Avançar para o conteúdo principal

Coisas boas?

Hoje o dia correu bem! Tenho a sensação de que quando finalmente estiver habituada e me sentir um bocadinho em casa, chegou Dezembro e é tempo de fazer a mala! Os dias muito bons aqui são raros, mas têm vindo a aumentar de frequência!

Então decidi trazer-vos, a vocês e à velhota pessimista que vive dentro de mim (numa cadeira de balanço com gatos) as coisas boas desta terra! Lembro-me de ter feito isto na Guiné talvez o leitor imaginário se lembre e na altura ajudou-me a pôr as coisas em perspetiva, na maioria das vezes é mesmo isso, uma questão de dioptrias e de degraus. Então hoje subimos juntos aqui à montanha de Vellore, olhamos cá para baixo e observamos o top 5 cá da vila!

1. Os fungos! A sério, aqui as pessoas têm infeções fúngicas como nunca imaginei! É lindo (ponto de vista do infeciologista: é espetacular, é brutal, tira uma fotografia por favor!). Passo a explicar, o Sr. Kumar (equivalente de Zé António) tem uma impressão na perna de alguns meses a esta parte e, por isso, vai ao médico: Oh Sr. Kumar mostre lá a perninha, ele levanta uma espécie de pano aos quadradinhos que os homens enrolam à cintura que vem até aos pés (portanto uma saia!), e quando me aproximo vejo sair, ali da perna do Kumar, uma coisa gigante tipo couve, vem de lá uma lesão enormíssima cheia de nódulos do tornozelo ao joelho e fico a olhar maravilhada, enquanto os médicos indianos mandam para o ar todos os diagnósticos que acabam em micose! E isto, caros leitores, faz o dia de uma pessoa! Já me estou a imaginar em Setúbal, qual sábado de banco, à procura de funguice nas pernocas das velhotas!

2. O lemon rice! Não é arroz com limão, é arroz amarelado com ligeiro aroma a citrinos e com amendoins! É picante, traz 2 ou 3 malaguetas, mas é um bocadinho menos que os outros, e agora posso afirmar que já provei todas as possibilidades de arroz, e este é o melhor. Sendo assim, quase todos os dias, almoço este belo petisco. Um regalo! Uma malga de arroz, meio litro de água e já está, mais um dia (Sim, é mesmo só o arroz com arroz)! Ai, é melhor não falar muito de comida, a ideia deste texto é descrever as coisas boas que tenho aqui!

3. O café! Vá não se exaltem, eles aqui não têm café (sabem lá eles o que isso é!). Chamam café ao galão (mas do clarinho). No primeiro dia, perguntaram-me se queria um café, eu agradeci a gentileza, agarrei no copinho de papel (chávenas nem vê-las) e deparo-me com o tal galão. Eu nunca bebo café com leite, mas pronto, estão a oferecer, não vou fazer a desfeita, o problema… Ai o problema é a nata! Detesto nata! E aquilo tinha um natão gigante. E agora? Lá me pus aos malabarismos com o copo a tentar colar a nata aos lados para poder beber à vontade e quando, finalmente, ganhei a luta e experimentei o cafezinho, pimbas era doce que doía, e é sempre assim… o café, o chá, o sumo de laranja tem tudo muito mais açúcar do que precisa! Mas, agora que já me estou a habituar, sabe-me bem o tal café a meio da manhã!

4. O campus universitário! O campus é a uns 20 min de autocarro do Hospital e é aqui que vivo! Foi extremamente difícil arranjar um quartinho, já mudei de quarto 3 vezes, mas agora, finalmente, tenho esta caminha confirmada até ao fim da jornada! Isto é uma espécie de Oásis no meio da Índia! Aqui é tudo arranjadinho, verde, silencioso, até há esquilos, macacos e avestruzes! Acima de tudo é seguro e dá para descansar a cabeça das buzinadelas!

5. O jantar de quarta-feira! Reza a lenda que desde 2007 que às quartas-feiras, todos os internacionais a estagiar aqui se juntam para jantar num hotel aqui perto, comida indiana, mas melhorzinha! O melhor jantar da semana, há sempre pessoas novas para conhecer e há uma sensação de ocidente e familiaridade que se junta à mesa e que sabe tão bem!

Leitor imaginário, hoje deixo-te o top 5… um dia destes conto-te o resto!

Restantes leitores e amigos, como viram isto não é assim tão mau… tem é açúcar a mais!  

Comentários

  1. Amiga... Açúcar e picante a mais... Aí que sina essa!!!! ;)

    ResponderEliminar
  2. Bianca, é sempre um prazer ler-te, é sempre bom encontrar-te a ti nesses testemunhos :)
    Agora recomecei os meus, já cheguei a Barcelona. Se quiseres passa pelo meu tasco.
    Beijinho grande!

    ResponderEliminar
  3. Anocas Énia, obrigada pela companhia, sabe bem ter-te por perto!

    Laura, passei no teu "tasco" que julgava fechado... li para trás e para a frente, é sempre bom encontrar-te... Espero que estas nossas viagens sejam mais que estágios e se tornem factores de crescimento num mundo tão anémico!

    Um abraço às duas!

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Deu tudo certo!

A mala está semi-feita, faltam as coisas pequenas, falta fechar, despachar e partir. É bom partir para casa, mas é difícil fechar este ciclo. Atrás de mim ficam as histórias, as pessoas com quem aprendi a ser bem mais que médica, ficam as coisas que só poderia ter vivido num país virado para o sol e para os sorrisos abertos. Elas ficam e vêm comigo no coração, porque a mala já tem excesso de peso, trago o que sou agora e que não era há três meses atrás.  Aliás, essa é a beleza desta experiência, vou provavelmente esquecer-me dos critérios do síndrome hemofagocítico, mas dificilmente da médica que deu chocolate e coca-cola à menina que tinha uma sonda naso-gástrica, dos meninos da enfermaria, dos adolescentes da consulta, isto tudo vai comigo e irá para onde eu for! Escrevo isto com o peito apertado, aquele desconforto na garganta, um incómodo que não sei explicar, no fundo estou ansiosa de chegar e a rebentar de saudades e ao mesmo tempo triste por deixar isto tudo para t...

Dia_20 “A vida é dura para quem é mole…”

O dia começou soalheiro numa tabanca chamada “Madina” e a D. Domingas foi ao mato buscar um legume para o almoço, nada de especial até aqui, a vida corria sem percalços, um dia normal na vida de uma mulher Guineense! Mas, e há sempre um mas… Há 4 espécies de cobras venenosas nesta região! Há muitas cobras na época das chuvas! Há mato! Há azar na vida… Há um pé que é mordido por uma cobra! Pede-se ajuda… liga-se para a AMI! Vamos a correr. A viagem de jipe parece interminável, tentamos definir um plano de acção para quando chegarmos ao destino não perdermos tempo. Chegamos a Madina, toda a aldeia está em alvoroço, há olhos cheios de esperança, talvez “os brancos” tragam a solução… A senhora vem meio inconsciente, é trazida por 4 homens até nós, improvisa-se uma sala de cuidados intensivos na parte de trás do jipe. Há gente por todo o lado! Avaliam-se os sinais vitais… o pulso mal se sente! Entrou em choque! Ouvimos o batimento cardíaco ir embora… e levar com ele a esperança de ter sid...

Chegámos!

Estou na Índia!! Até custa a acreditar… bom, a ideia foi ganhando forma quando no avião, em vez de uma sandes, nos serviram uma espécie de crepe com caril tão picante que até ardia. Mas, a realidade, a sério e às sérias, veio quando saímos do avião e foi como se tivéssemos entrado na zona das plantas tropicais da Estufa fria em Lisboa, isto é, pusemos os pés fora do avião e veio de lá "aquele bafo" que transbordava humidade e que nos transportou para a nossa realidade – Estamos na Índia! E, porque é na Índia que estamos, nem ficámos chateados nem fizemos reclamações, com o facto de termos demorado mais de uma hora a "resgatar" as nossas malas do tapete, isto porque o dito tapete de 10 em 10 minutos "sofria dos nervos" e parava e depois recomeçava a rolar devagarinho até que paralisava outra vez…. A acrescentar à espera, tenho de vos contar um detalhe, daqueles que só vistos, então não é que cada vez que passava uma mala no tapete toda a minha gente estend...