruta e boa fruta! Ele é mangas, papaias, goiabas, bananas, etc. Bom, estou cá há dois meses e nem vê-la, quanto mais comê-la! Por aqui, a expressão “fruta da época” tem realmente significado, cada fruta tem uma época em que é muito abundante e depois desaparece. Contudo, há a época das chuvas em que tudo é escasso… tive azar! E quando estava quase chateada com a “Dona África” por me ter enganado este tempo todo, pensei: “Olha que engraçado, há por aí muita gente que só come bananas na época delas, que só come mangas quando é tempo, e que quando não há fruta, como na época das chuvas…olha, não come!!” Pois é, aqui não dá para ir ao hipermercado comprar bananas da Costa Rica e mangas do Brasil. Nesta terra, a natureza ainda dita as regras, algumas bastante severas, estes três meses sem fruta significam crianças sem acesso a vitaminas o que em alguns casos resulta em avitaminoses nada bonitas de se diagnosticarem. Juntar a isso o facto da maioria das pessoas fazer apenas uma refeição por dia, a qual, normalmente, corresponde a uma tigela de arroz com molho e, às vezes, um pouco de peixe, juntemos ainda água não potável, misturemos tudo muito bem e na próxima vez que as ameixas do supermercado não nos agradarem, porque estão murchas ou verdes… pensemos duas, três vezes… Pensemos, porque pensar não faz mal, dói mas… o que arde cura!

Outra coisa engraçada:

- “Na África as coisas são muito baratas, é só pechinchas! “ é verdade que existem coisas absurdamente baratas, como o tabaco (3 cigarros não chegam a 20 cêntimos) e como o caju que pode encontrar-se a 50 cêntimos por kg (e depois é vendido na Europa a altos preços… alguém faz muito dinheiro com isto, e não são os camponeses que o colhem!). No entanto, há coisas que gostamos de chamar “essenciais” (palavra que muda consoante a latitude) como o leite em pó (não se esqueçam, que não há frigorífico cá em casa…não há electricidade, resta-nos a lata de leite em pó), os iogurtes, a carne que são caríssimas e totalmente inacessíveis para a maioria das pessoas. Num país sem indústria e com uma agricultura de subsistência quase tudo é importado e até o arroz que funciona como a base da alimentação vem de fora!

Passemos, para uma questão dita “fracturante”:

- Os meninos coitadinhos e ranhosos com barrigas grandes, “Ai, para aquelas crianças qualquer coisa serve, eles não têm nada, passam fome coitadinhos!” A sério, se há coisa que me irrita é este discurso de Miss Mundo, isso e enviarem caixas e caixotes de roupa estragada, cadernos cheios de folhas escritas, canetas que não escrevem, sapatos rotos e a minha preferida: uma caixa com mais de 200 sapatilhas de Ballet (sinceramente…). Por aqui, as necessidades são mais que muitas, há crianças desnutridas, há doenças facilmente curáveis que matam, e não há uma data de coisas que devia haver, porque este nosso mundo devia ser mais justo e igual! Mas, este fosso que há entre nós e eles não se resolve com uns quantos casacos velhos num contentor com destino “às Áfricas” para acalmar a consciência e arranjar espaço no armário. Esta injustiça vence-se com esforço, com uma aposta no chamado desenvolvimento sustentável, com formação, com estabilidade política e económica. E nós temos um papel a cumprir nesta missão que não se resume a suspirar diante de imagens de crianças magrinhas ou a fazer doações pela altura do Natal, até porque a ajuda pontual pode ser mais destrutiva do que benéfica. Descobrir o nosso papel nesta luta pela justiça é responsabilidade de cada um de nós! Por favor, não se contentem com as respostas fáceis que são como bálsamos para a alma e que deixam a realidade intacta e intocável… Há que abrir os olhos para o mundo que nos rodeia, mas também há que abrir as mãos e, por vezes, há que sujá-las…

Leitor imaginário e outros que por aí andam, é de mito em mito que vamos conhecendo o mundo, ia dizer “a África”, mas lembrei-me a tempo que isso é um mito…

Um abraço

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Dia 55_ “ silêncios e noites mal dormidas”

O dia começou com uma viagem de canoa para S.joão, onde vamos uma vez por mês dar assistência médica e trabalhar com a comunidade temas importantes, como planeamento familiar, nutrição, tratamento da água, entre outros.

Demos consulta em duas tabancas, e vimos de tudo um pouco, desde gente muito doente com pneumonia, gastroenterite grave, malária, a gente saudável que nem uma alface (o ícone das coisas saudáveis), mas com muito medo de estar doente e muita vontade de ser vista pelos “brancos” e estes são os mais difíceis de tratar… como aquela senhora que quando lhe perguntei a idade me respondeu que tinha 140 anos (bom…) e que se queixava de dores no corpo e cansaço: “pudera com essa idade!”, lá levou uma pomada para acalmar a passagem do tempo, um verdadeiro creme “anti age”!

O dia chegou ao fim, tranquilo, com tempo para ver o pôr-do-sol e ler “Os cus de judas” do Lobo Antunes e foi no meio da descrição fantástica que ele faz da guerra de Angola que me chamaram, porque havia mais consultas para fazer. Uma carrinha de caixa aberta tinha acabado de chegar vinda de uma tabanca distante e onde não há assistência médica, trazia 4 doentes, e só chegou ao fim do dia porque a “estrada” (que não tem alcatrão) estava em péssimo estado e tiveram de parar umas quantas vezes.

Começámos por uma criança, olho esquerdo inchado (inchado é pouco!) há mais de um mês, a miúda nem conseguia abrir o olho, esperemos que este seja um daqueles casos em que os antibióticos fazem milagres… ” Como é que é possível deixar isto andar um mês? É um olho! É uma criança! “- grita a nossa alma ocidental nascida e criada em centros de saúde, mas o eco que recebemos é o de uma mãe que vive num sítio onde NÃO HÁ assistência médica (silêncio… não há nada como o silêncio).

Agora é a vez da mãe, que também se queixava de um olho, e eis que foi à luz de uma lanterna, porque entretanto tinha anoitecido e não há electricidade no posto de saúde, que vi a minha primeira úlcera da córnea … (silêncio, outra vez!) uma pomada e olha… quer dizer “olhar” não é bem a palavra, poderá ser um termo de difícil utilização no futuro.

Passámos para uma senhora, agora era noite cerrada lá fora e eu estava a ficar cansada, confesso que quando ela se queixou de dores de garganta pensei: “ya, uma amigdalite viral, passa sozinho daqui a 3 dias… Até que ela abre a boca e na garganta, lá bem ao fundo, estava uma massa do tamanho de uma bola de ping-pong que de tão grande que era empurrava a úvula para um dos cantos da boca. Consistência dura, imóvel, recoberta de mucosa oral, sem febre, sem dor, sem outros sintomas a não ser um emagrecimento e um cansaço difíceis de quantificar. A pergunta a fazer é :”Mas que raio é isto?”, não temos resposta, ali de lanterna na mão a olhar “feitos parvos” para a garganta da senhora e a recapitular mentalmente os apontamentos das aulas de otorrino com vontade de ligar ao professor que no fim das consultas perguntava sempre aos doentes com um grande sorriso se tinham dúvidas. Não temos uma resposta definitiva, mas as que nos vêm à cabeça são más, são muito más… e se calhar teriam solução no IPO ou num qualquer serviço de otorrino num hospital central, mas… silêncio mais uma vez! Aconselhámo-la a ir ao hospital de Bissau, lá eles têm análises e Raio X… mas não há TAC, não há TAC em toda a Guiné… o silêncio voltou!

Para terminar vimos um rapaz, 19 anos, há um mês atrás tinha-se aleijado com um pau no olho e agora não conseguia ver bem, então de lanterna em punho, encontrámos uma córnea ”esfarelada”, reflexo pupilar inexistente, acuidade visual extremamente reduzida, 19 anos… menos um olho… mais silêncio! E foi com calma e com o máximo de tacto possível que lhe dissemos que não havia nada a fazer e que ele, muito provavelmente, não melhoraria a visão, ao que ele reage com um encolher de ombros e um olhar para o chão… A dureza e resignação também se aprendem, e por aqui essa escola começa cedo…

Dormi mal nessa noite, havia demasiados silêncios na minha cabeça e o barulho deles não me deixou dormir…

Leitor imaginário, continuarei por cá de lanterna na mão… um abraço!

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Dia 48_ “de vez em quando sinto-me em casa”

Esta foi a minha terceira viagem à ilha das galinhas (e última…ai!) e aconteceram muitas coisas interessantes, como a história do tio João e da seringa “en garde” na luta contra a pneumonia, como ter aprendido a pôr soro nos doentes (bom… não acertei na veia à primeira, mas o que conta é participar!), como ter comido Korn bife a todas as refeições, como ter apanhado um sem número de chuvadas em cima e… E era aqui que eu queria chegar (tudo técnicas para criar suspense), ter participado num acampamento de jovens cristãos vindos de toda a Guiné, e isto sim foi bem interessante!

Pelos vistos, este acampamento acontece todos os anos na ilha das galinhas, juntam-se uns 250-300 jovens vindos de várias igrejas protestantes de toda a Guiné, para uma semana de convívio, reflexão e descanso. Caso sejam frequentadores assíduos aqui do “tasco” devem ter lido uns comentários feitos por alguns dos leitores não imaginários (até custa a acreditar que os há!) que diziam que neste acampamento de jovens, há uns anos atrás, havia o projecto de comprar uma canoa para que houvesse um transporte público entre a ilha e Bissau e o de construir uma escola. E assim foi, lá estava a canoa em pleno funcionamento e a escola também, sendo que tudo nasceu devido a várias parcerias entre a igreja evangélica de Bissau, a ABLA (Associação de Beneficência Luso Alemã), algumas igrejas evangélicas portuguesas, a comunidade residente na ilha, entre muitos outros anónimos, e isto, caros leitores, isto é que é bonito!! É impossível não ficar feliz quando vejo que há pessoas que andam por esse mundo de olhos abertos e, mais do que isso, de mãos abertas, dispostas a fazer, a ensinar, a dar, a orar, a ir!

É a história de uma dessas pessoas que vos trago. Ontem ao fim da tarde, tive uma conversa muito agradável com a mulher do pastor da igreja da ilha, uma jovem de S.Tomé que viveu grande parte da vida em Portugal, onde estudou e conheceu o marido, e onde, também, decidiu ter uma vida relevante, para lá dos padrões de mulher bem sucedida, de carreira e de felicidade. Por causa disto, juntou-se ao marido num projecto de vida a dois com o objectivo de melhorar as condições de vida dos habitantes da ilha das galinhas e de outras ilhotas ali à volta. O que inclui a escola, a canoa, a responsabilidade da igreja e das várias congregações, e ainda colaborar com a AMI como agente de saúde local. Uma mulher de 30 e poucos anos, com uma filha pequena, num sítio sem electricidade, sem água, onde só há rede de telemóvel num sítio da ilha (ligeiramente à esquerda da porta do posto de saúde), mas com muitos sonhos, com muita vontade de ajudar a construir um país que agora é o dela!

A meio da conversa senti-me como se estivesse num daqueles cultos missionários a ouvir as histórias “da África”, reuniões onde, enquanto crescia, me habituei a sonhar e a sonhar alto, onde descobri que queria ser médica, onde decidi que queria ser relevante, onde no meio de bandeiras, fotografias e histórias mirabolantes fui descobrindo um mundo maior do que o meu, maior do que eu… Mas desta vez, não estava confortavelmente sentada na igreja enquanto o missionário falava, desta vez estava sentada no chão e sem tradutor, numa conversa onde me senti pequenina e muito grata! Grata pela oportunidade, grata por estar onde sonhei estar, grata por poder fazer parte…

E por falar em fazer parte, assisti a uma das reuniões da noite do acampamento e senti-me em casa, há coisas que são iguais em qualquer parte do mundo, principalmente no dito “movimento protestante”!

Por exemplo, estava para aí há duas semanas na Guiné e decidi ir visitar a igreja local, uma igreja pequenina com umas 40 pessoas, como não podia deixar de ser o culto começou com música e muita música, a qual eu só consegui acompanhar com palmas e cantar os “Aleluias” (dado que, o meu crioulo ainda andava pelas ruas da amargura, agora já encontrou a redenção!). Entretanto, a música acaba e a pessoa que estava a dirigir a reunião começa a falar num crioulo acelerado (chinês para mim) e termina a frase com a seguinte palavra: “visitante” e, de repente, todos estão a olhar na minha direcção, bom qualquer protestante sabe que este é o momento mais lindo da igreja : “os benvindos!” seja na Guiné, em Pequim ou em Fanhões! Lá me apresentei e recebi todos os sorrisos simpáticos da congregação e vá lá safei-me da música das “boas vindas” (isto deve ser uma adaptação portuguesa), e mais uma vez senti-me em casa! Na altura da pregação, uma senhora levanta-se do seu lugar e senta-se ao meu lado, tinha reparado que eu não tinha Bíblia para acompanhar a leitura e veio partilhá-la comigo, foi bonito, foi-me familiar… soube bem!

Leitor imaginário e outros que por aí estejam, espero que estas histórias vos façam sonhar e desejar fazer parte da construção desta obra… deste mundo! Para que a miopia, o medo, o esquecimento e as cadeiras fofinhas não nos impeçam de ir, de ir e de cumprir a nossa parte!

domingo, 19 de setembro de 2010

Dia 47_”O que é demais tem cheiro…”

Voltámos à ilha das Galinhas! E a palavra “exagero” não me sai da cabeça, trouxe-a comigo e vou guardá-la na mala à prova de água e de tempo, porque ela sozinha consegue resumir toda a minha experiência na ilha e no resto da Guiné! E antes de franzirem a testa e de acharem que eu é que estou a exagerar, deixem-me explicar.

Comecemos de cima para baixo, pelo céu desta terra, que é exageradamente lindo e impressionante, as estrelas brilham mais e melhor e a lua (ai a lua!) é avassaladora, o pôr-do-sol tem mais cores e texturas do que alguma vez me ensinaram. Neste céu tudo é gigante, cheio de beleza, tudo faz arregalar os olhos de alguém que, como eu e como nós, se habituou a olhar para o céu da janela do 5ºandar enquanto tenta evitar os postes de electricidade, os prédios vizinhos e a publicidade do próximo candidato.

Ainda vinda do céu temos a chuva e por aqui quando chove, chove a sério, o dia todo e em quantidades industriais, não é aquela “chuvinha molha parvos”, não se brinca se é para chover tem de haver raios e coriscos, árvores caídas e rios a transbordar! E com o calor é a mesma coisa, faz um calor que é um exagero…um exagero de suor e de sensação peganhenta e não há banho que salve, e com esse calor vem um cansaço, uma letargia, uma apatia inexplicável!

E em exagero e com exagero há que falar dos mafarricos que circulam no céu, os mosquitos, que são muitos, grandes e maus e que, ainda por cima, trazem com eles a caixinha da malária! Dessa há que ter medo, nestes últimos dias em 60 doentes 30 tinham malária, mais uma vez um exagero... tudo em exagero!

Mas não são só as doenças que se dão a exageros, aqui até os medicamentos o fazem, por exemplo, na ilha das galinhas chamaram-nos para ver um “Ome grande” (idoso) que estava muito doente, quando chegámos lá quase que não foi preciso usar estetoscópio para diagnosticar a pneumonia que ele tinha, estava com uma dificuldade respiratória gigante, com taquicardia, febre e ainda com uma perturbação da consciência. Os pulmões estavam cheios de bichos e de ranho até ao tecto (modo didáctico de explicar a pneumonia aos doentes), a solução era um antibiótico endovenoso, um soro, uma máscara de oxigénio, monitorização apertada, num hospital central numa enfermaria de medicina interna… era tudo muito lindo, mas não há! Estamos na Guiné, numa ilha sem electricidade, sem água potável, sem hospital, sem meios, e foi sentados no chão da palhota do Tio João que decidimos que a única coisa que podíamos fazer era dar um antibiótico injectável e esperar… e assim fizemos! Ou melhor, fiz, dei o meu primeiro antibiótico injectável!! No dia seguinte lá fui eu à palhota, depois de me perder 3 vezes, reavaliar o doente e dar a segunda dose de antibiótico, e constatar que nesta terra até os antibióticos têm um efeito exagerado, o Tio João estava muito melhor, exageradamente melhor… valha-nos isso! Terceiro dia e última dose de antibiótico! Mas estávamos noutra tabanca a 10 km de distância, era preciso ir lá de mota dar a injecção, preparou-se o antibiótico e colocou-se na seringa, o nosso marinheiro (que conduz motas nas horas livres) foi buscar a mota, e isto sim é digno de ser contado, lá fomos nós rumo à outra ponta da ilha, sendo que eu ia de seringa em punho (mesmo em punho, apontada para o céu, de modo a não ferir ninguém), estetoscópio num bolso e compressas no outro…tentem imaginar, mas só visto! E assim se matam os bichos dos pulmões, com exageros dignos do Macgyver!

Habituei-me a admirar o equilíbrio e a moderação, ensinaram-me que no meio morava a virtude, mas depois destas histórias, acho que isto nem sempre é verdade, claramente há muita virtude num céu brutalmente estrelado e não num céu moderadamente iluminado, há mais beleza num sorriso exageradamente aberto do que num parcialmente simpático. Por vezes, quanto mais melhor, às vezes o que é demais cheira bem, cheira muito bem!

Por outro lado, há alturas em que o que é de menos cheira mal, cheira mal não haver uma cama num hospital para o Tio João, cheira mal as pessoas ainda morrerem de malária, cheira mal não haver electricidade numa ilha inteira…

E assim se aprende a desconfiar daquilo que nos ensinaram, porque equilíbrio é bom e faz falta, a harmonia traz beleza e segurança, mas há exageros que sabem bem, há hipérboles magnificas… e esta terra está cheia delas, arrisco-me a dizer que a beleza da cultura guineense reside no exagero, nas cores exageradas, no sorriso rasgado, na música alta e na dança extravagante, na vontade alucinada de refazer um país que tal como as pessoas é exageradamente complexo…

Leitor imaginário, estou exageradamente contente por poder conhecer esta parte do mundo que é menos moderada, menos arrumada, menos limpa… mas nunca menos bela!

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Dia 44_ As assimetrias

A semana correu com tranquilidade, o sossego necessário para as reflexões, ninguém consegue pensar ou pelo menos ir longe nessa caminhada quando o relógio passa de indicador a inquisidor. Talvez por isto, hoje não vos trago um episódio ou um acontecimento marcante, mas alguns traços do dia-a-dia que por aqui se vive e que podem ou não dar origem a algumas conclusões interessantes, dependerá do tempo que tivermos disponível…

Comecemos pelo modo como as pessoas se cumprimentam:

-“Bon dia!kumo é ke bu manse?” - “Bom dia! Como é que acordaste?” – interessante, por aqui não se pergunta se dormiste bem, mas se acordaste bem, afinal é mesmo isso que importa!

Depois segue-se a pergunta : “Kumo é di Kurpo?” – “Como é que está o teu corpo, como está a saúde?” – num sítio onde a esperança média de vida anda nos 45 anos a questão do corpo ganha uma importância que do nosso lado da janela é difícil de compreender. A angústia não reside na pele casca de laranja, nos cabelos brancos, no perímetro abdominal… por estas bandas a angústia é outra. Crua. Elementar. Fome. Sede. Frio. Calor.

“Kumo stá a família?” – “ Como está a família?” – talvez isto ainda se pergunte nas aldeias de Portugal (e nesse grande centro urbano chamado Fanhões), mas nas cidades já ninguém pergunta, só alguém que conhece a nossa família é que vai perguntar por ela. Porém, aqui qualquer desconhecido tem essa preocupação, o que nos ajuda a conhecer um pouco mais do coração destas pessoas.

Um coração cheio de paradoxos, cheio de hipérboles, assim como todos os corações devem ser! Aqui respeitam-se os idosos como quem venera a riqueza da existência os “Omes Grandes” como lhes chamam têm mais voz e poder de decisão que toda a gente, são reconhecidos pela experiência e pela sabedoria adquirida ao longo dos dias, não há lares de idosos, nem casas de repouso… ninguém compreende a sua utilidade. (E afinal qual é?!)

Por outro lado, olham para as crianças com olhos muito diferentes dos nossos, não as protegem das esquinas dos móveis nem das correntes de ar, não lhes dão leite com extra cálcio e vitamina B12, não as inscrevem no inglês nem nas aulas de piano aos 4 anos… Estas crianças não vêem o Disney Channel e não é porque é muito violento, é porque não têm TV em casa, também não têm electricidade, bom… há muitas coisas que elas não têm, lá isso é verdade! Contudo, conhecem melhor o colo da mãe do que muitas crianças das nossas, andam nas costas da mãe para todo o lado, ninguém as põe na creche às 7h para as ir recolher às 20h… brincam descalças na rua, aprendem a participar nas tarefas da família bem cedo, sabem que ir à escola é um privilégio (aqui não se bate nos professores!). Se chegam aos 5 anos são umas vencedoras, atingir esta etapa é sinal de grande resistência física e de muita vontade de viver. No outro dia perguntei a uma mãe qual era o nome do seu recém nascido… não tinha nome, só tinha passado uma semana, ainda tinha muito a provar, os nomes vêm mais tarde! Nesta terra o valor das pessoas cresce à medida que vão envelhecendo, na nossa é precisamente ao contrário, enquanto eles lutam para poder envelhecer, nós lutamos para travar esse envelhecimento…

Oh mundo assimétrico e com tanto para ensinar… e quanto mais orientados, conscientes e colaborantes melhor, e assim fica provado que para conhecer o coração das pessoas basta saber como é que elas dizem os “Bons dias”, qual ecocardiograma qual quê!

E aqui ficam os desejos de um óptimo dia para o Leitor imaginário e para os menos imaginários, também.

domingo, 12 de setembro de 2010

Dia 37 (à tarde) _“vesgos e esquecidos”

Continuo a contar-vos a história do meu 37º dia por terras Guineenses, por aqui há dias compridos que merecem 2 entradas no “tasquim”.

O “toca-toca” chegou a Bissau às 15h, eu já estava com uma certa fome (adoro a especificidade da língua portuguesa, não há nada pior que ter uma fome incerta) e ia almoçar sozinha, porque o outro membro da equipa estava com febre e ia descansar para o hotel (passado umas horas descobriu-se que a febre era malária…ai… que eles “andem” aí! Bom, espero que a mefloquina não se esqueça de fazer efeito, é que para a quantidade de vezes que sou picada…). Recomendaram-me um restaurante que era barato e tinha umas espetadas muito boas, lá fui eu, à procura da “mana Bucha”, encontrei uma espécie de garagem escura e vazia, mas com a porta aberta e uma senhora a lavar roupa num grande alguidar! Era o sítio certo. Não estava fechado, mas hoje só fazia comida para levar, ora se eu levasse era para comer ali à porta, sentadinha nas escadas até porque estava a chover horrores lá fora. Depois de explicar a minha situação à senhora e quase a desistir de comer as famosas espetadas, numa última tentativa de persuasão hoteleira lá mandei para o ar (no meu melhor crioulo) “Pudi kumi li?” (posso comer aqui?) e a senhora limita-se a responder: “Pudi!” e tira uma mesa e uma toalha e está montado o restaurante (flexibilidade no seu melhor!).

Foi uma óptima refeição, daquelas em que a falta de limpeza do sítio é compensada pelo sabor da carne de origem duvidosa, e a companhia acabou por ser muito agradável, almocei com o Ryszard Kapuscinski, jornalista polaco que foi correspondente em África, América do sul e também na Europa de leste. Bom, mais precisamente, almocei com as histórias que ele conta no “The Soccer War” um livro sobre os vários conflitos que aconteceram em África na década de 60 e que ele testemunhou. Leiam, fica-se a perceber muita coisa sobre a realidade actual deste continente, há acontecimentos que é bom ter bem vivos na memória, não vá o Alzheimer atacar.

À tarde fui ao Bandim, o mercado principal de Bissau, é indescritível! Bancas e banquinhas por todo o lado, vende-se comida, sapatos, ganchos, regadores, escovas, panos coloridos, tudo e mais alguma coisa, toda a gente grita, empurra, vende, regateia, faz troco e estava especialmente animado porque a selecção de futebol da Guiné estava, naquele momento, a jogar em casa contra o Quénia, era toda a minha gente a ouvir o relato com aqueles rádios rectangulares pretos que todos os avós que se prezem têm. Estou eu a escolher um pano na barraquinha dos panos (tudo para estimular a economia local, porque uma pessoa compra um pano todo catita e exótico em Bissau e depois em Bolama vai ao Sr. Sadjo que é alfaiate e manda fazer um vestido ou umas calças, e assim se aposta no desenvolvimento da nação), e enquanto estou a olhar para os panos, a Guiné marca um golo… foi o delírio, a loucura! Mesmo assim, lá tive que me esforçar para negociar um preço aceitável pelos panos, nesta terra nada tem um preço fixo, e aprendi com o Kapuscinski que se o comprador não negoceia o preço é quase uma falta de respeito pelo vendedor, como se não o considerasse digno! Lá comprei os panos e o médico que estava comigo comprou uma T-shirt da selecção da Guiné (na loja do chinês, os chineses estão por todo o lado na Guiné, ai se eu gostasse de conspirações, tinha cá as minhas teorias!).

A Guiné ganhou ao Quénia 1:0, e segundo o que consta não ganhava um jogo há 12 anos… imaginem as ruas… qual marquês de pombal qual quê! E a tal T-shirt fez o sucesso das avenidas de Bissau…até um abraço dum total desconhecido levei!! E gritavam: ” Guiné no coração”!! Não gosto de futebol, mas gostei imenso da animação das ruas, estava toda a gente na rua a celebrar o facto de serem Guineenses, havia gargalhadas e felicidade no ar. É pena, é que seja só por causa do futebol, este orgulho em ser Guineense, esta vontade de vencer, se isto fosse canalizado para outras áreas como a saúde, a educação, o desenvolvimento do país, era tão melhor… Mas amanhã esta vontade de ver a Guiné vencer já passou e a velha frase vai voltar “jeto ca tem!” (não há maneira, não dá!). E isto não acontece porque eles são piores que nós (portugueses ou europeus) ou porque são mais preguiçosos, acho que a principal razão é a falta de memória! Eles esqueceram-se que é possível, que há esperança, que apesar de levar tempo as coisas podem melhorar! Estas pessoas viram muita desgraça nos últimos anos, viram e vêem, e com o passar do tempo esqueceram-se daquele velho princípio do “quem semeia, colhe!”, talvez por isso tenham deixado de semear…

Mas não foram só eles! O Alzheimer é muito prevalente do nosso lado do mundo assim como a miopia… então para que não nos tornemos vesgos e esquecidos, resta-nos estar atentos ou como há quem goste de lembrar: “vigiai e orai”…

Duvido que à excepção do leitor imaginário alguém tenha lido isto até ao fim, mas caso esse alguém exista, fica aqui um grande bem haja para o corajoso(a)!!

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Dia 37_ “Toca- toca” a lutar contra um coração míope – parte II

Hoje foi dia de andar de “toca-toca” que é um transporte público, uma carrinha de 9 lugares (com uns bancos laterais), que faz longas distâncias e que é mais barato do que andar de táxi! Apanhei um “toca-toca” com destino a Quinhanmel, lá fui eu mais um membro da equipa, mais 24 pessoas (que eu contei!) que foram entrando ao longo do caminho, tudo dentro da mesma carrinha, a tal de 9 lugares, com as portas de trás abertas e gente empoleirada até ao tecto. Foi lindo, 50 minutos de viagem, ligeiramente apertada (!), ao som de música africana e com as pessoas do carro a cantarolar e tudo!

O objectivo era visitar o centro do Desafio Jovem na Guiné, sabia que era em Quinhanmel e não tinha mais indicação nenhuma…. Estamos na Guiné, improvisa-se! Perguntei às pessoas do “toca-toca” se sabiam onde era um centro de recuperação de drogados ao que uma senhora depois de eu ter tentado explicar mais do que uma vez no meu crioulo “todo o terreno” me pergunta com muita entoação : “ké, centro de Dúdos?!” bom… sim, pode dizer-se que sim, uns serão mais doidos do que outros, mas é lá que queremos ir! Ela levou-nos lá, depois percebi que ela ia lá visitar o primo. Claro que no caminho, uns 2 km que fizemos a pé e à chuva, ela foi contando em registo de pedido que o marido estava doente, que tinha 5 filhos, que tinha fome… nestas alturas nunca sei o que fazer, no último mês tenho aprendido muito sobre sustentabilidade, sobre capacitação da população, sobre desenvolvimento. Porém, ao mesmo tempo, a ajuda pontual parece fazer sentido, é claro que não fiquei indiferente ao pedido de ajuda, mas também não quero incentivar a mendicidade e a ideia de que todos os “brancos” são patrões, são ricos… Não tenho respostas! Aqui a miopia ganhou!

Chegámos ao Centro do desafio jovem! Não sei o que é que estava à espera de encontrar… talvez uma quinta com edifícios brancos e jardins…talvez! Encontrei uma “quinta”, mas não tinha jardins, os edifícios eram velhos e com um ar inacabado, um local feio e triste! Perguntei pelo director, mas não estava. Contudo, falei um bocado com a pessoa responsável, conversa agradável, o centro é dos únicos sítios na Guiné que recebe pessoas com problemas de toxicodependência, alcoolismo e toda uma variedade de patologia psiquiátrica, são a resposta para muitas necessidades! E isto é um sinal de esperança, uma esperança um pouco fosca, eles trabalham em más condições, sem estruturas, sem recursos humanos, sem experiência, sem apoio governamental… é árduo! No entanto, por mais fosca e baça que seja esperança é esperança e morre só lá para o fim… e num dos países mais pobres do mundo é bom saber que há quem se preocupe com os outros e não só com a sua porção de arroz!

No meio das minhas pseudo conclusões sobre o que tinha acabado de ver, sobre a conversa sobre a toxicodependência nesta terra, sobre aquilo que podíamos fazer para ajudar (sim, eu e vocês que estão a ler isto), bom… a meio disto reparei que estava um “toca-toca” dentro do centro. Duas perguntas depois e descobri que o “toca-toca” veio trazer uma família que ia deixar o seu filho no centro, era só esperar um bocadinho e tínhamos transporte directo para Bissau.

Desta vez íamos mais à larga, mas passado 10 minutos parámos… porquê? Para arranjar um pneu! Lá ficámos nós dentro da carrinha à porta daquilo que faz as vezes de “Zé dos pneus” de Quinhanmel, 45 minutos depois, olho pela janela e vejo um pneu com um remendo e alguém diz “kaba já” (já acabou)! Altura em que o membro da equipa que estava comigo exclama :” O quê, vão trocar o pneu connosco cá dentro?” Ninguém respondeu, não foi preciso! Ah pois trocaram! E partimos!

Leitor imaginário espero que hoje o teu coração esteja um bocadinho menos míope… o meu está, mas a luta continua (já dizia o manifesto!).

Um abraço

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Dia 35_ as lutas de um coração míope

Voltei a Bissau, os próximos dias serão de descanso e de “turismo”!

Por aqui, as ruas continuam sujas, esburacadas, escuras… Feios, porcos e maus! Mas isso toda a gente vê, eu cá queria ir para lá do óbvio, e claro, vocês estão convidados a embarcar nesta “visita de estudo” : Bissau e os seus encantos!

Comecemos pelo alojamento, podia ter ficado num hotel com ar condicionado, duche quente (ai saudades!), croissants ao pequeno-almoço e wireless. Mas não, a estudante que há dentro de mim e que me cuida das contas disse que não! Então fiquei na D.Berta ou pensão Central como diz o Lonely planet (sabiam que havia um para a Guiné Bissau?!), sítio simpático e em conta, sem água canalizada e com luz só às vezes, mas com uma caminha boa e lavadinha… que me deu trabalho a conseguir, nesta terra tudo exige negociação! Cheguei à D. Berta lá pelas 16h, depois de uma viagem atribulada de canoa desde Bolama, estava toda molhadinha e com vontade de descansar. Pedi um quarto e perguntei pela D.Berta , uma velhota Cabo verdiana muito simpática, mas ela não estava, então tratei de tudo com o guarda, primeiro perguntei-lhe o nome e apresentei-me, a seguir perguntei-lhe se tinha passado bem o dia, como é que estava a família, (é assim que todas as conversas começam nesta terra, há que perder tempo com as introduções se queremos boas conclusões, foi das melhores lições que aprendi!) depois disto, deu-me uma chave e lá fui eu toda contente. Abri a porta e verifiquei se havia electricidade…e havia!!! Mas…bom, não havia toalhas nem lençóis na cama! Fui chamar o meu novo amigo, e o problema é que essas coisas estavam num quarto que estava fechado e quem tinha a chave estava a caminho… está bem, eu posso esperar! Claro! (Já referi o facto de que estava toda molhada e com frio?) Esperei 15 minutos! Fui chamá-lo! “ Ai, está quase resolvido, espera só um pouco, a chave vem goss-goss (agora, agora)”. Fui para o quarto e vi 2 episódios de uma serie (foram 90 minutos), mas tudo tem um limite…ai! Fui lá outra vez, “ai desculpe, a pessoa não vem, vou ter de arrombar a porta!”. E assim foi! Deu dois pontapés na porta do tal quarto e lá estavam as famosas toalhas, depois foram mais 30 minutos que ele levou a olhar para os lençóis e a escolher o correspondente (muito cómico, a sério!). E sim, passado 2h30 de ter chegado consegui tomar banho de água fria e à caneca, mas já não ter sido às escuras foi uma sorte! Nunca tinha esperado tanto por uma toalha!

Isto foi só o começo… depois fomos de táxi para o restaurante onde íamos jantar… adoro transportes públicos, se alguém quer conhecer um país tem de experimentar andar em toda a variedade possível de transportes, é tão importante como visitar museus!

E os táxis na Guiné são espectaculares, azuis e brancos, bastante velhos e usados, e apesar de terem apenas 5 lugares, levam 6 pessoas, e é tipo autocarro vai parando para recolher pessoas até encher. O nosso táxi à partida não tinha nada de especial, até que se houve um barulho e o condutor em andamento abre a porta, espreita para a roda e murmura “furou!”, altura em que encostou o carro à berma! NÃO! Não parámos, continuámos a andar como se nada fosse, lá íamos nós com o carro cheio, a chover torrencialmente, numa estrada em que há mais buracos do que alcatrão e com um pneu furado! Vá lá, correu bem… e jantámos bem, muito bem até! Nunca um bife com cogumelos me soube tão bem! Mas com o bife veio um pensamento que não estava na ementa, às vezes não há alienação gustativa que chegue para exorcizar as reflexões dum coração que anda à luta com a miopia. O restaurante era excelente, decoração perfeita, bom ambiente, comida boa! Claro, que o restaurante não era dos guineenses nem para os guineenses…Claro, porque se fosses escuro, escuro e pobre era uma tigela de arroz e já ias com sorte!!

Leitor imaginário… hoje ficamos por aqui, amanhã a luta contra a miopia continua…

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Dia 29_ “top 10 de Bolama”

Ao reler algumas das coisas que fui escrevendo aqui no “tasco” (modo carinhoso de apelidar esta plataforma de comunicação) fiquei com a sensação de que quem leu as minhas histórias poderá ter ficado com a ideia de que tudo aqui é difícil, pesaroso e que vou todos os dias angustiada para a cama! Mas não! Por isso, e com o objectivo de repor a verdade e a justiça, hoje não vos trago uma história, mas várias. Hoje a nossa viagem é ao “top 10” cá da terra, as 10 maravilhas, aquilo que faz desta missão da AMI uma missão “muito bonita” citando uma grande autoridade em missões de desenvolvimento.

1. 1. 1. O céu! A sério é qualquer coisa de divino, há coisas que nem as fotografias podem testemunhar e as noites de lua cheia em Bolama são uma delas. A contemplação ganha pontos por aqui.

2. 2. 2. A rã que canta debaixo da minha janela todas as noites a horas incertas. Na primeira noite foi estranho, confesso… mas agora faz parte do encanto. Adormecer a ouvir a rã e o seu coral de insectos (cujo nome nunca aprendi) é melhor do que fazê-lo a ouvir as motas a acelerar na estrada ou a festa da vizinha que teima em pôr música brasileira.

3. 3 3. A cadeira do terraço! Virada para o mar que liga a ilha ao resto do mundo! É o melhor sítio da casa para ler, meditar, conversar, comer torradas… A calma desta terra é inexplicável, já há muito tempo que não estava num sítio assim, e gosto!

4. 4 4. Os fins de tarde no “Madana”. Bom, o Madana é o dono de uma “espécie” de café com esplanada que há aqui à frente de casa virado para o oceano, só vende bebidas e mancara (amendoim) ah e se avisarmos com tempo transforma-se no nosso restaurante de Domingo (o melhor desta terra é a flexibilidade). O processo é muito simples, basta-nos atravessar o campo de futebol e lá vai o Madana buscar uma mesa e algumas cadeiras – está montada a esplanada! Se por acaso tivermos vontade de comer alguma coisa para além da vasta oferta de amendoins, também não há problema, no outro dia levámos os chouriços e ele até emprestou o fogareiro e cedeu o carvão.

5. 5 5. Os livros e o tempo para os ler… maravilha! Sem electricidade e sem internet regulares o espaço para as leituras aumenta e isso, claramente, pertence a este top! Tenho lido a um ritmo alucinante, um livro por semana (é tão bom!). E ler, por aqui, também é uma actividade social, só é pena não haver jornais…isso seria perfeito!

6. . 6. A ilha das galinhas… adoro! Impossível de descrever…o céu estrelado, a praia, as viagens de barco, …, até as tempestades são bonitas (bom, quando estamos em terra e com um telhado por cima!).

7. 7. 7. A Fatu e o seu pudim. A Fatu é a senhora que trata da casa e que faz a comida (peixe, arroz, arroz, peixe, peixe, arroz, fruta pão, peixe, mais peixe, arroz, batatas, arroz e peixe. Ela cozinha muito bem apesar da “variedade”, e faz um Sr. Dr. Pudim de comer e de esquecer o peixe que se comeu… haja maneira de alienar as papilas gustativas!

8. 8. 8. Por falar em comida, não podia deixar de lado o “korn bife”, essa grande instituição da comida enlatada sedeada na Guiné-bissau. O que é? - Perguntam vocês. Bom, na verdade ninguém sabe! Aquilo tem uma galinha na lata, mas não sabe a frango, também não sei a que é que sabe… é qualquer coisa parecido com carne para barrar no pão, também se pode comer aos bocadinhos no … (adivinhem!) no… arroz!

9. 9. 9. O Mustafa, não, não é um vendedor de tapetes da Mouraria, é um dos trabalhadores da nossa equipa. É um Guineense no verdadeiro sentido da palavra, tem muita piada,11 filhos e óptimas histórias (umas mais fiáveis do que outras), a conversar com ele, entre o crioulo e o português, aprende-se muito e de tudo um pouco, no outro dia explicou-me o Islamismo visto da óptica do utilizador… muito interessante! Ah, e está a fazer o Ramadão… mesmo à risca!

10. 10. Cantar à mesa as músicas do Cércio (nome artístico)! Já me ri muito com as nossas tentativas (quase sempre frustradas) de cantar uma música com a letra e melodia correctas… quando não há entretenimento – inventa-se!

Gosto disto… (quase sempre)

Um abraço para quem está desse lado e deste lado (Leitor Imaginário…este és tu!).

domingo, 22 de agosto de 2010

Dia_20 “A vida é dura para quem é mole…”

O dia começou soalheiro numa tabanca chamada “Madina” e a D. Domingas foi ao mato buscar um legume para o almoço, nada de especial até aqui, a vida corria sem percalços, um dia normal na vida de uma mulher Guineense! Mas, e há sempre um mas… Há 4 espécies de cobras venenosas nesta região! Há muitas cobras na época das chuvas! Há mato! Há azar na vida… Há um pé que é mordido por uma cobra! Pede-se ajuda… liga-se para a AMI! Vamos a correr. A viagem de jipe parece interminável, tentamos definir um plano de acção para quando chegarmos ao destino não perdermos tempo.

Chegamos a Madina, toda a aldeia está em alvoroço, há olhos cheios de esperança, talvez “os brancos” tragam a solução… A senhora vem meio inconsciente, é trazida por 4 homens até nós, improvisa-se uma sala de cuidados intensivos na parte de trás do jipe. Há gente por todo o lado! Avaliam-se os sinais vitais… o pulso mal se sente! Entrou em choque! Ouvimos o batimento cardíaco ir embora… e levar com ele a esperança de ter sido uma cobra não venenosa. Não há nada a fazer! Fecham-se as pálpebras da senhora com respeito e olha-se para baixo… também não há nada a dizer! Inevitável! Toda a aldeia rompe em choro e ranger de dentes. O sofrimento, nesta terra, faz barulho, atira-se para o chão, não tem vergonha de chorar ou de perder a postura, por aqui borrar a maquilhagem não parece importar a quem perdeu “uma Domingas”.

Agora, é preciso levar o corpo para casa, o funeral ou o “toca-choro” como lhe chamam vai decorrer nos próximos dois dias. O jipe leva o corpo e a família que lá coube… eu vou a pé com outro membro da equipa! Caminhamos 20 minutos em silêncio! Nunca o silêncio foi tão confortável e apaziguador! Pelo caminho ouvem-se gritos de desespero, emoções sem filtro, toda a comunidade corre para consolar a família. À chegada resta-nos dizer “fizemos o que pudemos”…

A viagem para casa é também uma reflexão sobre a nossa insuficiência, passamos a vida a acreditar em super heróis, habituámo-nos a esperar que ao último minuto a princesa seja salva e o dragão morto… mas a realidade é outra! A vida é outra… é dura. Não há efeitos especiais, não há desenlaces de última hora. Não há heróis. A vida é dura e nós somos moles… molinhos, fazemos o nosso melhor, esforçamo-nos, lutamos, estudamos… mas a nossa insuficiência é avassaladora! Saber isto, ter consciência da nossa “moleza” ou da nossa consistência pode, por um lado, tornar-se libertador… é bom saber que não controlamos tudo, que nem tudo depende do nosso esforço! A humildade aproxima-se de formas estranhas…

Beijinhos aos leitores imaginários.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Dia_9 : O primeiro dia de consultas na Ilha das galinhas…venham daí!

Primeiro, um pequeno tour pela tabanca (leia-se aldeia), imaginem um povoado com muitas palhotas, muitas crianças a brincar na rua e, como não podia deixar de ser, muitos animais “domésticos” soltos. Bom…um “doméstico” dentro do género, claramente, não eram peixinhos dourados, caniches encaracolados ou hamsters a correr em rodas gigantes, nesta terra as coisas têm de ter uma utilidade e enfeitar não é uma categoria a preencher! Deixemos as explicações antropológicas e passemos às “ruas” da ilha, ora, a pastar, roer, esgravatar, vemos cabras, galinhas, porcos, vacas, alegremente soltos e à solta, sem eira nem beira…bom para eles, péssimo para a saúde!

Ups, pois é, estamos aqui para saber como correram as consultas na ilha das galinhas! Começámos às 9h acabámos às 15h, neste intervalo o meu crioulo cresceu exponencialmente (ah pois, uma pessoa tem de se adaptar! E cá em casa há um livro de iniciação ao Crioulo da Guiné que já li até ao fim e fiz os exercícios!). Entre frases mal compreendidas, feridas infectadas, auscultações com “fôlego fundo” e muitos acenares de cabeça lá se diagnosticaram e trataram as pessoas com a acuidade possível num “mundo” sem raio x, sem hemograma, sem ecografia. Neste “mundo” há poucas certezas, faz-se o que se pode com o que se tem, improvisa-se o resto… Será viral? Bacteriano? Agudo? Crónico? Não sei… trata-se o mais provável e o potencialmente fatal e fica-se por aí!

Por falar em fatal, a história fatídica que vos trago hoje é a de um rapazinho que nos apareceu, no segundo dia de consultas, com um quadro clínico de meningite bacteriana, exactamente como vem descrito nos livros, sem espaço para dúvidas nem no diagnóstico nem no tratamento. Solução : iniciar a antibioterapia e enviar para o hospital de Bolama o mais rápido possível (porque a nossa unidade de saúde tem uma cama, uma secretária e duas cadeiras), como íamos voltar para Bolama no dia seguinte oferecemo-nos para evacuar a criança mais a mãe – problema resolvido, morte evitável! Como é bom ter soluções de vez em quando!

No dia seguinte, preparámos tudo para zarpar (olha só o vocabulário marítimo!), canoa cheia, belo dia de sol, vontade de não apanhar Marão outra vez…E o miúdo? Onde está o miúdo? Esperámos 1h… o enfermeiro da equipa foi à tabanca a casa da criança… não estava lá! E então? Um vizinho, com pena de nós, lá nos disse que a mãe decidiu levar o menino ao curandeiro e que já não ia para o hospital! Bom… pelos vistos ter soluções não basta! Para esta criança não bastou! É claro que para as outras crianças que receberam tratamento para a amigdalite, pneumonia, dermatite, etc., para essas as nossas soluções foram boas e valeu a pena termos vindo… Mas! (silêncio e vontade de dar uns murros em alguém).
Apesar de tudo, há esperança e, por vezes, os sinais dela aparecem inesperadamente, numa viagem de mota entre uma tabanca e outra, reparei que na ilha das Galinhas (pelo menos, no que vi e acho que vi quase tudo!) há apenas 3 edifícios dignos desse nome (leia-se com tijolos e telhas!) um é a igreja evangélica e os outros dois são as escolas da mesma igreja! Isto despertou a minha “curiosidade protestante” e eis que descobri que não só a igreja faz um excelente trabalho na educação como também investe nas vias de comunicação, pois tem a única canoa pública que faz a travessia da ilha para Bissau. Esperança!

Por hoje é tudo, vou continuar por cá… a aprender a ser médica e a ser gente.
Um abraço aos leitores imaginários e aos que gostam de imaginar.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Dia_8

O primeiro “cagaço” na Guiné!

Começo por pedir desculpa pela rudeza da expressão entre aspeada, mas tinha de ser, qualquer outra palavra não faria justiça ao acontecimento em causa!
Tudo começou numa bela manhã de sol, enchemos a canoa com tudo e mais alguma coisa para levar numa viagem de 3 dias à ilha das galinhas, onde vamos uma vez por mês prestar assistência médica. Quando aqui se lê “tudo e mais alguma coisa”, leia-se: colchões, uma mota, caixas com medicamentos, malas e mais malas…e nós, os AMI´s!
De Bolama às Galinhas são cerca de 2h de canoa…bom, nós levámos 5h… lá para o meio da viagem começou a chover, e a palavra Marão passou a ouvir-se demasiadas vezes por minuto…Bom, a minha inconsciência e o gosto que desenvolvi pelos barcos nas poucas aulas de vela que tive, levaram-me a não dar importância ao tamanho das ondas e ao modo pouco harmonioso com que estávamos a andar, confesso que estava a gostar imenso da viagem, da velocidade, do vento… da adrenalina! Às tantas ouve-se um estrondo e paramos… no meio do oceano, parados, com um temporal à volta… (muito bom!) O que é que aconteceu? Encalhámos num banco de areia… a maré estava a vazar. Saltam duas pessoas para fora do barco e toca de empurrar… surreal… a chover torrencialmente, ondas gigantes…muita água dentro e fora do barco! Conseguiram! Desencalhámos! E aqui comecei a preocupar-me! Estava sentada numa das bordas do barco com uma vista privilegiada para o “ecran principal”. As ondas cada vez mais ameaçadoras, o barco a abanar tipo folha de papel ao vento, a chuva que não parava, um silêncio ensurdecedor na tripulação, um pensamento na minha cabeça : “se escorregar ao menos que seja para dentro da canoa!” … depois houve ali uma altura que deixei de pensar… havia demasiadas ondas a baterem-me na cara e demasiada água dentro do barco! Mas… sobrevivi para contar a história! Ufas! Chegámos ao destino! Como a viagem foi muito longa, a maré já tinha vazado e o barco não pôde atracar na praia, então toca a andar no lodo de mochila às costas…a chover como se não houvesse amanhã, mas com os pés em terra firme (quer dizer… era lodo, enterrei os pés umas quantas vezes!).
Lá está, quem anda à chuva molha-se… quem vem à Guiné apanha um “cagaço”! Espero que um seja suficiente! Por estas bandas a expressão “viver no limite” não serve para vender telemóveis nem latas de coca-cola, traduz o dia-a-dia das pessoas… A vida por aqui tem um valor diferente – mais barato… tudo é precário. E o que eu tive foi azar, mas o que o resto destas pessoas vivem todos os dias é … normal… é a vida!

Hoje não há piadas… às vezes não há humor que chegue para puxar o lustro às histórias sérias!

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Dia_5

Bissau & a corte portuguesa

Voltámos a Bissau, vamos ficar até sábado. Estar pela primeira vez num sítio aguça-nos os sentidos… é delicioso!

Dou comigo atenta, desperta e de olhos bem abertos para tudo o que se passa à minha volta, talvez por isso, esta estadia em Bissau esteja a ser tão interessante. E há detalhes muito engraçados por aqui!

Por exemplo, em Bissau junta-se a “corte portuguesa” residente na Guiné, ele é ONG´s de tudo e mais alguma coisa, pessoal da embaixada, união europeia, nações unidas, e a malta junta-se nos 2 ou 3 restaurantes portugueses que existem e toda a gente se conhece, é uma espécie de “micro clima” étnico onde se fala português e se come bife de vaca (ah pois, ontem foi certinho!).

À noite, fui a uma festa de despedida de um rapaz que vai voltar para Portugal, bom… nunca o tinha visto só sei que trabalha na ONU, mas sem stress! Festa é Festa e Tugas são Tugas…então como o pessoal ia, fomos todos… colei-me!! Comida boa, música para dançar…maravilha!! Montes de gente interessante, ah e tal o que é que estás a fazer na Guiné? Ah, trabalho na embaixada! Ah, sou conselheiro de política internacional! Ah, sou coordenador do projecto XPTO de desenvolvimento comunitário! A sério, há por aí gente a fazer coisas muito relevantes. Bom, também apanhei secas, daquelas do: - ah o meu pai é mesmo rico e importante e eu estudei na Suécia e tenho isto e aquilo e sou o maior da minha aldeia e tenho uns calções vermelhos ridículos (10 min. de conversa puramente demagógica sobre a politica na Guiné) : ” desculpa, mas tenho de ir à casa de banho… (para nunca mais voltar)”.

Concluindo, gente interessante e com a mania há por todo o lado, o meu objectivo aqui é aprender… tanto em Bolama nas tabancas (aldeias) com a população como com a equipa à hora de jantar, passando pelos fins de semana com a corte em Bissau! Estou rodeada de gente com muito para ensinar. Perfeito!

Dia 4_o hospital:

Hoje, fomos ao hospital, a ideia era passar a visita à enfermaria com o médico de serviço (que é o único médico deste arquipélago).

Imaginem um edifício velho, muito sujo (mas mesmo muito), com janelas pequenas e muito escuro (porque de dia não se ligam luzes e de noite duvido que as liguem), rodeado por uma espécie de jardim por onde deambulam várias espécies animais, tais como: Cães e respectivas pulguinhas e outras menos “inhas”, porcos e seus parasitas que têm preferência pelo organismo humano e, claro, bactérias e fungos de todas as qualidades e feitios! Bom… pintem o quadro pior que conseguirem… andará longe da realidade! Haviam 5 doentes internados, todos com diagnóstico de malária, a acuidade diagnóstica aqui passa pelo: “tem febre? É malária!”, bom passa por lá e não vai muito mais além…

Quanto ao HIV, cuja prevalência na Guiné se desconhece mas crê-se elevada, hoje o médico enquanto explicava o caso de uma doente, disse entre-dentes esta doente vai fazer um teste que aqui chamamos 0007 e entre-olhares, lá se percebeu que o dito “aquele que nós sabemos”, o tal, o 0007, é o teste do HIV… Bom, se nem o médico ousa dizer (não vá o diabo tecê-las!) o que fará a população… Isto doeu-me, confesso! Foi uma visita dura! Ali a meio tive de vir cá fora respirar ar fresco, era muita coisa para encaixar ao mesmo tempo, demasiado calor, demasiada miséria, demasiada impotência, demasiada distância entre aquilo a que me habituei a chamar cuidados médicos e aquilo que estava à frente dos meus olhos. E assim foi, e assim serão os próximos meses…

Apesar das emoções fortes e do comichão dos mosquitos, estou a gostar… e muito! As pessoas da casa são porreiras e os habitantes da ilha também!

Ah, e não é que até aqui a minha fama chegou, então vou a passar na rua e as crianças gritam “Branco, Branco”, é incrível, eles sabem o meu apelido!!

um beijinho para vocês!

Os primeiros 3 dias

Estou em Bolama!

E por estas bandas, aprende-se muito e experimenta-se coisas novas todos os dias (e ainda só passaram 3), por exemplo:

  • Como viver numa casa sem água canalizada e aprender a tomar banho à caneca de água fria. Nos entretantos, fui desenvolvendo uma técnica rápida e eficiente, no fim dos 2 meses lanço um livro : “Tomar banho à caneca para totós, sem fazer estardalhaço!”.
  • Como viver sem electricidade regular, passo a explicar: a ilha não tem luz, mas a fábrica de gelo aqui do lado tem, então quando eles estão a produzir gelo ligam o gerador e nós temos luz …oh yeah! Mas, como em toda a indústria, a produção depende das flutuações da procura e o mercado do gelo pode ser muito instável… então ora há luz ora não há… Cá por casa também há um gerador que dá para desenrascar, mas não anda de boa saúde, o que faz com haja dias, como ontem, em que se janta à luz da vela e se vai para a cama às 21h30, porque ler mais de meia hora com uma lanterna pode tornar-se muito cansativo.
  • Como sobreviver a comer peixe todos os dias a todas as refeições, ele é peixe grelhado, assado, metido no empadão, a flutuar na caldeirada…. E por aí fora, haja imaginação… quem me conhece sabe que o meu gosto piscícola é moderado, diria até bastante recatado…bom, mas até agora ainda não ganhei barbatanas… a ver vamos!
  • Como viver num clima bipolar em descompensação total, isto porque está sempre a chover e sempre a fazer sol… ora cai uma chuvada de meter medo ao susto (e já agora, de assustar o medo!), ora está um bafo que não se pode sair de casa ou estar em casa!
  • Como entender o funcionamento do “mosquito africano” esse animalzinho irritante e mau, muito mau! Por aqui, essas criaturinhas nem se dignam a fazer barulho, logo não se ouvem, logo “pimbas” mordem que se fartam, e mais, quando picam não dói, o que quer dizer que os mafarricos lambuzam-se à vontade nos meus vasos sanguíneos e quando vou a ver já só resta o comichão, terrível..terríve!!E mais, os desgraçados picam por cima da roupa, custa a acreditar…mas é verdade, a mais comichosa e pruriginosa verdade!

Aqui há muito para aprender! E as “pequenas lições” escritas em cima vêm, com um tom humorístico, temperar uma experiência que de ”leve e solta” não tem nada, neste lado do mundo a injustiça é mais que muita! E, por vezes, custa a engolir…


sábado, 31 de julho de 2010

Dia 1 - Bissau!

O avião partiu à hora prevista… foram 4h até Bissau!

Quando saí do avião apeteceu-me gritar: ”África… que cena”- bom, por acaso, acho que disse, mas baixinho!

Eram 1h e tal da manhã e à nossa espera estava a coordenadora de missão e outros dois portugueses (acho que vieram só para nos dar boleia…simpáticos)! Bolama fica a 3h de canoa, por isso, passámos a noite em Bissau, num hotel.

Estou bem, o sítio é me “estranhamente” familiar, faz-me lembrar Moçambique, Marrocos… e um bocado da Amadora, as pessoas são simpáticas. O medo passou… na viagem li a carta que Paulo escreveu à igreja de Filipos e fiquei absorvida naquela maneira de estar, no contentamento no muito e no pouco… na alegria de quem sabe que não está sozinha! Depois li o fim da carta de hebreus a começar no 11… e aí como já não tinha medo, comecei a sorrir!

Agora estou pronta para a aventura de andar de canoa à chuva (ah pois, estamos na época das chuvas) com a minha mala gigante!!

Por agora é tudo, vou emprestar o computador…

Um abraço para o leitor imaginário e para vocês também!

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Vou para a Guiné...

Daqui a 5 horas vou estar num avião com destino a Bissau! Não sei o que pensar, dói-me a cabeça, dormi mal… estou com uma espécie de enjoo cerebral, muita serotonina, adrenalina, dopamina…e outras que tais!

Mas estou feliz, sonhei muito tempo com isto! Lembro-me de ter lido, algures no primeiro ano da faculdade, um artigo de um colega que tinha ido a África com a AMI e pensei :”quando eu for grande e do 5ºano também quero!”. Ora, passaram 5 anos, não sou tão grande como gostava de ser, mas sou do 5ºano (quer dizer, agora até sou do 6º ano) e cá estou eu a olhar para a mala que vou levar para a Guiné. Mala essa, que vai cheia de vontade de ajudar e de ser relevante, cheia de desejo de fazer bem e não mal, cheia de repelentes e de anti diarreicos (!), repleta de vontade de crescer e de abrir os olhos para uma realidade tão distante mas tão prevalente, e cheia de medo…de quê? De tudo e de nada…o medo é dos sentimentos mais irracionais e o meu, nem é medo…é medinho, é receio, é insegurança, é o desconforto do desconhecido. Olha, e já chega de pôr coisas na mala, porque ela já está cheia, e cheia de sonhos, até podia ser uma “mala de sonhos”, mas isso era plágio!

Nos próximos dois meses vou morar numa ilha sem canos e sem postes de electricidade, mas com mais estrelas e mais necessidades que alguma vez vi… Espero poder partilhar as minhas aventuras com vocês e com o leitor imaginário através aqui do “tasco”, sendo que para isso vou ter de ir a Bissau de vez em quando (é perto, são só 3 horas de canoa!).

Então até breve...vou ali a Bolama e volto já!

p.s: caso eu morra ou perca as minhas capacidades de decisão, fica aqui publicado que os meus livros já têm dono, os meus pijamas também e que hoje ao telefone destinei a minha metade do beliche…quanto ao resto dos bens ainda estão disponíveis se estiverem interessados digam!

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Nós por cá!

No nosso “Portugal real” há muitas histórias por contar, muitas em que faz falta reparar… reparar e reflectir… Então após estes meses de ausência e depois da insistência de várias famílias, este blog volta à carga, com vontade de estimular consciências, orientações e possíveis colaborações!

E só para chatear vou começar pela história que ia contar no fim, então venham daí, mergulhem nesta história comigo!
Urgência de otorrino, 11h e qualquer coisa, sol lá fora, doentes à seca há mais de uma hora, (tosse, muco nasal de todas as cores, dores de garganta, miúdos a chorar), eu (vocês a fingir), um colega e o médico com ares de “snob and smart guy” (simpático, mas volta e meia lá sacava perguntas teóricas de difícil resolução só para marcar território). Já está pintado o cenário!
Entra uma velhota com uns 200 anos : “então oh Dona Maria (nome fictício …talvez) do que é que se queixa? - Oh Senhor Doutor tenho umas feridinhas que deitam sangue no ouvido e dói-me a garganta e não consigo engolir. Observámos a senhora, que realmente tinha um eczema no ouvido (que até metia medo), mas na garganta não havia nada de especial, provavelmente, só lesões crónicas de refluxo gastroesofágico que causavam a tal dor… Às tantas, surge a pergunta da praxe “Oh dona Maria e que medicamentos é que a senhora toma todos os dias?” E é aqui meus caros leitores, aqui é que emerge o Portugal Real, aquele que não vem nas revistas e nos artigos científicos, aquele que exige mais compreensão do que parece. Ei-lo : A senhora não responde, ou melhor não fala, mas abre a malinha e tira um saco de plástico repleto de lamelas e caixas de medicamentos e cheia da elegância adquirida numa vida passada a semear couves, criar galinhas e cuidar da família, agora sim, responde :”Está tudo aqui, tomo isto todos os dias!”e despeja em cima da mesa uns 10 tipos de fármacos, sem exagero. Qual traficante de estupefacientes, qual quê! E este saquinho mágico resolve o enigma, as dores de garganta eram do refluxo e o refluxo era, entre outras coisas, da quantidade de fármacos que a senhora anda a ingerir. Bom, a consulta acabou e a senhora lá levou mais uns quantos cromos para a colecção, desta vez com direita a gotas para o ouvido e tudo! As melhoras e bom dia!

Agora, preciso de uma super conclusão para provar a relevância desta história, depois de muito ruminar… decidi que não há conclusão o que não significa que não há relevância, aliás a importância deste assunto reside exactamente na sua aparente futilidade, o sumo está todo nas entre linhas… bebam-no! Mais do que isso, fiquemos atentos às histórias do Portugal real, às donas marias com as suas maleitas e os seus mitos, mergulhemos nas multidões de pessoas que não lêem blogs, não têm facebook, e não vêem series americanas… Fica então, oficiosamente, aberta a época balnear!
Bons mergulhos!

Leitor imaginário, espero que ainda estejas por aí!

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Depois de uma “crise de ausência” …

Voltei!

E começo com a frase que mais me fez rir hoje…
Contexto socioculturaleconómicotemporalpolíticohormonal…entre outros: no meio de um silêncio já prolongado,alguém com quem mantenho uma relação próxima pergunta:
“Olha, os Óscares são no dia 7, não é??! “ - altura em que eu respiro, reflicto se ouvi bem, convenço-me que sim e respondo com seriedade:
”Pah, não sei o meu agente ainda não me mandou nenhum convite!”, e depois claro…escangalho-me a rir (adoro esta expressão, aliás a versatilidade da língua portuguesa é sempre revigorante!).

Bom… isto a propósito de quê? Perguntam vocês!
Pois… podia ter escrito só pela piada hilariante que produzi em escassos segundos (lol) mas não…
Ando com vontade de escrever sobre os Óscares!
(Não, não mesmo! Desculpem lá, sei que não é politicamente correcto…mas eu até acho que nunca vi aquilo até ao fim!).
Continuando, a vontade é de escrever sobre o fenómeno “a janela do vizinho”… passo a explicar, ultimamente, anda tudo maluco com as redes sociais e vai de malhar no Facebookinho… Porque não é a vida real, porque afasta as pessoas umas das outras, olha TRETAS! Concordo… as pessoas andam longe, sozinhas no seu mundinho com o pc no colo e os fones nos ouvidos, mas a culpa não é da internet nem das redes sociais (olha do mal o menos).
A culpa, esta ainda é viva e não morreu solteira, a culpa é da humanidade que nos está impregnada até aos tecidos mais profundos passando pelas ansas intestinais e acabando nas unhas dos pés!
Esta humanidade traz várias manias atreladas umas mais pesadas, outras mais fofinhas e os próximos “apontamentos” serão sobre isso!

Analisemos, então:

O síndrome do “Eu sou o maior da minha aldeia!” (publicidade à parte):
Desde pequeninos que queremos Chegar e Vencer, resumindo, temos a mania!! Temos a mania que se formos o primeiro, o mais fixe, o mais esperto, o mais bonito, o mais engraçado (o mais parvo!)… se se se formos assim vamos ser aceites, vão gostar de nós, vão ouvir o que temos a dizer, vão valorizar-nos, vão relembrar-nos com carinho… Então, baseados nesta verdade universal, passamos a vida a provar ao mundo que somos Melhores que os outros, que somos os Maiores. Aldrabões!! Mas, esta mentira vai fazendo mossa na maneira como encaixamos os outros na nossa vida… ou como preferimos que eles sejam só uma caixinha azul com uma fotografia que faz comentários nas nossas fotos. Porque se achamos que temos de provar a meio mundo que somos fixes e se por acaso são nos acharmos assim tão dignos do adjectivo em questão, então resta-nos mentir, inventar uma personagem, imitar uma personagem já existente… e por aí fora!
E qual é o problema de sermos pessoas? Pessoas sem nenhum talento em especial, sem um corpo fenomenal, sem um cabelo pantene, com um QI mediano (vá fraquinho também pode ser!), com amigos normais, com dias que correm mal, com frases na altura errada à pessoa errada…?
Qual é o problema de não sermos iguais às pessoas que desfilam na noite dos Óscares? Não sei se é por ter sono, mas ultimamente, tenho saudades de ver/ouvir pessoas a admitirem que são más numa certa coisa, que não têm jeito, que erraram… Não estou a referir-me aos eternos inseguros que até da própria voz têm medo, mas estou a falar de pessoas que sabem bem no que é que são más e no que são boas, e que tentam melhorar e voltam a tentar sempre que não conseguem, mas admitem, falam disso, expõe a sua humanidade, não se limitam a pousar para a fotografia em dias de festa! E será que quando admitimos os nossos “mau cheiros” os outros dão-nos menos valor?
Humm…? Será? Tenho dúvidas!
Eu cá prefiro ter à mesa pessoas que ao jantar em vez de falar da vida alheia e do vestido da outra, falam da dificuldade que é aturar o chefe, o colega e das vezes que não lhes apetece fazer as coisas como deve ser e das vezes que tentam e não conseguem! Contudo, apesar disso não desistem e lá estão elas, outra vez, a tentar ser Pessoa...daquelas sem maquilhagem, sem glamour...

leitor imaginário, hoje tenho sono... e vontade de ser melhor!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

A bata_ segunda temporada !

Voltemos então à novela da "bata branca" (ups...é melhor reformular), voltemos à serie do "white coat" ...muito melhor assim, novelas portuguesas só as velhotas desocupadas é que vêem, agora series americanas...opah aí a conversa é diferente!!

Ontem foi filmado o último episódio da primeira temporada desta magnífica serie cheia de emoções e calafrios clínicos (ouçam isto com uma emocionante música de fundo, por favor!) que retratam a minha vida de pseudo estudante de medicina! E foi o último, porque ontem tive a última aula prática do semestre... (suspiros), acabaram-se as caminhadas contra a corrente na estação de entre campos e as reflexões metafísicas que daí nasciam (passo a explicar: de manhã, quando ia de metro para o Curry Cabral a maioria das pessoas estava a andar no sentido oposto ao meu o que dava uma espécie de sensação matinal de "remar contra a corrente"...), acabou-se o cheiro indecifrável da enfermaria (as apostas estão entre a ferrugem, o cocó, o produto de limpeza estranho... e o cocó), acabaram-se as conversas com os doentes e as perguntas indiscretas, por exemplo:

- o Sr.X costuma beber?
- Oh Dra. não, não bebo nada de especial!
- Mas, bebe um copinho de vinho à refeição?
- Ah isso bebo, bebo mais ou menos uma garrafinha das pequenas!
- E depois de comer bebe alguma coisa com o café?
- Ah, doutora, tem de ser, bebo o meu bagacinho!
- Olhe, e de tarde bebe cerveja?
- Ah, bebo umas 4 ou 5 cervejas, nada de especial! A doutora devia ver era os meus amigos lá do café, eles é que bebem, aquilo é uma tristeza!!!

bom... e havia muito mais para contar...oh oh se havia! Mas isto por agora acabou!

Os próximos tempos vão ser dedicados ao estudo intenso (cof cof cof)e à romaria pelas bibliotecas, cafés, centros comerciais e/ou cantinhos onde se consiga estudar com boa companhia, de preferência, para que ao menos durante as pausas haja alguma higiene mental!

Voltando ao episódio final, foi um bonito momento de televisão, fiz uma espécie de avaliação da minha caminhada naqueles corredores e cheguei a algumas conclusões:

1- Nunca acordes um doente, porque ele fica mal disposto e não te conta bem a história (pede à auxiliar que o chame para tomar o pequeno almoço e depois, subitamente, apareces lá e fazes umas perguntinhas!!)
2- Se perguntares: "tem tensão alta?" e eles responderem que não, nunca acredites! Volta a perguntar, desta vez de outra maneira: "toma medicamentos para a tensão?" e, quase de certeza, vão dizer que sim, porque agora já não está alta!lol
3- Se o doente for idoso e quiseres saber se ele teve alguma doença sexualmente transmissível, pergunta-lhe se esteve no ultramar e depois, como quem não quer a coisa, perguntas: "por acaso, teve alguma daquelas doenças da tropa?"

... um dia destes publico os outros!

Agora vou-me dedicar à segunda temporada, e sinceramente, até gosto da rotina da biblioteca na primeira semana...:)

A bata vai para lavar (finalmente!) e este post foi, mais ou menos, como que um esvaziar de bolsos!

Mas, antes de fechar a tampa do cesto da roupa suja, encontrei uma frase perdida que escrevi na aula de ética :
" um juízo prudente não é um juízo certo!", leitores do imaginário e outros que tais... pensemos então sobre prudência, desde que prudentemente... Ou então, pensemos, pensemos apenas, porque pensar só por si já é bom!! O que vale é que a época de exames é sempre rica em questões existenciais... sempre numa tentativa de auto sabutagem do estudo!!

P.S:É impressão minha ou a palavra "cocó" aparece duas vezes neste post???

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

reflexões urgentes...

Finalmente, comecei a ler o livro do Camus, "a queda", e lá ia eu de manhãzinha (depende do conceito...) no metro a beber o meu café, quando me deparo com a seguinte frase (não aconselhada a menores,pessoas facilmente impressionáveis ou com problemas cardíacos)... precauções à parte...
" Cismo, por vezes, no que dirão de nós os futuros historiadores.Bastar-lhes-á uma frase para definir o homem moderno: fornicava e lia jornais. Depois desta forte definição, o assunto ficará, se assim me posso exprimir, esgotado."

O Camus pôs uma das suas personagens a dizer isto dos "modernos"!
E nós? Os pós modernos ou os pós pós modernos (para quem gosta destas mariquices), o que dirão de nós os historiadores? Palpites?

Acho que poderão dizer: " eles relativizavam e ficavam ansiosos"... depois do dia de hoje, isto faz tanto sentido!(como a primeira afirmação é relativa vou só falar da segunda).

Estive umas 3h na urgência e entre pernas partidas e cólicas renais, havia muita mas muita ansiedade!Pura e dura! Ansiedade ao ponto de dar dor no peito com irradiação para o braço, palpitações, náuseas, tremores, dores de cabeça... entre outros! E toda esta sintomatologia regrediu "magicamente" com uma amarguinha (Calma, até agora a única bebida que levo na mala é mesmo o café! Amêndoa amarga, só em casamentos, natais e outros que tais!), leia-se uma fórmula de diazepan dissolvida em água!
O caso mais gritante foi o de um rapaz muito jovem e com muito bom aspecto que veio com queixas de ansiedade, o rapaz estava a trabalhar e teve de parar para vir à urgência, porque não conseguia parar de tremer e estava tão nervoso... Poça, é assustador! Mas não foi só este, eram uns atrás dos outros, vi mais ansiedade do que gripes!uhhhhhh (isto não se pode dizer!).

Bom, a reflexão urgente que se impõe é "e a ansiedade o que fazer com ela?"...parece-me que esta pergunta tem acompanhado não só o homem pós moderno, mas o homem ao longo de todas as épocas, até porque ainda na gestação do cristianismo já Jesus dizia para não andarmos ansiosos por coisa alguma... Contudo, embora a ansiedade não tenha habitação específica numa época, penso que na nossa tem um contrato de longo termo...

Agora, quanto ao relativismo, esse sim, comprou por cá um T2 com vista para o mar, e grita a plenos pulmões com a cabecinha fora da janela :"aqui vou ser feliz"...mas, logo a seguir, conclui...opah, o que é a felicidade? E, rapidamente, conclui ahhh...isso é relativo, fecha a janela e liga a televisão porque "aquela" serie já começou!

E com isto vos deixo...a vocês e aos leitores imaginários!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

a bata voltou...

e já tinha saudades dela, foram duas semanas de ausência e o "frio" instalou-se!

Entre ontem e hoje, essa foi a verdade que saltitou entre os parietais e os frontais!
No fundo, no fundo temos uma relação amor-ódio muito ao estilo Hollywodesco quando ela está perto acho que podia ter uma melhor e que, na verdade, ando é a enganar-me e a empatar a minha vida nesta relação...Porém, quando ela bate com a porta e vai embora, fico triste (dramaticamente triste, tipo encostada à porta e a deslizar lentamente) e percebo que a vida sem ela não faz sentido!

Bom... fora estes estados de puro amor pela minha linda bata e de completa falta de interesse por ela... na maior parte das vezes temos um casamento feliz (um dia destes compramos uma bimby, que nesta analogia "não muito bem conseguida" poderá corresponder a um daqueles estetoscópios todos "very nice" com MP3 e tudo!).

Acabando a, mais uma vez, longuíssima introdução...

Eu sei que parece estranho ou bizarro, mas tenho mesmo saudades do hospital (isto escrito ainda é mais esquisito!), sinto falta dos doentes, das tentativas, na maioria das vezes, frustradas de colher uma história clínica em condições, do raciocínio do diagnóstico diferencial, dos corredores, até do cheiro horrível da enfermaria do Curry...
Ups, esqueci-me de mencionar o "caos da urgência", e hoje aquilo estava completamente cheio... e, como é meu hábito, no meio da confusão dá-me para reflectir, para tirar conclusões existenciais,meditar sobre o sentido da vida, bom...esquisitices!!

No meio das minhas sinapses metafisicas encontrei uma vontade enorme de tratar bem os meus filhos para que quando eu for velhinha e tiver de ir para o hospital de semana a semana eles me levem, fiquem lá comigo,tenham a lista dos 300 medicamentos que tomo, saibam bem as minhas doenças, e empurrem a minha cadeira até às análises... (hoje vi muita coisa triste!)
No emaranhado de raciocínios formou-se, também, a necessidade de aprender a ouvir o que se diz e o que não se diz mas que se queria dizer, ouvir os olhares, os gestos, e as idas à urgência...como o senhor que tinha tosse e que apareceu lá hoje...com tosse e mais nada, quer dizer, tosse e mais medo de ter gripe A porque o filho já tinha tido, e passados 5 minutos de conversa sobre a tosse, descubro que num raio x do mês passado havia uma "sombra" no pulmão... e havia medo...medo e tosse!
E houve mais muito mais... a tarde foi cheia de vislumbres de humanidade e de condição humana, se é que há diferenças entre os termos!

Bom...a bata voltou e com ela os raciocínios genéricos e placebos...

Placebo 1: a conversar com um doente idoso uma colega que queria perceber se o doente em causa já tinha feito uma colonoscopia pergunta: "Oh Sr.X por acaso já fez aquele exame em que colocam um... (silêncio) tubo no ... (pausa, silêncio, suspiros)...no (suspiro)... rabo?!

Depois disto e de inspirar o ar pestilento da enfermaria, pensei "a minha vida voltou ao normal...e Gosto!"