terça-feira, 27 de setembro de 2011

3 Semanas depois…

Os dias aqui têm um ritmo diferente, a primeira semana durou uma eternidade. Os dias arrastaram-se e trouxeram com eles uma espécie de avalanche emocional com uma violência que não estava à espera. No entanto, apesar da tempestade e de umas quantas molhas (umas mais literais do que outras), a segunda semana começou e com ela germinou a rotina e alguma previsibilidade que trouxe um cheiro, muito suave ainda, de segurança.


E foi no meio da confusão, cada vez mais organizada, que fui decorando os nomes das pessoas (tarefa demasiado difícil, por vezes), fui também aprendendo duas ou três perguntas em Hindi, graças às minhas “tias” e à sua vontade de me verem a falar com e como elas, descobri onde são os sítios principais, aprendi um bocadinho da complexa organização social desta comunidade e decorei que ao domingo é dia de comer frango (durante a semana a ementa é vegetariana).


E sem dar por ela, a terceira semana apareceu e acabou, e agora já conheço as caras, mas a luta com os nomes continua; e agora até já percebo as piadas delas, mesmo não percebendo Hindi; agora descobri que sempre que utilizo uma ilustração prática para ensinar seja o que for elas ficam todas contentes, descobri que gostam dos meus jogos e que têm vontade de ouvir histórias da Bíblia… que bom!


Contudo, não é tudo bom, por aqui há coisas bastante difíceis… Há uns dias atrás uma das raparigas veio ter comigo, ela queria conversar! Fiquei contente, afinal foi para isto que viemos, para ouvir, para aconselhar, para ensinar, para aprender, para conhecer as pessoas. E ao longo da conversa fui-me sentido pequena… minúscula, tive muita vontade de me esconder debaixo da cama e de chamar alguém mais velho.


Ela tem cerca de 20 anos, está cá no centro há 6 meses, veio de longe, algures do sul da Índia, e foi num inglês sem gramática e sem flores que me contou que quando era pequena foi viver para casa do tio, porque o pai assinou um papel que dizia que ela passava a ser propriedade do tio (segundo ela, o pai foi forçado pelo tio a fazer isto…).


E, a partir desse momento ela passou a ser uma espécie de escrava em casa do tio, limpava a casa, cuidava dos bebés, fazia a comida e todos os dias massajava as pernas da tia durante duas horas… Nunca foi à escola, durante 12 anos foi escravizada e brutalmente espancada. Um dia tentou fugir! A tia adormeceu durante a massagem e ela correu para casa de uma vizinha que a recebeu e prometeu que a ia ajudar, mas depois apareceu o tio à procura dela e no meio de muita chapada e pontapé ela foi arrastada para casa! Ao chegar a casa, para a menina aprender a lição, o tio bateu-lhe com uma barra de ferro até lhe partir uma perna, depois esfaqueou-a no ombro e na mão (ela mostrou-me as cicatrizes). Por fim, depois de tamanha violência… mandou-a limpar a parede que estava cheia de sangue, nos dias 6 dias que se seguiram não lhe deram de comer e fecharam-na na casa de banho.


Ela conta que na noite do sexto dia estava totalmente desesperada e com vontade de morrer, sem forças… e que foi nessa altura que viu do outro lado da janela alguém ou algo que ela não sabe bem explicar mas que ela acredita que foi Deus e que lhe disse: “ não tenhas medo, não estás sozinha!”. A verdade é que no dia a seguir, subitamente, a tia abriu a porta e deu-lhe de comer. E, passado pouco tempo, o tio mandou-a trabalhar fora de casa, porque queria o dinheiro do ordenado dela para pagar a escola dos filhos. Neste novo emprego as pessoas perceberam que alguma coisa se passava e depois de ela contar a história dos últimos 12 anos, decidiram ajudá-la. Uma destas pessoas, conhecia o patrão do tio, então por coacção convenceram-no a deixá-la ir viver num abrigo de uma ONG cristã. E assim acabou o martírio desta menina, depois passado uns meses ela veio aqui para o centro, aqui vai ter mais oportunidade de estudar e de construir uma vida nova!


Percebem porque é que me senti pequena?


Ouvi, chorei por dentro (talvez um dia ganhe coragem para chorar por fora), falámos do futuro, dos sonhos, da vontade de aprender a ler (para poder ler a Bíblia) e acabámos com um abraço e oração…


Leitor imaginário, a vida por aqui é cheia de histórias, mas aqui a Cinderela não é uma história de embalar, espero que esta Cinderela nos acorde e nos torne mais despertos e prontos para as necessidades deste mundo.


Um abraço para todos!


quinta-feira, 22 de setembro de 2011

A aventura continua… por terras indianas

Os primeiros dias foram cheios de adaptações umas mais dolorosas do que outras,mas todas cheias de um encanto que não estava à espera de encontrar… um dia destes explico-vos isto melhor!


Começámos por perceber como é que o centro funciona, que actividades é que existem, quem é que é o responsável pelos vários departamentos e depois veio a pergunta essencial: “Então, onde é que podemos ajudar?” e a resposta veio rápida e certeira e num instante transformou- se em várias actividades e responsabilidades, afinal não viemos passear… Graças a Deus!


O André ficou com os rapazes que estão no programa de recuperação da toxicodependência, vai estar perto deles, vai aconselhá-los, e vai ensinar-lhes algumas competências pessoais e sociais usando princípios bíblicos (as famosas aulas do Desafio Jovem). Ah, e acrescentar a isto, ele também anda a pensar em construir um forno, para que se possa fazer pão aqui no centro e assim poupar dinheiro.


Eu, por outro lado, não fiquei com nenhuma área específica, eles pediram-me para dar as aulas de competências pessoais e de iniciação ao cristianismo às raparigas mais recentes no centro. Então todos os dias de manhã tenho um grupo bastante variado, composto por adolescentes que viviam na rua, órfãs, adolescentes que foram resgatadas dos bordéis e mulheres (entre os 25 e os 40 anos) que também vieram da prostituição forçada. E o objectivo é ajudá-las a compreender o cristianismo no meio de uma cultura que transborda deuses e altares, sem nunca o impingir, sem nunca forçar a fé, apenas explicar a mensagem e deixar a porta aberta. Isto tem sido espectacular, a maior parte das vezes falamos sobre amor, sobre aceitação, sobre a oportunidade de começar outra vez… Isto só por si é bom e é importante que todos nós nos sintamos amados e aceites, mas não se esqueçam que estas meninas e estas mulheres foram vendidas, rejeitadas, abandonadas, espancadas, violadas… sofreram uma infinidade de atrocidades. Esta realidade, aumenta em grande medida a necessidade de lhes ensinar que elas são preciosas, que elas são importantes, que elas são princesas! Houve uma aula em que falámos sobre a maneira como Deus nos vê, vocês deviam de ter visto a cara delas quando lhes disse que Deus quando olha para elas vê uma princesa… indescritível! No fundo, é por causa disto que estamos aqui, é por causa delas e deles, é numa tentativa de trazer justiça a este mundo caído.


Mas não acaba aqui, a seguir a esta aula, começa a aula de inglês das “tias”, as “tias” são as mulheres que vieram da prostituição forçada, umas fugiram outras foram compradas pelo centro, a maioria tem o corpo marcado pelos anos de escravatura, estão gastas, enrugadas, envelhecidas. Mas nem todas, há algumas que ainda são bonitas e cheias de juventude, mas todas sem excepção têm dificuldades de aprendizagem, nenhuma foi à escola, foram vendidas antes de terem essa oportunidade (silêncios… vários!). Então, para tentar resolver esta situação elas têm várias aulas, e a mim pediram-me para lhes ensinar inglês, mas só o elementar, mas avisaram-me que tinha de ser dinâmico, mesmo muito, como se fossem crianças, se não aborrecem-se e não aprendem! O desafio foi aceite, e as aulas começaram, mas fiz um negócio com as “tias”, eu ensino-lhes inglês e elas ensinam-me hindi… que maravilha! Sorriram e concordaram, ensinar alguma coisa a outros traz sempre auto estima, e isso é uma coisa que faz muita falta por estas bandas! Na primeira aula começámos com o “what is your name?”, mas primeiro elas ensinaram-me a pergunta em hindi... e a risota começou e só parou com o fim da aula, e vê-las rir encheu-me o coração! E pode parecer estranho, mas os sorrisos delas facilitaram a refeição que se seguiu, porque apesar da comida aqui ser demasiado (mesmo) picante para mim, vale a pena… e o meu aparelho digestivo há-de habituar-se…esperemos!


E isto é uma parte do que andamos a fazer por aqui… o resto fica para a próxima história!

Um abraço para todos!
Leitor imaginário, tu já sabes que para ti o abraço é sempre especial!

domingo, 18 de setembro de 2011

Dia 1_Em terras indianas…


O primeiro dia foi uma aventura em vários sentidos, chegámos ao aeroporto de Bombaim lá pelas 2h da manhã, mais mala, menos mala, mais um tapete preguiçoso (esta já vos contei), às 3h45 estávamos dentro do jipe que nos veio buscar.


E aqui começa o filme, um filme algures no meio das estradas de Bombaim onde não há lei e se houvesse já tinha levado uma data de mocadas, porque aqui, é um salve-se quem tiver o carro maior e mais rijo. Não há cá uma faixa para mim e outra para ti, ou o conceito do "contra-mão", nada disso, isto para a frente é que é caminho, se a estrada que vai no sentido contrário ao meu está livre, é fácil, passo para lá e quem vier depois que se desvie. Isto tudo com a banda sonora das buzinas dos carros, eles não apitam quando se zangam, eles apitam é para avisar que estão na estrada! E eu que sempre achei que os Portugueses tinham demasiada confiança a conduzir… Opah que meninos!


Fizemos 1h45 de caminho até ao centro onde vamos ficar, uns quantos buracos, uma cidade cuja pouca luz foi revelando uma correnteza de barracas, de edifícios velhos e sujos, mas também uns quantos prédios imponentes e cheios de ares ocidentais… O resto fica para mais tarde e com mais luz!


E lá chegámos ao centro (que por acaso é um sitio é espectacular), estava a chover e havia pouca luz e pouco inglês (e foi só o principio da aventura da comunicação), mas lá pelo meio percebi onde é que era o meu quarto e que o pequeno-almoço era dali a duas horas… que maravilha!


Bom, mal entrei no quarto, respirei fundo, preparada para o pior… bom, a única coisa que eu queria muito era que houvesse uma sanita, aquelas casas de banho turcas, leia-se aquelas do buraco no chão, são uma coisa que não me assiste! Mas, não é que, não só tenho uma casa de banho no quarto como tenho uma sanita que tem um rolo de papel higiénico lá pendurado, e mais… (isto já é a loucura!) tenho um autoclismo que realmente funciona. Passo a explicar o entusiasmo, é que na Guiné tinha uma sanita, mas o autoclismo verdadeiro era um baldinho que estava lá ao lado.


Mas há mais, muito mais, eu até tenho electricidade no quarto, bom… há uma altura do dia que não funciona, mas à noite há sempre, qual lanterna do telemóvel qual quê! E por fim, e isto é lindo… tenho um chuveiro, do qual desconfiei logo à partida, porque mal entrei na casa de banho vi um grande balde e um caneco, e pensei cá para mim : "Os banhos vão ser "Guiné like" como quem diz vais tomar banho à caneca de água fria e o chuveiro é só para enfeitar". Mas aprendi a minha lição – nunca desconfies de um chuveiro, olha que ele vinga-se! Ah pois, é que ele funciona na perfeição, mas a água é fria, o que na maioria das vezes não é nada mau, porque está mesmo muito calor, mas há dias que se fosse morninha até sabia bem!


Depois de ter levantado as mãozinhas para o céu e de ter agradecido por todas estas mordomias deitei-me, e quando estava finalmente a dormir o despertador tocou, porque eram horas do pequeno-almoço. Lá estávamos nós sentadinhos no refeitório, toda a gente a olhar para nós e a sorrir enquanto falavam entre eles numa língua totalmente enigmática – Hindi, uma língua que anda ali algures entre o chinês e o grego, é que não se percebe nada do que eles dizem! E eis que nos servem o pequeno almoço… um grande prato de massa com picante (é favor ler com entusiasmo). Bom, quem me conhece sabe que eu não gosto mesmo nada de picante e que o evito sempre que possível, mas desta vez somos convidados e a mim ensinaram-me que em casa dos outros é para comer o que nos dão até ao fim e com um sorriso. E assim foi, fiquei com a boca a arder nas 2 h que se seguiram… e foi só a primeira de muitas… a aventura gastronómica por aqui vai ser cheia de emoções fortes! Claro, que há que acrescentar que o André gostou imenso da refeição e que o sorriso dele era a sério!


O dia continuou e tivemos a oportunidade de conhecer o centro e algumas pessoas… o resto vai ficar para amanhã, assim como o resto das histórias…


Um beijinho para o leitor imaginário e para os que não são tão imaginários quanto isso!

sábado, 10 de setembro de 2011

Chegámos!


Estou na Índia!!


Até custa a acreditar… bom, a ideia foi ganhando forma quando no avião, em vez de uma sandes, nos serviram uma espécie de crepe com caril tão picante que até ardia. Mas, a realidade, a sério e às sérias, veio quando saímos do avião e foi como se tivéssemos entrado na zona das plantas tropicais da Estufa fria em Lisboa, isto é, pusemos os pés fora do avião e veio de lá "aquele bafo" que transbordava humidade e que nos transportou para a nossa realidade – Estamos na Índia!


E, porque é na Índia que estamos, nem ficámos chateados nem fizemos reclamações, com o facto de termos demorado mais de uma hora a "resgatar" as nossas malas do tapete, isto porque o dito tapete de 10 em 10 minutos "sofria dos nervos" e parava e depois recomeçava a rolar devagarinho até que paralisava outra vez…. A acrescentar à espera, tenho de vos contar um detalhe, daqueles que só vistos, então não é que cada vez que passava uma mala no tapete toda a minha gente estendia a mão e tocava na mala… só para fazer uma festinha!


E é assim…cá estou! E por aqui continuarei nos próximos dois meses e meio, eu e o meu futuro marido e mais recente membro desta aventura que tem sido a minha vida (revelações à parte, continuemos a história!).


Escolhemos viajar para Bombaim porque queríamos conhecer melhor e se possível ajudar numa ONG cristã que trabalha com o tráfico de mulheres para a prostituição, meninas que são vendidas pela família para serem escravas-prostitutas nos bordéis de Bombaim… meninas que são escravas! Mas que podem deixar de ser! Esta ONG compra as mulheres de volta (e de repente, parece que estamos a falar de mercadoria…) e devolve-lhes a liberdade, elas são recebidas numa quinta lindíssima onde têm a oportunidade de estudar (algumas nem sabem ler), reorganizar a vida, aprender um ofício, enfim recuperar duma vida cujo sofrimento nem sequer consigo imaginar!


Mas há mais… estas mulheres têm filhos nos bordéis, e uma vez nascidos lá, também eles são propriedade "privada", por isso, há uma parte do trabalho que é dedicado a estas crianças, assim podem estudar e sonhar com uma vida melhor. Depois, temos as crianças da rua, umas fugiram de casa, outras foram abandonadas… e também estas são acolhidas e trazidas para um mundo com mais esperança! A par do trabalho com as mulheres e crianças, também há um departamento que está ligado à toxicodependência e ao alcoolismo.


Em linhas gerais, este será o nosso itinerário em terras indianas… conhecer as necessidades desta cidade interminável e cheia de gente e supri-las sempre que nos for possível, com o nosso tempo, as nossas mãos e pés, com aquilo que sabemos fazer, com o que já experimentámos na vida, com o que temos, ou melhor... com o que somos!


Vamos ficar instalados na periferia de Bombaim, na tal quinta, onde funciona a ONG. Gostava muito de conseguir aceder frequentemente à internet, de modo a partilhar com vocês estas histórias e as que estão por vir, e assim vocês também podem vir e participar desta aventura! Na verdade, a aventura já começou há muito tempo, isto é só a continuação. Ou será a continuação de uma peregrinação? Acho, que esta resposta vai ficar para o fim…


Então…até à próxima história um abraço para todos e, claro, um muito especial para o leitor imaginário!