domingo, 17 de agosto de 2014

Desta vez na Reanimação !!

Em qualquer hospital do mundo a sala de reanimação ou de emergência é o local do doente em estado muito grave, é ali que a bem dizer se “salvam vidas” ou se mantêm, é ali que se ligam pessoas ao ventilador, é ali que se usa o desfibrilhador… Bom, é aquela medicina aguda, cheia de adrenalina, entre a espada e a parede!

Aí em casa ir à reanimação mete sempre medo, principalmente, em dias em que há poucos médicos mais velhos, porque pode dar-se o caso de ir lá e ficar sozinha e isso é um medo daqueles a rondar o susto. Digo ir à reanimação, porque funciona da seguinte maneira, sempre que chega um doente instável em estado potencialmente grave o enfermeiro da triagem toca uma campainha, tipo sino da escola (igualzinho ao barulho que se ouve no Lidl de vez em quando, estejam atentos!), isto faz com que os vários profissionais se dirijam à sala de reanimação!

O segredo de uma boa equipa na reanimação é a organização, a sistematização de atitudes, toda a gente sabe o seu papel e todos conseguem prever o passo seguinte, isto é o ideal, de certeza que é assim tipo na Noruega ou nesses países em que faz tanto frio que as pessoas já nascem organizadas. Na nossa santa terra há dias mais sistemáticos que outros, mas normalmente toda a gente sabe quem é o chefe e cada um tem a sua tarefa mais ou menos definida, portanto trata-se de uma coisa protocolada com espaço para alguma arte (se não isto não tinha graça nenhuma e falávamos alemão uns com os outros!).

Voltando a oriente, imaginem a reanimação na Índia… Impossível!
Tive imensa dificuldade em perceber como é que funcionava, mesmo depois de ter feito as mesmas perguntas a pessoas diferentes! Ora, então passo a descrever a imagem: uma sala com capacidade para 6 macas, um ventilador e um desfibrilhador (não está mal!), vi uns quantos médicos (5 – 6) mas estavam sempre a aparecer e a desaparecer e ninguém parecia ter um doente atribuído. Depois percebi que como na Índia existe uma especialidade específica para a urgência, quem estava nesta sala ou era especialista em urgência ou era interno ou era qualquer coisa do género tipo eu que andava ali a passear. Quanto aos doentes, saltou logo à vista o facto de serem jovens, o mais velho era uma senhora com cerca de 50 anos, isto é raríssimo do nosso lado do mundo, a nossa média deve ser 70-80 anos. Outra coisa, familiares e amigos com fartura dentro da sala, houve momentos em que haviam umas 20 pessoas por ali, o que não ajuda muito à dita sistematização de atitudes.

E a abordagem do doente critico? Confesso que, mais uma vez, não percebi! Escapou-me ali qualquer coisa! Chegou uma jovem demasiado amarelada (referencia à presença de icterícia e não à etnia), não respondia a perguntas nem a estímulos, a dar para o comatosa. Ao que parece ela própria contou à família que tinha ingerido veneno de rato, mas afinal já ninguém tinha a certeza, porque ela tinha febre há 6 dias e contou isto num pico febril, ora nada feito! 
Resta examinar a senhora, o que se revelou uma aventura, porque, não sei como, a algália estava mal encaixada no saco e vertia urina em grande quantidade para cima dela e da cama. Já com a algália no sítio, quando se tentou virar a senhora para observar as costas, isto piorou bastante, desta vez detetou-se a presença de dejeções liquidas em grande quantidade (até às costas!), apercebi-me que o médico voltou a tentar chamar alguém para limpar a doente, alguém esse que demorou mais uma serie de tempo…

 Entretanto, faltam aqui umas análises, certo? 
O problema é que neste país tudo se paga. O doente entra na reanimação e as enfermeiras tiram logo sangue, depois o médico preenche o papel das análises que quer e dá esse papel à família para eles irem ao balcão pagar e só quando eles trazem o recibo é que o sangue vai para o laboratório. 
Neste caso, desde que a doente entrou até que a família trouxe o recibo passaram à vontade 50 min., entretanto foi preciso resgatar os tubinhos de sangue que estavam em cima da maca e que já boiavam na poça de urina que se tinha formado. O mesmo processo com a TAC, era preciso fazer-se, mas primeiro tem de vir o talão. E meia dúzia de talões depois tratam-se os doentes! Outro mundo! (silêncio)

No fundo, entre enfermeiros, auxiliares (presumo que lá estivessem, mas não os consegui identificar), médicos, familiares e doentes era tudo uma grande e embrulhada confusão aos meus olhos! Olhos que não falam a língua, que não conhecem as pessoas e que não são daquele mundo, desconfio que a desorganização que vi ou que achei que vi, encaixa na rotina e faz sentido para quem está lá todos os dias! Para mim foi caricato e insólito, provavelmente o que um escandinavo sentirá se for à nossa reanimação (nos dias maus!).

Leitor imaginário, vai ser bonito quando vier fazer o estágio… vai vai!
E a viagem continua, agora mais rica, bom mais rica e mais leve (a gastroenterite continua a fazer-se sentir!), mas essa história fica para amanhã!
Um abraço!


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Finalmente no Hospital em Vellore!

Tudo o que vejo inunda-me o coração, não consigo parar de observar: a multidão de gente que enche os corredores, as roupas coloridas, a magreza que por aqui abunda, os vários blocos do hospital que é bem maior que o meu aí em casa, os guardas com um apito a direcionar as pessoas e as motas, os estetoscópios ao pescoço sem bata (a bata não lhes assiste?), as senhoras enroladas em Sari brancos (enfermeiras?), cadeiras de rodas, crianças a correr, olheiras fundas (que patologias esconderão?) e mais, muito mais. E aqui assalta-me aquela frase: “ Aquilo que os teus olhos não viram, que os teus ouvidos não ouviram…”.
E de repente, estou à frente do Chefe de Serviço da Infecciologia, um homem sério e educado, depois das apresentações, vieram os pedidos: “ Posso fazer um estágio com vocês para o ano? 3 meses na vossa enfermaria, na consulta? É possível?” Ele respondeu um seco sim, como se fosse a coisa mais natural do mundo, não questionou o facto de eu não falar a língua, não me fez uma lista de exigências, deu-me o cartão dele e disse-me que íamos começar então este processo e que eu era benvinda!  Bom, isto demorou-me algum tempo a digerir, ainda por cima, estava com gastroenterite e as minhas digestões não andavam famosas, mas depois de mastigar, apercebi-me que em 2015 vou viver 3 meses na Índia, a aprender Medicina tropical, entre muitas, muitas outras coisas! Sustos à parte, no fim ainda lhe perguntei se podia dar uma olhadela no Serviço dele, ao que ele respondeu que se eu quisesse podia aparecer na consulta amanha de manhã!

Na manhã seguinte, lá estava eu na consulta, sentadinha num banco ao lado do chefe, pelos vistos em qualquer lado do mundo, interno que é interno senta-se num banquinho, deve haver uma regra internacional contra a associação entre cadeiras e internos.

E os doentes começaram a chegar, consulta de infecciologia, à partida muito familiar para mim, a diferença foi que aqui os doentes estavam mesmo muito doentes. Numa manhã vi tuberculose como nunca tinha visto, disseminada, multirresistente, entranhada e estabelecida, homens, mulheres e miúdos novos, palpei gânglios enormes, massas abdominais, a doença no seu auge!

E, claro, muito HIV, mas estes doentes são tão diferentes dos nossos, nós temos tanto, apercebi-me que só quantificam a carga viral quando as coisas estão a correr muito mal, nós fazemos por protocolo tudo de 4 em 4 meses. Nós mudamos a terapêutica se os comprimidos causam mal-estar, se o colesterol sobe, se os doentes se esquecem das 2 tomas/dia, passamos para um regime de toma diária. Em contraste, triste contraste, eles aqui ainda fazem AZT (por ser muito toxico, é raríssimo fazermos), e os novos fármacos nem vê-los, um dos internos (?) veio discutir com o chefe a terapêutica de um doente, tinha várias resistências, nenhum dos fármacos que estava a fazer tinha eficácia, era preciso iniciar uma coisa nova, o chefe disse que tinham oferecido ao hospital 2 frascos do fármaco necessário o que seria suficiente para 2 meses, depois disso logo se via... Aqui os doentes pagam consultas, internamentos, os medicamentos do HIV… (silêncio). Nós damos, porque acreditamos que é uma questão não só da saúde individual, mas de saúde pública, e damos bem, e assim é que deve ser!

 Vi uma doente com anemia, muita anemia, e arrisquei perguntar, a partir de que valor é que fazem transfusões de sangue, e arrisquei-me a ouvir a resposta : ”Quando passa os 5 g/dl de hemoglobina, às vezes fazemos!” Nós com 7.5g/dl já ficamos arrepiados!

Num bocadinho aprendi tanto, mesmo sem perceber a língua, há coisas que não é preciso saber Tamil (língua local), basta observar! Vi o respeito que todos tinham pelo médico, a roçar a reverência, vi o modo sério e imponente como ele deu às más noticias (e foram tantas, linfomas, carcinomas da vesícula, HIV em falência terapêutica, tuberculose disseminada) e vi-o respeitar o choro dos doentes e familiares, vi o silêncio, o olhar empático, sem salamaleques e palmadinhas nas costas, e suspeito que tenham havido palavras de encorajamento, tímidas mas concisas! Gostei deste médico!

Leitor imaginário, à tarde fui visitar a urgência do hospital, nem imaginas!! Nem eu imaginava o que iria ver e aprender neste dia…. Lá está: “ Aquilo que nem subiu ao coração do homem…”
Então até à próxima, desta vez na sala de reanimação! Um abraço!

domingo, 10 de agosto de 2014

À espera de chegar...

Conseguimos bilhetes de comboio para Vellore no mesmo dia que aterrámos em Bombaim! Que sorte! Descansámos, tomámos banho e partimos durante a noite.

 28h num comboio indiano! Parece horrível, cansativo… o pior, não é? Mas não é!! Não é, não! A sério, foi revigorante, não sei se vos vou conseguir explicar, mas vou pelo menos tentar.

Imaginem-se num comboio velho e feio, com ares de pouca manutenção, cheio de pessoas cujo padrão de higiene e limpeza é bem diferente do ocidental (bom, agora não pensei mais nisso e o relato continua!).
 Agora a sério, imaginem-se num compartimento com ar condicionado (ah pois, já não sou estudante e também só me enganaram uma, vá duas vezes!), onde cabem uma espécie de 4 beliches, dois de cada lado, as camas são duras, há algumas baratas (poucas), mas o espaço é limpo várias vezes por dia em horário, um tanto ao quanto, aleatório.
Quanto aos serviços disponíveis temos casa de banho privativa, internet e café grátis! Ah, ah, também não abusem!! Há casa de banho no fim da carruagem, com um ar péssimo, daquelas com o dito do buraco no chão e que me fez racionar toda a água que bebia. No que toca a comer, bom se vocês forem indianos como deve ser levam a vossa marmita e enchem o comboio de cheiros indiscritíveis, se forem uns reles estrangeiros como nós olha, comem o que vai aparecendo com os vendedores ambulantes, bananas e chá não vos vão faltar!! 

Feito o retrato do ladrão, resta explicar o crime… foi uma experiência de verdadeiro descanso!
Não há nada para fazer! É tão bom não haver nada para fazer! Imaginem-se um dia inteiro sem nada para fazer, principalmente, coisas que incluam eletricidade ou atividades recreativas. É assustador? Estar 28h à espera de chegar a um sítio? Talvez! Mas foi bom!! 
Porque houve espaço para desintoxicar do peso das responsabilidades, dos horários, das listas de tarefas, nós só tínhamos de esperar! Então conversa-se, dorme-se, olha-se à volta e volta-se a olhar (contempla-se?), fica-se em silêncio, lê-se muito e depressa (é um velho vício, li o Claraboia do Saramago duma acentada só, há quanto tempo é que não lia um livro inteiro no mesmo dia, provavelmente desde a Guiné!), joga-se às cartas e ao dominó (e consigo perder quase sempre), fala-se do futuro, lembra-se o passado, conversas demoradas, mastigadas, com silêncios… porque temos tempo, porque ainda não chegámos!
Conseguem imaginar?

O comboio parou, chegámos a Vellore.

Continua igual, o Hospital continua a ser o centro da cidade e é lá que vamos amanhã e depois… tentar a nossa sorte!

Leitor imaginário, não te esqueças de aproveitar as férias para tentar ouvir, tentar descansar, ou então só para ficar à espera…É um perigo andar sempre a correr, além de tropeçar, pode dar-se o caso de nos pormos por aí feitos loucos atrás do vento e da ventania!


Um abraço para todos e espero que a nossa próxima conversa seja num Hospital Indiano, isso é que era! 

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Bombaim - São 7h da manhã, sai um desabafo…

Há uma sensação de náusea no ar.

Não é só o cheiro a lixo misturado com fezes, urina, animais das mais diversas estirpes e óleo quente com especiarias dos vendedores ambulantes; não é só o ar cinzento de nuvens carregadas de chuva, as ruas emporcalhadas, as pessoas a monte, esfarrapadas, sujas, necessitadas; não é só a temperatura nauseabunda que cola a roupa ao corpo com suor e poeira; não é só o barulho ensurdecedor das buzinas, dos taxistas a gritar, dos mendigos, e da náusea e a náusea faz barulho a mais!  Tudo isto mais a chuva das monções que trouxe a lama, há lama em todo o lado, há um peso no ar…
Não é só isto… é tudo… Bombaim é a cidade mais feia do mundo (do meu mundo, pelo menos).

A Índia é quente e suja, mas tem a sua graça… Bombaim também terá… mas não me lembro!
Contudo, não é a primeira vez que aqui estou! Talvez por isso seja mais fácil, é mais fácil encarar o conhecido, por pior que ele seja, do que o desconhecido!

Mas desta vez é diferente, ao olhar à minha volta e ao contrário de outros episódios desta “aventura”, há uma espécie de paz…estou descansada! Não faço ideia do que vai acontecer, mas não estou muito preocupada, vai ser como diziam uns amigos quando estive em Moçambique (há 10 anos atrás?!): “go with the flow!”.
No meio destes pensamentos, tenho a sensação que voltei atrás no tempo, precisamente há 3 anos estive sentada nesta cadeira no balcão para estrangeiros de estação dos comboios de Bombaim. Nada mudou, a mesma cadeira, os mesmos homens indianos a olhar fixamente para quem lhes parece diferente e as mulheres com os olhos no chão, até o homem do balcão é o mesmo!

Nada mudou? Não pode ser! Eu mudei! Quando voltei a casa, depois "desta Índia” já não era a mesma pessoa.
Mas vieram tantas outras coisas: o casamento, o emprego… Até é estranho chamar emprego ao que faço, gosto mais de trabalho, não sei porquê… mariquices!
A verdade é que com a mariquice do trabalho veio uma avalanche de responsabilidade, um peso para o qual não estava preparada e uma sensação de insuficiência, por vezes, esmagadora, porque nada chega, o estudo, o empenho, a dedicação. 
Tudo isto foi novo e veio com o internato, mas veio também a confirmação de que gosto mesmo disto, gosto de ser este aprendiz de médico (ou de feiticeiro!), gosto dos doentes, gosto do hospital, e gosto muito da urgência (mas não contem a ninguém!)

Esta viagem à Índia surge no meio disto. Não fugi para a Índia (já tive muita vontade foi de fugir da Índia!), voltei à Índia para pensar outra vez, para relembrar, para ouvir, ouvir e depois responder. Esperemos! Um dia, com mais tempo… explico-vos melhor, principalmente a quem chegou agora aqui a este “tasco existencialista de inspiração contemporânea”!

Então venham e fiquem por aqui… a Índia tem muito para ensinar!

Leitor imaginário, estou a escrever com uma semana de atraso… mas tem paciência que tenho já muito para contar!
Um abraço para vocês! (só para quem leu o texto até ao fim!)

sábado, 2 de agosto de 2014

Mais uma aventura!!!

Chegámos à Índia ! 
Cansados, com quase 48h de viagem em cima, saímos de Portugal na sexta à noite de autocarro rumo a Madrid, em Madrid apanhámos o avião para Istambul (que pena terem sido só 2 horas de escala… gostava de ter visitado a cidade) e depois às 5h da manhã de Domingo, finalmente, Bombaim ou Mumbai (como gostarem mais) !!

Confesso que estava tão cansada que nem conseguia pensar, isso mais o belo do bafo húmido característico desta parte do mundo… a sensação que traz a certeza de que sim : “Estás na Índia!”.

Resgatámos a nossa mochila e depois verificámos que o nosso plano de chegar a Bombaim, comprar um bilhete de comboio para Vellore e partir logo de seguida não iria ser exequível… não tínhamos capacidade para nos enfiarmos num comboio 28h, depois desta viagem. Então e agora? Onde é que vamos descansar pelo menos durante o dia… a ver vamos (de vez em quando esqueço-me que isto é uma aventura)!

Enquanto o André foi à casa de banho, sentei-me num daqueles banquinhos do aeroporto ao lado de uma rapariga com ar de ocidental e com uma grande mochila, fiquei em silêncio cheia de vontade de perguntar : “olha lá, por acaso conheces algum hotel aqui do género barato e limpo?”… Mas enquanto lutava com a minha timidez e medo de rejeição chegou o namorado dela, sentou-se e 1 segundo depois perguntou-me se eu tinha sitio para ficar. E viva a entreajuda além fronteiras !! Bom, resumindo, ninguém conhecia nada, mas tínhamos internet, vimos um sitio, assim para o mais ou menos, e fomos os 4 para lá. Quando chegámos percebemos que estava cheio…  Contudo, indicaram-nos outro Hotel ao virar da esquina!

Os quartos eram Maus… maus é pouco… péssimos? Talvez! Com uma relação qualidade-preço terrível… mas a ocasião faz o ladrão… E a nossa ocasião eram noites mal dormidas, roupa colada ao corpo, odor corporal desagradável e uma vontade desesperada de dormir… então ficou mais do que decidido!

E foi assim que começou este capítulo da aventura… os imprevistos, as descobertas, os novos amigos que afinal eram holandeses e estavam a viajar há um mês pela Índia, boa gente!

Começou assim e desejamos que continue assim… cheia de surpresas que nos façam crescer e abrir os horizontes dos nossos corações, por vezes, tão míopes e tão surdos!!

Leitor imaginário, um bem haja, espero que estejas por aí, a tua presença é sempre benvinda.


Amanhã conto- vos o resto… uma semana depois há muito para contar!!!