sexta-feira, 21 de outubro de 2011

a vida continua cheia de histórias...

Hoje trago-vos a história de uma menina bonita, 25 anos, alta, magrinha e com um olhar assustado… demasiado assustado.

A primeira vez que a vi disse-lhe “hello!” e ela nem olhou para mim, e claro, a minha reacção foi pedir à rapariga que estava ao meu lado para traduzir a saudação. Bom, a resposta obtida foi semelhante, mas desta vez veio com “legendas”: - “Ela é nova cá, não fala muito!”. Realmente, ela não falou, nem muito nem pouco, mas não foi difícil descobrir porquê. Voltou agora do hospital, esteve alguns meses lá. Está connosco aqui no centro há 1 dia! Porquê? (tenho de começar a ter cuidado com as perguntas). Fugiu do marido. Ele queimou-a na barriga com querosene. (silêncio… porque não soube o que pensar, quanto mais o que dizer). Nem sequer consigo imaginar a violência de ser torturada pelo próprio marido… e pergunto-me sobre o que terá acontecido a esta menina, onde é que a violência começou… até onde é que a ferida vai? Que marcas é que vai deixar?

De repente, cresce-me a vontade de agarrar nela, pô-la num bloco operatório e desinfectar, desbridar, escarafunchar, retirar a dor e o sofrimento, limpar as memórias, embrulhar o medo numa compressa e deitá-lo para o balde. E, no fim, fechar! Fechar as várias camadas com uma sutura bonita mas firme, agrafos na pele e um penso compressivo por cima. Agora, vai para casa com antibiótico e nolotil para as dores, ao fim de 8 dias volta cá, quero vê-la na consulta! Ai como eu gostava de tratar estas meninas assim, cirurgicamente, de maneira a resolver-lhes o problema, a limpar as feridas… mas não pode ser, há coisas que o bisturi eléctrico não resolve, muito menos eu, a jovem “mini – médica” que nem a língua dela fala e que nunca foi queimada por ninguém.

Orei por ela, honestamente, foi tudo o que fiz. Pedi a Deus que fizesse aquilo que não sei fazer, que a confortasse, que lhe trouxesse paz, aquela paz que excede todo o entendimento… a paz que sinto, quando a Índia é demasiado grande e eu demasiado mini!

E no dia seguinte, voltei a dizer “Hello!” e ela voltou a não responder, mas desta vez olhou para mim. Passou mais um dia, o “Hello” teimou em aparecer e fui surpreendida por um olhar com um sorriso ainda em esboço, mas um sorriso! No fim da semana, o “Hello” passou a ser respondido com outro “Hello” e o olhar assustado começou a ir embora e foi substituído por um sorriso bonito, ela ainda tem uma expressão séria na cara… mas atenuada, bastante mais leve do que no início! Há esperança!

Ontem amanheceu com febre, observei-a, auscultei uns pulmões muito doentes, uma tuberculose já em tratamento, que esperamos que responda aos antibióticos. Depois, no exame objectivo, seguiu-se o abdómen, e aqui houve relutância em levantar a camisola e mostrar uma barriga cheia de marcas, curada, mas com um rasto de violência difícil de esquecer. Palpei ao de leve, sem invadir, e mais uma vez chorei, por dentro, por ela… por elas! Pelas meninas que sem culpa são maltratadas, espancadas, queimadas, vendidas, abusadas, … e muitas delas nunca são ajudadas, muitas morrem sem voz, sem socorro!

E o que mais me deixa triste, mas uma tristeza a roçar a revolta, é a resignação. Estas meninas vivem conformadas com o que lhes calhou em sorte! Este povo vive resignado, eles não falam de injustiça, porque na verdade vêem-se a viver num mundo dividido em prateleiras, ou castas se preferirem, onde uns nasceram para procurar garrafas de plástico na lixeira e outros para serem doutores, uma ordem pré estabelecida e onde não há lugar para a injustiça! Neste caso, a religião é mesmo a força que mantém a ordem, as regras estão ditadas há séculos, não há direitos humanos, porque isto é “cada macaco no seu galho” e uns têm direito a uma vida confortável porque nasceram na família certa e outros terão direito a limpar os carris dos comboios e a viver nas estações, porque assim disseram os mais de 1000 deuses que por aqui levitam.

Talvez por isto, a pobreza na Índia seja tão violenta, porque está repleta de conformismo, não é só falta de dinheiro, de recursos, de limpeza, de estrutura, de ordem… é falta de esperança, é falta de acreditar que a vida pode ser diferente, é falta de… (respondam vocês).

Em parte, foi isto que encheu os corações dos homens e mulheres que, ao longo dos séculos, deixaram tudo para trás e viajaram para esta terra quente e suja. Vieram e na mala trouxeram mais do que medicamentos e material escolar, com eles veio a esperança do cristianismo, a que diz que todas as pessoas são iguais e merecem ser cuidadas e amadas e isto foi o que serviu de base para a ajuda aos pobres, aos órfãos, às viúvas, aos leprosos, aos que nem por justiça podiam gritar!

Muitos missionários depois e muito tempo depois, cometeram-se erros, construíram-se sonhos, mas a necessidade ainda existe e cresce com a população! Ainda há muitos que sofrem em silêncio e em resignação… e é por eles que estamos cá!

Leitor imaginário um abraço dos grandes!

Outros leitores que por coincidência ou intenção por aqui andam, um abraço também para vocês, cheio de vontade de vos fazer parte desta viagem e das reflexões que vêm atreladas a ela.

domingo, 9 de outubro de 2011

Já passou um mês…

A vida por aqui continua! Há dias lentos e lânguidos, preenchidos de lutas com a língua; com a cultura; com o picante que teima a aparecer no meu prato; com o suor que me escorre pela cara continuamente; com o lixo que está por todo o lado e cobre as ruas sem critério; com a tentativa, por vezes tão frustrada, de compreender as pessoas e de ser compreendida por elas… batalhas que produzem picos emocionais demasiado violentos para o meu paladar ocidental!

No entanto, há dias em que o sol brilha e brilha com vontade! Vontade de ser relevante, de fazer alguma coisa útil neste mundo tão caído e tão injusto! E são esses dias que trazem o alento que é preciso para resistir, e sim é mesmo disso que se trata, uma prova de resistência e das grandes… Tão grande que se não fossem os momentos em que o “sol” (se é que me faço entender) ilumina por fora e por dentro e traz a clareza e o quentinho necessários para continuar a correr, se não fossem essas alturas… não sei…

É um desses dias que vos trago hoje… um dia soalheiro e cheio de esperança!

Uma vez por semana vem um médico cá ao centro ver os doentes, uma espécie de médico de família, um senhor simpático, bonacheirão, com a paciência e a calma que os anos de prática clínica teimam em trazer. Vi os doentes com ele, entre um e outro explicou-me as manhas da casa, entre dentes fui ouvindo as histórias das tias: “- Esta tem HIV, está bem, está estável, tem os CD4 (as defesas) dentro do intervalo aceitável. – “E a carga viral?” (perguntei, eu, com a inocência que aprendi na faculdade) – “Não fazemos a carga viral, porque é muito caro…” (silêncio). Continuamos, desta vez com menos perguntas: “ - Aquela tem tuberculose multi-resistente (aquela que acabei de auscultar sem máscara e sem nenhum tipo de isolamento, valha-nos a BCG e as orações dos justos), esta não tem nada e só quer atenção”…

”- E aquela? É nova cá, não é?”

“-Sim, está cá há 2 dias, mas já a conheço há muitos anos, é acompanhada na nossa clínica na rua da prostituição de Bombaim, está aqui por que fugiu do dono … HIV e pneumonia. Um olhar assustado, mas com um nome bonito e com um significado diria até profético, diria mas não digo, porque não quero chocar ninguém! Chama-se Sonho! Sim, a menina que foi vendida pela família para a prostituição e que fugiu do dono aos 26 anos, chama-se Sonho! Aqui o sol brilha, porque ela já pode sonhar, porque já não pertence a nenhum dono, desculpem-me o pleonasmo, mas às vezes deixo-me levar… Fiquei contente, por poder ver isto…por poder auscultar não a pneumonia (porque disso também temos aí em casa), mas a liberdade, a liberdade de sonhar… e sorri-lhe! E a alegria aumentou quando no dia seguinte ela apareceu na minha aula de inglês e aprendemos a perguntar “How are you?” (Como estás) e é bom saber que ela agora pode responder com sinceridade: “I´m fine, thank you!” (Estou bem, obrigada).

Enquanto escrevo isto há outra história que me quer saltar pelos dedos, mas ficará para mais tarde…

Leitor imaginário, obrigada pela atenção, um abraço para ti!

Quantos aos outros que por aqui passam, espero que em parte a história da “Sonho” também vos ilumine o dia e vos ponha a sonhar…mas alto e longe, porque de mediocridade já temos a casa cheia.

Um abraço!