segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Passou um mês!

Passaram muitas coisas. Todos os dias há uma avalanche de sentimentos que destrói, destrói e depois constrói, todos os dias. A Índia é um sítio difícil para viver! Demasiado calor, demasiado pó no ar, há picante em tudo o que está no prato, buzinadelas constantes e ensurdecedoras e há a diferença e a distância cultural. Não é mau, é diferente!

Ainda agora, 5 minutos antes de começar a escrever, enquanto estou sentada à espera do médico para irmos ver os doentes, está um homem em pé a 1 metro de distância de mim, a olhar-me fixamente nos olhos, tempo suficiente para eu reparar, olhar rapidamente para confirmar, baixar o olhar e pensar: “O que é que acontece se eu fizer o mesmo?” E olhei para ele olhos nos olhos… A ver quem ganha! Depois de segundos que pareceram largos minutos ele desviou o olhar, e eu pensei: “Desconfortável, não é? Toma lá que é para aprenderes!” Mas afinal aprender o quê? O conceito de espaço pessoal? É tão diferente! É tudo tão diferente! Estas diferenças que até são engraçadas com o tempo custam, pesam, irritam… Cansam!

No entanto, depois olho à volta e lembro-me do privilégio. O que é que este projeto de infeciologista está a fazer neste subúrbio indiano? Este sonho de ser relevante, este desejo de justiça e a vontade visceral de contribuir trouxeram-me aqui. Então entre tropeços e saltinhos de alegria vamos andando. Andando e agradecendo pelo privilégio, mesmo nos dias difíceis.

A semana passada foi difícil! Morreu um menino de 17 anos, o primeiro caso de raiva humana que vi. Fizemos tudo, cuidados intensivos, protocolos experimentais, tudo. A raiva mata quase sempre, mas falta o quase, e a esperança estava lá no quase, durou 24 dias e depois já não havia quase (silêncio). A família recebeu a notícia com tanta tristeza, tanta que nem a minha falta de Tamil me impediu de ver, poucas lágrimas, sentidas, profundas, eles já não tinham “quase” e eu quase que chorei ali com eles.
Uns dias antes, partiu um amigo, daqueles que são família, e eu estava aqui e eles estavam aí (vocês?). E ao telefone, tanto telefone, a distância tão grande e eu tão pequena com o coração minúsculo, espremido, apertado, destruído. E, mais uma vez, quase chorei com eles (quase?).

Mas hoje pela manhã, uma brisa surpreendentemente fresca lembrou-me que depois da destruição deve vir a construção. Que venha! Venha e fique por cá!

Então, hoje, neste dia cheio de Índia em que continuo à espera do tal médico, com fome, azia e 3 dedos de frustração, hoje… Mãos à obra! A vida é curta e já começou. Que venha a Índia, que venha e de caminho traga uns óculos para a miopia que teima em permanecer.

Leitor imaginário, hoje ficamos assim, a ver se um dia percebemos estas índias.

Restantes leitores, um abraço com saudades vossas!

domingo, 20 de setembro de 2015

O 1º dia de escola

As férias estenderam-se mais uns dias. Memoráveis. Lembranças que vão ficar connosco para sempre. Não necessariamente pelo luxo ou pelo conforto do descanso, mas pela companhia que com o passar do tempo se torna cada vez melhor. As conversas salpicadas de silêncios confortáveis, de observações quase sempre fora do contexto, de passeios de mota à chuva no meio da floresta, de quedas de mota e joelhos esfolados (cotovelos, ombros e mais houvesse!) numa ilha espetacular, de horas e horas passadas em todo o tipo de transportes públicos, dos insólitos (adoramos o insólito), tudo isto transformou este tempo de férias num grande depósito de felicidade!

 Foi com o saco cheio destas aventuras que ele se foi embora e eu fiquei! Fiquei para dar início a outro tipo de aventura, um solo que pode parecer loucura. Talvez seja.

O que é que estás aí a fazer? A resposta mais honesta é que estou aqui para aprender. Crescer. A ver se acrescento alguma coisa a este coração míope e ao léxico do diagnóstico diferencial que carrego comigo.

A odisseia começou em Setembro, já lá vão 3 semanas, não tenho escrito mais, porque às vezes não sei como descrever o que por aqui se passa, mas quero muito cumprir a promessa feita a meia dúzia de amigos e companheiros de caminhada.

O hospital é gigantesco e está sempre, faça chuva ou faça sol (frio é que nem vê-lo), cheio de gente, há gente por todo o lado, e gente muito doente, muito doente e muito nova. Atrevi-me a fazer um comentário do género: “Os vossos doentes são tão jovens, nós lá temos o hospital cheio de idosos!” A resposta veio apontada diretamente ao meu coração ocidental: “ Os velhos ficam em casa, eles nem os trazem, e quando os trazem raramente os internamos, seria um desperdício de recursos.” Engole em seco, fica calada, olha para o chão, sente o choque cultural! E o choque contínua, quando no fim da consulta se fala de dinheiro, a saúde tem preço e escalões, o papel amarelinho mostra o orçamento do internamento que é necessário, o doente responde que não veio preparado, voltará depois… Em sístole rápida, ansiosa, tento desatar o nó do estomago e olho novamente para o chão (silêncio).
E assim se passam os primeiros dias, a realidade é nova, cheia de pontas aguçadas que se espetam na minha ideia de saúde e de justiça, mas foi para isso que vim, para lutar contra a miopia. Mas há mais, muito mais! Tenho aprendido tanto! Isto é um manancial para a infeciologia, há de tudo, das bactérias aos fungos, passando pelos parasitas, sem nunca esquecer os vírus… até o vírus da raiva (vi um caso de raiva logo no primeiro dia, nunca tinha visto). 

Cá ando eu de caderninho laranja a escrever tudo o que vejo, a fazer um esforço enorme para perceber o inglês à indiano, a suar as estopinhas nas muitas escadas do hospital e a beber golinhos de água no corredor meio às escondidas, sempre cansada, sempre com fome, mas com a certeza de que estou no sítio certo. De vez em quando isto lembra-me a Guiné, vem me à mente aquela frase: “ A vida é dura para quem é mole”, aqui apetece-me dizer: ”A Índia é dura e eu sou mole! Molinha!”.

Querido leitor imaginário, a Índia é dura e picante mas também alimenta e disto é que eu preciso para crescer!
Restantes amigos continuamos cá até Novembro, mais 10 semanas de choques, aprendizagens, frustrações, arroz e papaia, onde a vossa companhia é mais importante do que imaginam. 
Um abraço!



terça-feira, 8 de setembro de 2015

As montanhas, a mota, e o … do elefante!

Alugámos uma mota! Yeah! Com o nosso próprio meio de transporte deixamos de estar à mercê da indústria do turismo local com as suas excursões e pacotes sensacionais, assim podemos fazer o nosso itinerário, poupar dinheiro e chatice.

Queríamos ver os elefantes, os tigres, as quedas de água da imponente “rainforest” de Chiang Mai… queríamos ver tudo e em poucos dias, porque as férias são curtas e a Tailândia é grande!
Capacetes apostos lá fomos montanha a dentro! Lindo. Exuberante. A natureza explodiu ali e não contou a ninguém. A viagem de mota foi acompanhada de saltos e solavancos no meio da expressão repetida em desabafo: “Ai que sorte! Ainda bem que viemos!”

E os elefantes? Encontrámos uma placa com um elefante pintado, fomos lá. Afinal não era bem um campo de elefantes, era na verdade, verdadinha, um sítio de reciclagem de resíduos elefantídios do foro intestinal, portanto, reciclavam cocó! Cocó de elefante! Verdadinha, já tinha dito! As criaturas (de mente verde e ecológica) dedicaram a sua existência à reciclagem do “dito” do elefante e, olha, que fazem lindos bloquinhos, postais e afins em papel reciclado de “ vocês já sabem” de elefante. Até têm uma espécie de curso em que ensinam a fazer a reciclagem e tudo, a isso não fomos porque o dinheiro custa a ganhar e não é para andar para aí a mexer em cocó, sem desconsiderar os elefantes que são animais muito fofinhos.
Lá comprei um bloquinho de… cocó! Teve de ser!

Algures nas muitas voltas que demos naquelas montanhas lá descobrimos as cascatas, o campo dos tigres e encontrámos, finalmente, os elefantes (desta vez o produtor e não só o produto), foi espetacular, foi mesmo, mais uma vez, “que sorte!”.

Volta aqui, volta ali, começou a chover e era vê-los em cima da mota, com os seus casaquinhos “impermeáveis” molhadinhos até aos rins (todo o Português sabe que não há coisa pior que uma pontada de ar nos rins, é logo meio caminho andado para ter um princípio de pneumonia, entidade nosológica gravíssima). A saúde conservou-se. Horas depois, muita chuva depois, decidimos voltar para casa, porque à noite todas as árvores são pardas, as curvas apertadas e a mota assusta-se e isso não interessa a ninguém. Partimos, mas um pensamento foi ficando: “ O que é que eu vou fazer com o bloco? Que desperdício escrever listas de compras ou recadinhos! Aliás aquilo que era um desperdício deveria agora tornar-se muito útil.” O pensamento ficou, andou, ruminou, foi ruminado e depois mastigado e depois … (já chega!). Depois tive uma ideia! Cada página deste bloco vai ser um local de agradecimento! Diariamente, vou eleger um acontecimento ou experiência que me fez sentir agradecida! É da maneira que vou conseguir combater os momentos de “auto-lamentação” na Índia (eles vêm aí)! E assim será, a ideia foi aprovada por unanimidade em reunião familiar. Todos os dias uma frase, todos os dias uma coisa que faz exclamar: “que sorte, obrigada!”. A ver se a reciclagem não se fica só pelo cocó do elefante, que há por aí e por aqui muito “resíduo” a precisar de uma lavadela.

Leitor imaginário, agora é que eu vou ser uma pessoa ecológica!
Restantes amigos, um abraço para todos, as histórias andam atrasadas… mas estão a caminho!

Entretanto, porque não dedicarmos uns minutos das nossas vidas “super importantes” a agradecer e a reciclar (pode ser renovar, também pode ser a mente em vez de cocó… como dizia o outro).