quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Vellore - onde o sonho comanda a vida!

Incluímos a cidade de Vellore no nosso roteiro, não porque tenha uma grande oferta cultural, ou uma costa cheia de praias, ou montanhas para escalar, trilhos por descobrir… Não, aparentemente, é uma cidade sem nada de especial, não há turistas, aliás não há brancos (signifique lá o que isso significar!), não consta nos guias porque não oferece nada daquilo que os estrangeiros procuram na Índia (conceito ainda por definir!). Mas perguntem aos indianos! Perguntem às centenas de indianos, vindos de todo o país, que rumam a Vellore durante todo o ano, perguntem-lhes o que é que esta cidade tem de especial! E a resposta que vão ouvir é: “CMC – Christian Medical College”, uma das melhores faculdades de medicina do país e que está associada a um hospital muito conceituado com preços acessíveis à maioria dos cidadãos. Esta última parte é importante, porque a saúde na Índia paga-se e não é pouco, aliás sistemas nacionais de saúde como o nosso que é para todos e para mais alguns, isso é coisa rara e que devíamos estimar cada vez mais! Reflexões nacionais à parte, continuemos a história.

Fomos a Vellore para ver o hospital e a faculdade, e demos de caras com o sonho de 2 mulheres! Uma delas, há mais de 100 anos atrás, ouviu os gritos agudos de dor de 3 mulheres que na mesma noite morreram durante o trabalho de parto. Esta mulher, filha de um médico americano, missionário na Índia, cresceu em Vellore, mas sempre se recusou a seguir a carreira do pai, até àquela noite. Noite em que tudo mudou, noite em que do desespero nasceu o sonho de abrir a porta dos cuidados médicos a mais pessoas, mas mais… Ela sonhou mais! E sonhar mais é tão bom! Ela sonhou com um sítio em que mais sonhos como este fossem gerados, uma escola de saúde, uma faculdade de medicina e de enfermagem, mas com objectivo de formar profissionais indianos para os indianos. Ela sonhou com aquilo que nós vimos passados mais de 100 anos – CMC!

E está lá, está lá enorme e imponente, o hospital que começou no anexo da casa do pai dela, e que tinha só uma cama, está lá a maternidade que foi uma das primeiras daquele estado, está lá a unidade de cardiologia, a neurocirurgia, a unidade de transplantação, há de tudo e tal como ela sonhou, é feito pelos indianos para os indianos.

Mas há mais, ainda há o sonho da outra mulher, com o passar dos anos os médicos aperceberam-se que haviam doentes que não conseguiam pagar o preço (apesar de baixo) da consulta, das cirurgias e dos medicamentos. Era preciso arranjar uma solução para as 7000 pessoas que viviam nas barracas de Vellore, sem água, sem luz, e claro sem saúde! Então aqui nasceu o hospital comunitário, e segundo o director a definição deste hospital é simples:” CMC trata pobres e ricos, nós aqui só tratamos pobres!”.

Enquanto visitávamos as instalações deste hospital, o director foi-nos contando algumas histórias, como a da rapariga que tinha esquizofrenia e que por causa dos sintomas e da falta de tratamento e de dinheiro dos pais, foi trancada durante 10 anos num quarto. 10 anos a alucinar, a auto mutilar-se e a ser alvo de todo o preconceito que a doença mental provoca num mundo que transborda em crenças e crendices transcendentais. Isto acabou quando a equipa médica que faz os domicílios (é preciso que o médico vá a casa das pessoas quando elas são tão pobres que não conseguem pagar o transporte, ou quando são mulheres e têm de cuidar das crianças e da casa, ou quando são velhos e já não se podem mexer), quando eles foram abordados pelo pai da menina, um pai que já tinha gasto o dinheiro que tinha em curandeiros, mezinhas e medicamentos, um pai que pediu ajuda, e que mantinha a filha presa para ela não fugir, e em parte teria sido tão mais fácil para ele se ela tivesse fugido… Mas agora há esperança, uma esperança que veio em forma de injecção, porque ela recusou-se a tomar comprimidos, e passado pouco tempo a menina já era outra, já comia à mesa, já falava, e já não queria fugir.

Isto tudo porque o médico não está no seu consultório à espera do doente, da lista de queixas e de medicamentos que ele traz, mas aqui o médico mete o estetoscópio no bolso e vai à barraca! E este, este já é o sonho da outra mulher… ou da menina que sonhou ser médica onde fosse preciso para tratar quem mais precisasse.

Leitor imaginário, a Índia tem muito para ensinar e eu continuo a querer aprender!

Um abraço para todos os leitores que vão passando por aqui, espero que estes relatos vos lembrem e relembrem dos vossos sonhos, daqueles… vocês sabem quais são!

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A caminho pela índia…

Foi com a mochila às costas e um bilhete de comboio no bolso que deixámos o centro que foi a nossa casa nas últimas semanas. O centro e as pessoas! E essas é que interessam, porque é delas que vamos ter saudades, das minhas “tias” e da aula de Inglês - Hindi em que sentadinhas em roda de perninhas à chinês aprenderam 5 perguntas em Inglês, os números, as cores, com jogos, com gargalhadas, com histórias da Bíblia, aprenderam elas e aprendi eu (e nunca mais me vou esquecer das lições que me ensinaram)!

Há vários momentos preciosos que vou guardar, a última aula, é de certeza um deles, comprámos um bolo de chocolate, grande e vistoso, um daqueles bolos de anos com flores de açúcar e enfeites de chantilly, para comemorar a última lição, para dizer: “gostamos muito de vocês!”. Em resposta houve muitos abraços, agradecimentos, fotografias, e a frase que mais me ficou na memória, foi quando uma delas me chama e a olhar bem nos meus olhos diz: “Prianka (um nome comum na Índia e que se tornou o meu novo nome), Prianka, I you love very much!” – um Inglês mal amanhado mas que encheu o meu dia, o que lhe faltou em gramática sobrou-lhe em ternura. Estou feliz! Uma felicidade sem arrepios, que em pouco ou nada se assemelha à felicidade que nos vendem na televisão, aquela que vem embrulhada em caras bonitas, corpos de ginásio, telemóveis topo de gama e umas quantas latas de cerveja, esta felicidade é mais parecida com aquela que o Mestre descreveu no monte, uma felicidade cheia de boas aventuras!

E é entre a Índia que já vimos e a que está por ver que entrámos no comboio rumo a Vellore, comprámos um bilhete de “gente fina”, numa cabine com ar condicionado e com lugar só para 4 passageiros; porque não havia bilhetes de “gente normal” disponíveis, daqueles com ar naturalmente quente e sem cabine. E a culpa é do Diwalli, o festival das luzes, uma celebração Hindu em honra de uma deusa qualquer, que dá direito a feriado e a férias escolares, logo toda a minha gente aproveita para passear e esgotar os bilhetes de comboio, o que vale é que quando toca a férias os ecuménicos é que ganham!

As 28h de viagem foram bastante engraçadas, a maior parte do tempo partilhámos a cabine com uma senhora e mais duas crianças que dividiram o tempo entre as brincadeiras, as birras, as lutas pelos lápis de cor… enfim, aventuras! A acrescentar à animação tivemos os variadíssimos vendedores de chocolates, garrafas de água, batatas fritas, gelados, chá que apareciam intermitentemente e sem qualquer regra. Aliás esta é, provavelmente, uma das características mais marcantes de países em desenvolvimento como a Índia, a falta de previsibilidade, aqui é difícil fazer planos, organizar, prever, porque tudo depende… Depende se chove, depende das marés (ai Guiné, Guiné), depende se há electricidade ou não, depende da vontade de quem manda, depende… Até beber água ou comer uma banana no comboio vai depender se o vendedor certo passa quando eu preciso, porque não há uma loja, não há um botão, não há um horário, nem sequer há uma ementa. Isto é, de certo modo, trágico porque impede o crescimento do país, mas por outro lado tem a sua piada, e se conseguirmos despir a nossa casca ocidental vamos conseguir também desfrutar da imprevisibilidade e da alegria de ver o homem do chá passar, precisamente quando nos apetece um chá! E se fizermos o esforço contínuo de entrar realmente no “espírito da Índia” e deixar de lado o ocidental que há em nós, aí sim vamos aproveitar a viagem e o comboio! E mesmo depois de ter dormido no comboio, desconfortável, numa caminha dura, e de ter visto 3 baratas a passear demasiado perto da minha cama, apesar disto fiquei contente quando vi passar o homenzinho a vender omeletas com pão, e continuei contente, quando descobri que a bela da omeleta, além de óleo com fartura, tinha malaguetas cortadinhas aos bocadinhos lá no meio, as quais retirei com cuidado de modo a poder comer o resto do pequeno-almoço com o chá que passou a seguir!

Leitor imaginário, no fundo, a Índia é assim, dá trabalho a tirar o picante, mas há muito para desfrutar, e agora só falta descobrir o que é que Vellore tem para ver!

Um abraço aos restantes leitores, espero que continuem a viajar connosco!

sábado, 5 de novembro de 2011

A viagem continua…

O nosso tempo em Bombaim acabou! Foram 2 meses. Inesquecíveis! Cheios de histórias e de aprendizagens, uma mistura de aventura e de peregrinação com uma montanha gigante de sentimentos atrelados. O que aprendemos aqui vai ficar guardado no coração (como ensina a história do Natal), contudo, muito provavelmente, só daqui a alguns meses é que teremos a consciência do tamanho da montanha que vamos ter de arrumar!

Tivemos a oportunidade rara de estar na Índia dos Indianos e não das agências de viagens e dos hotéis de luxo. Comemos à mesa deles, o arroz branco sem tempero, com dall (uma espécie de molho de lentilhas) e legumes picantes, todos os dias excepto ao domingo que é dia de comer frango (dia de festa!).

Andámos de transportes públicos como eles e com eles ao nosso colo, sem exagero nenhum, num daqueles triciclos motorizados onde cabem 7 passageiros, andámos quase sempre com cerca de 18-20 pessoas. No autocarro num banco de 2 vão 3, isto é de certeza e com sorte vão 4. E no comboio? Este é indescritível, vocês têm de experimentar! A viagem de comboio entre a cidade onde estávamos e Bombaim é de mais ou menos 1h45 min. A “piada” da viagem reside no facto do comboio ir tão cheio que as pessoas (incluindo nós) para conseguir entrar têm de usar a força, leia-se empurrar, dar uns quantos murros e nunca desistir de fazer força para a frente, porque enquanto uns estão lutar para entrar, outros estão a lutar para sair, e não, não há respeito, nem organização, nem filas… duas mãos a empurrar e para a frente é que é caminho!

A propósito desta “tradição” indiana, desenvolvemos uma estratégia de sobrevivência, o André vai à frente a empurrar e a abrir o caminho, eu fico atrás dele, a mala fica entre nós, e depois, com uma mão seguro na mala e com outra no André e aconteça o que acontecer nunca desisto de segurar nem uma coisa nem “outra”. Numa destas brincadeiras, uma vez a regressar de Bombaim, o comboio estava tão cheio que além de ter sido quase impossível entrar, no meio da confusão, não sei bem como senti o chinelo a saltar-me do pé. Nesse mesmo instante, olhei para trás e vi uma pequena multidão de gente, à minha frente uma grupo bem maior já dentro do comboio ao estilo das sardinhas enlatadas… a decisão era clara, ou volto para trás e tento encontrar o chinelo no meio daquela gente toda e claro, perco o comboio; ou empurro 3 ou 4 indianos entro no comboio e perco um chinelo… bom, chinelos há muitos! - já dizia o outro. E assim foi, entrei no comboio a abarrotar de gente, com um calor que não se podia e com um chinelo a menos… a Índia tem destas coisas! Depois fui para casa com o chinelo do André e ele foi descalço (velhos hábitos!).

Meios de locomoção e lentilhas à parte… O objectivo era conhecer a Índia sem maquilhagem, sem elefantes com desenhos cor de laranja e almofadinhas com lantejoulas, sem ar condicionado. E assim foi. Este tempo foi cheio de lutas, porque a Índia é quente e suja! Mas mais ela é muito mais! É cheia de histórias de injustiça e crueldade, algumas vocês ouviram outras ficarão para mais tarde, outras, ainda, continuarão dentro das casas e com a boca semicerrada em tom de resignação. Mas há mais! Há a resistência de um povo que tem pobres a mais, comida a menos, deuses a mais, esperança a menos, necessidades a mais, oportunidades a menos. No entanto, eles resistem… resignados mas persistentes. Como uma criança que leva porrada mas não chora, e não chora porque não pode, porque não deixam, mas se chorasse ninguém ouvia!

Nós ouvimos! Ouvimos o choro das meninas que vieram dos bordéis, das crianças que vieram da rua, dos sem abrigo, dos dependentes, das pessoas sem assistência médica acessível… ouvimos com ouvidos de ouvir. A maior parte do tempo, o nosso tamanho só nos permitiu ouvir e ajudar em pouco, resolver em menos, atenuar em alguma coisa. Mas guardámos! Guardamos as lágrimas deles e as nossas no coração e continuamos a aventura. A viagem agora prossegue, porque queremos ouvir mais, queremos conhecer mais, mais necessidades, mas também mais opções de ajuda, mais esperança! Então rumamos para sul…

Leitor imaginário, daqui até à próxima paragem são 28h de comboio, e já só tenho um par de chinelos!

Quanto aos outros leitores um abraço para vocês e obrigada pela companhia, gosto muito de vos ter por perto!