terça-feira, 27 de outubro de 2015

A courgette tem uma prima na Índia!


 São 8h da manhã. O silêncio inunda a sala, lá no fundo ouve-se o barulho da ventoinha e cá no fundo é difícil não ouvir a confusão dos pensamentos. Aconteceu tanto nestes quase 2 meses que será difícil encaixotar, fazer malas e partir, desconfio que depois desta experiência haverão coisas que nunca mais irão embora, ficarão… farão morada! Espero que sim.

Então enquanto espero pelo início da consulta, oiço o meu fundo, observo os dias que passaram e tento passar para este caderno laranja o que é passível de partilha. Passaram duas semanas desde o último texto, cheias, recheadas de aventuras e desejo de aventuranças.

No outro dia, dei comigo num jantar do serviço em casa da chefe, ofereci-me para preparar um prato, mostrar a gastronomia portuguesa e, finalmente, comer o que gosto! Mas, como tudo na Índia, foi extremamente difícil! Primeiro, tinha de ser vegetariano, dadas as especificidades alimentares da religião, depois tinha de encontrar os ingredientes. Acabei por fazer as minhas courgettes recheadas (uma espécie de prato de assinatura), que de Portuguesas não têm nada, mas são vegetarianas, ou pelo menos, desta vez foram, porque originalmente levam cogumelos, bacon e queijo de cabra. Aqui fiz com cogumelos (viva os fungos ecuménicos) e paneer (um primo indiano em 4º grau do requeijão). Cheguei mais cedo e mãos à obra, numa cozinha que não é minha, com um palato tão diferente dos que habitualmente se sentam à minha mesa. Antes disso fui às compras, uma linda aventura, trouxe 2 enormes legumes esbranquiçados, parecidos com courgette, ali algures entre a abóbora e a courgette. O medo do pepino só acabou quando as abri ao meio e vi o que se assemelhava ao pretendido.
Depois lá fui, o prato foi acontecendo, com olhares de estranheza, com perguntas sobre o conteúdo, um legume aberto ao meio, sem especiarias, sem óleo, sem molho?

E eu segura! E eu contente! Escondida atrás da prima da courgette! A cozinha não era minha, mas são todas parecidas, o prato não é igual, mas é parecido. Parecido é bom! Parecido é familiar! É bom estar em casa outra vez! Afinal a fome e a vontade de comer o que nunca se comeu mas cheira bem são dogmas internacionais.
Voilà! Courgettes recheadas na mesa… E não é que gostaram! Comeram tudo! E eu sentada no chão a observar, somos todos iguais, mais picante menos picante. Conversámos, contaram-se histórias, o apetite abriu-nos a boca e o coração. Boas courgettes!

A Índia vai-se aproximando com uma abordagem cheia de solavancos. Aqui as relações são difíceis, cheias de porcelanas, de hierarquias, de preconceitos (?), estranha-se o novo, acolhe-se com cautela, então com pezinhos de lã, com legumes recheados, sorrisos sinceros e alguns relatos de aventuras passadas nesta terra incrível, com tudo isto vou conquistando um espaço, pequeno e apertado como todos os espaços na Índia!

Mesmo quando me perguntam as coisas mais insólitas, como aquela vez em que um dos médicos mais respeitados do serviço me perguntou que língua é que os médicos portugueses falavam entre eles? E que língua é que se fala nas faculdades de medicina? Seguido de uma cara de espanto quando lhe digo que é Português e não Inglês. (É com cada uma…). Depois veio o clássico erro, mas não menos engraçado, ao falar de Portugal alguém cheio de certeza exclama: “Oh como eu gostava de visitar o teu país, o Rio de Janeiro deve ser lindo!” (Rir dos outros é feio!). E lá expliquei a geografia da velha Europa. E não, a nossa comida não é como a espanhola (cruzes, credo!), nem como a italiana, nem como a grega. É nossa e é a melhor do mundo!

Leitor imaginário, é assim… Vamos alimentando o povo de “prima de courgette” e de cultura geral!

Restantes leitores, abraços, abraços. Falta menos, custa menos! Obrigada pela companhia!

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Ainda a procissão vai a meio…


Falta metade! E é caso para dizer o pior já passou. Esperemos!

O dia alongou-se, cheguei ao hospital às 8h e vim no autocarro das 19h30, um dia destes habituam-se e ainda me metem a fazer urgências de 24h. Por falar nisso, tenho umas certas saudades de fazer urgência, saudades da equipa, das loucuras da sala de reanimação, saudades de estar em casa (o hospital também conta como casa, uma espécie, um sótão!).

A viajem para casa foi gira, já tinha escurecido e a cidade transformou-se. Sentadinha no banco do autocarro, entre solavancos, assisti em “primeira classe” ao espetáculo noturno, as famílias cá fora, as barraquinhas de comida apinhadas de gente, homens a beber chá na beira da estrada, veículos de todos os tamanhos e cores em cima uns dos outros, luzes coloridas penduradas sem preocupação aos cantos, nos toldos, onde houve lugar, a música estridente e alegre, as buzinas de vários timbres, eu… e um sorriso estampado. Os pensamentos voam, lembro-me do dia que passou, tão cheio e bom (!).

Começou com a visita médica à enfermaria, lá vamos nós cama a cama discutir diagnósticos, confirmar a história com a família que está sempre lá e não arreda pé do lado do doente, palpar as barriguinhas à procura de baços e de fígados, revemos radiografias, confirmamos suspeitas.
Aprendo sempre tanto! 
Apesar do calor que começa pela manhã, das muitas escadas, da azia que me acompanha, do sono que pesa nos olhos e daquela sensação de que não sei o que devia saber, devia estudar mais, tenho de estudar mais, sentimento que rói as entranhas e as confianças e que me faz hesitar as respostas que estão à porta da língua e que roídas e encolhidas voltam para dentro. Apesar! Agora é mais fácil! Tenho menos medo de errar, pergunto mais, postulo, discordo, digo piadas (Tento! O inglês é uma língua muito insípida.) e aos bocadinhos esta casa também vai sendo minha.   

 E o espanto mantem-se! E o sorriso também! Muito se aprende aqui! Muita infeção, muita meningite tem esta gente, não é só a doença é a história que espanta. No outro dia, a filha a contar as alterações neurológicas da mãe, refere que a senhora veio para o hospital porque comeu cocó (!), não vá o médico não perceber a gravidade da situação. E o outro que foi com a vaca ao veterinário para as vacinas, o bicho assustou-se deu um coice, o dono caiu e dias depois estava já cheio de febre e de infeção, mas o problema dele foi a vaca, não foi o VIH que ele andava a passear aos anos! Pobre vaca! Os insólitos! A Índia!

Dou comigo com o tal sorriso estampado, enquanto me passeio neste hospital gigante que tem guardas com apitos a direcionar pessoas e os carros, e lembro-me do privilégio e apesar de peganhenta e com fome, sorrio!

Depois chego ao escritório onde nos últimos dias me tenho dedicado à ciência, bela ciência esta de pôr dados numa folha de Excel, mas é assim que se constrói um bocadinho, uma colherzinha de ciência e um nome numa publicação internacional.
Enquanto estou de olhos em bico a registar biópsias surge um convite para dar uma aula aos alunos de medicina do terceiro ano e lá vou eu, ver como corre, e vejo o doente com eles, aconselho a não ter medo de tocar, a olhar nos olhos, a ouvir, a prestar atenção aos detalhes, a pele, a marcha, o pulso… Por momentos, lembro-me das minhas primeiras excursões pela enfermaria em Santa Maria, que medo, que estranho, a ideia impossível de acabar um curso interminável. Agora, pouquíssimos anos depois, num sítio improvável ensino a tocar no doente como aquele professor imponente me ensinou, e assim passo o testemunho aos jovens médicos que serão, quem sabe, médicos no nenhures da Índia. O sorriso volta e veio para ficar. Que bom, esta ideia de ter contribuído com um grãozinho na construção destes novos médicos, que privilégio!

Volto à cadeira e ao Excel e muitos dados depois são horas do autocarro, hoje até enquanto atravesso a estrada o que é sempre assustador, penso no tal privilégio e não consigo deixar de sorrir!

Leitor imaginário, de grão a grão vou enchendo o papo de sorrisos! (e de papaias… que boas papaias!)

Leitores que por acaso ou convicção foram apanhados por aqui, um abraço para todos, espero que estes grãos também vos ajudem nas vossas obras. 

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Coisas boas?

Hoje o dia correu bem! Tenho a sensação de que quando finalmente estiver habituada e me sentir um bocadinho em casa, chegou Dezembro e é tempo de fazer a mala! Os dias muito bons aqui são raros, mas têm vindo a aumentar de frequência!

Então decidi trazer-vos, a vocês e à velhota pessimista que vive dentro de mim (numa cadeira de balanço com gatos) as coisas boas desta terra! Lembro-me de ter feito isto na Guiné talvez o leitor imaginário se lembre e na altura ajudou-me a pôr as coisas em perspetiva, na maioria das vezes é mesmo isso, uma questão de dioptrias e de degraus. Então hoje subimos juntos aqui à montanha de Vellore, olhamos cá para baixo e observamos o top 5 cá da vila!

1. Os fungos! A sério, aqui as pessoas têm infeções fúngicas como nunca imaginei! É lindo (ponto de vista do infeciologista: é espetacular, é brutal, tira uma fotografia por favor!). Passo a explicar, o Sr. Kumar (equivalente de Zé António) tem uma impressão na perna de alguns meses a esta parte e, por isso, vai ao médico: Oh Sr. Kumar mostre lá a perninha, ele levanta uma espécie de pano aos quadradinhos que os homens enrolam à cintura que vem até aos pés (portanto uma saia!), e quando me aproximo vejo sair, ali da perna do Kumar, uma coisa gigante tipo couve, vem de lá uma lesão enormíssima cheia de nódulos do tornozelo ao joelho e fico a olhar maravilhada, enquanto os médicos indianos mandam para o ar todos os diagnósticos que acabam em micose! E isto, caros leitores, faz o dia de uma pessoa! Já me estou a imaginar em Setúbal, qual sábado de banco, à procura de funguice nas pernocas das velhotas!

2. O lemon rice! Não é arroz com limão, é arroz amarelado com ligeiro aroma a citrinos e com amendoins! É picante, traz 2 ou 3 malaguetas, mas é um bocadinho menos que os outros, e agora posso afirmar que já provei todas as possibilidades de arroz, e este é o melhor. Sendo assim, quase todos os dias, almoço este belo petisco. Um regalo! Uma malga de arroz, meio litro de água e já está, mais um dia (Sim, é mesmo só o arroz com arroz)! Ai, é melhor não falar muito de comida, a ideia deste texto é descrever as coisas boas que tenho aqui!

3. O café! Vá não se exaltem, eles aqui não têm café (sabem lá eles o que isso é!). Chamam café ao galão (mas do clarinho). No primeiro dia, perguntaram-me se queria um café, eu agradeci a gentileza, agarrei no copinho de papel (chávenas nem vê-las) e deparo-me com o tal galão. Eu nunca bebo café com leite, mas pronto, estão a oferecer, não vou fazer a desfeita, o problema… Ai o problema é a nata! Detesto nata! E aquilo tinha um natão gigante. E agora? Lá me pus aos malabarismos com o copo a tentar colar a nata aos lados para poder beber à vontade e quando, finalmente, ganhei a luta e experimentei o cafezinho, pimbas era doce que doía, e é sempre assim… o café, o chá, o sumo de laranja tem tudo muito mais açúcar do que precisa! Mas, agora que já me estou a habituar, sabe-me bem o tal café a meio da manhã!

4. O campus universitário! O campus é a uns 20 min de autocarro do Hospital e é aqui que vivo! Foi extremamente difícil arranjar um quartinho, já mudei de quarto 3 vezes, mas agora, finalmente, tenho esta caminha confirmada até ao fim da jornada! Isto é uma espécie de Oásis no meio da Índia! Aqui é tudo arranjadinho, verde, silencioso, até há esquilos, macacos e avestruzes! Acima de tudo é seguro e dá para descansar a cabeça das buzinadelas!

5. O jantar de quarta-feira! Reza a lenda que desde 2007 que às quartas-feiras, todos os internacionais a estagiar aqui se juntam para jantar num hotel aqui perto, comida indiana, mas melhorzinha! O melhor jantar da semana, há sempre pessoas novas para conhecer e há uma sensação de ocidente e familiaridade que se junta à mesa e que sabe tão bem!

Leitor imaginário, hoje deixo-te o top 5… um dia destes conto-te o resto!

Restantes leitores e amigos, como viram isto não é assim tão mau… tem é açúcar a mais!