quinta-feira, 31 de março de 2016

A festa continua!

A pediatria continua cheia de porcelanas. 
É difícil sair dali sem perder um caco, sem um risco, sem uma lasquinha na ilustração, o coração sente a fragilidade a que não está habituado. Mas continuo, insisto nesta jornada que começa na razão da febre e termina na razão do abandono, do abuso, da injustiça. 
Continuo? Vou tropeçando nas histórias, mas continuo. Vou chorando em sístoles disfarçadas, mas continuo. No entanto, há dias em que continuar é mais fácil, há pessoas que me empurram para a frente quando me pesa o choque da injustiça na barriga das pernas. 

Trago-vos um destes empurrões na esperança que caminhemos mais juntos: A Dra. Y, a chefe da enfermaria, muito simpática, com um sotaque delicioso, com a experiência que muitos anos de pediatria, num país cheio de assimetrias, foram acrescentando. A manhã começou com a visita médica, discutimos todos os casos, tiram-se dúvidas, ela faz perguntas, as respostas vão aparecendo entre silêncios cúmplices. E aparece a doente X, uma menina linda, pequena e enfezada para a idade, veio sozinha, já sabe o caminho da sala dos médicos, ela já está internada há muito tempo (demasiado!). Já está ao colo! Linda, com a trança que as enfermeiras fizeram e com uma molinha cor-de-rosa no cabelo a segurar a ponta da sonda naso-gástrica que leva a comida até ao estômago. 
Enquanto olho para ela, seguro as lágrimas que vêm com alegria e tristeza misturadas, vejo uma menina de 3 anos, com o HIV que a mãe lhe ofereceu, com as consequências de quem nunca tomou bem os remédios do HIV, com um esófago doente que a impede de comer sem sonda e que até já foi operada, com um atraso na fala, com uma marcha atabalhoada, mas olhinhos lindos, ela está tão melhor! Então, cheia de charme com a sua sonda pendurada no cabelo, olha para a médica e aponta para um copo de plástico, ela não pediu verbalmente, não foi preciso! Rapidamente, esta Dra. encheu o copo de sumo, contra o protesto dos espetadores: “ Ela vai vomitar, cuidado, só pode ser pela sonda!”, e respondeu: “ pela sonda não vai sentir o gosto, criança gosta de sumo, vamos dar só um bocadinho!”. E sentada no colo da chefe de serviço, a menina da sonda bebeu um golinho de sumo e sorriu (e eu segurei as lágrimas)! Entre golinhos a Dra. contou a história do fim-de-semana em jeito de confissão, era Páscoa e todos os meninos tinham chocolates, menos esta menina (porque o esófago está tão doente que só passa comida pela sonda, ela vomita tudo, ela está a vomitar há meses), ora isso não é justo, ela é tão pequenina! Então a Dra. ensinou- a a contar até 15 enquanto lhe deu 15 pedaços de ovo de chocolate, pela boca, devagarinho, até derreter. Não vomitou, ficou feliz, e aprendeu a contar! 
Depois juntaram-se os outros médicos à conversa e começaram as histórias que só pessoas assim têm, as vezes em que encomendaram pizza para os meninos que tinham apenas mais alguns dias de vida, mas que queriam muito pizza, as comidas especiais, os copos de coca-cola oferecidos aos meninos que perderam o apetite.

Minutos depois passa o menino XY, pequenino, magricela e quase transparente da anemia que vai arrastando. Ele tem uma daquelas febres com 3 meses de evolução que ainda não têm diagnóstico, e se há coisa que um infeciologista gosta é de uma febre, uma linda febre (“pelam-se por descobrir o mistério!”), mas também tem falta de apetite e, por isso, está cada vez mais magro. E a Dra. não foi “de modas”, até porque a estética não é para aqui chamada, ela perguntou ao menino o que é que ele gostava de comer e ele responder com uma lista de doces e salgados, tudo coisas que fazem mal. E agora? Agora, temos uma festa amanhã com direito a salgadinhos e guloseimas, porque as crianças têm de comer para crescer! A mim calhou-me estudar a febre e levar bolinhos de queijo (primo da coxinha de frango, mas sem frango).

Leitor imaginário de festa em festa vou aprendendo pediatria com quem é bem mais do que médico.

Restantes leitores, às vezes precisamos de um empurrão para continuar a correr, espero que ao lerem este texto se sintam empurrados para continuar a lutar contra a mesmice. A peregrinação continua!

segunda-feira, 21 de março de 2016

Amanhã é dia de festa!

Acabei agora de tirar do forno um bolo. A casa cheira bem, cheira a confortável, o bolo está bonito, falta a cobertura de chocolate e as bolinhas coloridas, mas acho que no fim ficará um bonito bolo de aniversário! Amanhã é dia de festa na enfermaria de pediatria, um menino faz anos e nós vamos fazer uma surpresa, vai haver bolo, brigadeiros, e até um hamburger do MacDonald´s!

Enquanto escrevo isto imagino a festa que aí vem sorrio e fico contente por poder participar! Ao mesmo tempo pesa-me o sorriso e o olhar resvala para a tristeza. A festa é especial, porque o motivo é especial, este menino é o mais especial de todos, gostava tanto que ele soubesse isso, este bolo de cenoura é a minha maneira de dizer isso… espero que ele entenda.

A história que aí vem é triste, escura e feia. Nem sei se a devia partilhar convosco, será que a vamos entender? Ou vai ser só a desgraça alheia, como quando abrandamos o carro para ver um acidente (Quem bateu? Quantos carros? Há sangue?). Esse é um dos riscos deste blog, fazer disto uma montra de histórias umas mais tristes do que outras, mas são as “dos outros”, estão longe de nós, como ver o massacre que está a acontecer na Síria e pedir para mudar de canal porque até parece mal comer o jantar e ver milhões de pessoas em fuga do seu próprio país, muda para os anúncios, desliga, aliena, evade, foge, isso é dos outros, ainda bem, olha passa-me o pão!… Perigos à parte, o desafio é tornar estas histórias nossas, próximas, tão perto que nos façam querer mudar, alterar o que está mal neste mundo tão cheio de pontas soltas.

A mãe deste menino morreu e ele teve de ir viver com o pai com quem não tinha muito contacto. De repente, adoeceu, adoeceu tanto que alguém pediu um teste VIH que deu positivo, foram atrás do motivo e encontraram. Ele foi abusado, ninguém sabe por quem, e ele não fala sobre isso. Continua doente, muito doente e não fala sobre isso. Deixou de comer e começou a emagrecer ao ponto de necessitar de um tubo no nariz que leva a comida diretamente ao estômago e nem sobre isso ele quer falar. Ele desistiu! Comer para quê? Talvez por isso, no início nem respondia às minhas perguntas, nunca sorria, nunca chorava, ele não queria falar. E o que é que o médico faz? Este projeto de infeciologista fez o quê? Pouco, continuei a ir lá dar os bons dias com umas tentativa de piada pelo meio, sugeri um antidepressivo, fui contra a colocação da sonda no nariz, mas depois rendi-me aos 30kgs, ajustei os retrovirais… pouquíssimo! O que vale é que nem tudo depende do que fazemos! (silêncio, enquanto gravo isto no coração) É o que vale! Esta semana ele sorriu para mim, ele até disse mais do que monossílabos, engordou umas gramas e vi-o comer o pão do pequeno-almoço! A esperança também pode vir em forma de sandes! Ele está a melhorar! E amanhã temos festa! Amanhã celebramos o fato de ele ter nascido, um menino especial que viveu o que nunca deveria ter vivido, mas que está a tentar ultrapassar as suas dificuldades, ele até já come o pão! E amanha há bolo!

Leitor imaginário, esta enfermaria é pesada, e as histórias agarram-se ao coração, não têm sido dias fáceis, mas tenho aprendido muito e esse é que é o objetivo. Espero que também tu (vocês?) possas lembrar-te, enquanto lês este texto, que as histórias dos outros também são nossas e que essa é a beleza da Páscoa.
Quanto aos outros leitores que aqui vieram parar, bem-vindos a esta casa, espero que estas “minhas” histórias também vos aproximem duma Páscoa com menos coelhinhos e mais partilha, menos ovos de chocolate e mais esperança na reconciliação.


quarta-feira, 16 de março de 2016

Ainda vamos a meio!


 O dia está cinzento, volto do trabalho, estou cansada, talvez por isso o desenrolar lento dos passos, ou talvez porque chegar será igual a sentar-me a estudar. Não me apetece chegar! Então vou andando, este caminho já não me é estranho, conheço-lhe os detalhes, já sei que ali o pão não é bom, mas as mangas são (caras!) mas ótimas, um verdadeiro paraíso das mangas. E mais à frente, o pão é melhor e os bolos também, depois ao virar temos a frutaria orgânica, nunca tem mangas, mas tem dióspiros e laranjas da Bahia sempre doces, feios e pequenos se não os “orgânicos” levam a mal!

Assim se passa um mês e meio! Aprendi as manhas da fruta e do fiambre que aqui não é fiambre é presunto, tenho sempre de repetir as frases e de preferência cantadas em português do Brasil, descobri que toda a gente gosta do meu sotaque e que todos os brasileiros têm um familiar português (seja uma tia, primo, afilhado, o vizinho da vizinha) e que sítio não é lugar, mas sim uma grande quinta!

Comecei o estágio pelo serviço de urgência, um mês, 5 dias por semana das 7h às 20h (mais os picos)… Doeu! Ainda dói, arde, à espera que cure! As muitas horas diárias não doeram, arranharam, o que doeu, o que “machucou” até ao fim do estômago, onde agora tenho um grande nó foi o que vi! Vi muita desgraça, tristeza, pobreza, declínio… Vi a SIDA, entidade que surgiu nos anos 80 e que assustou médicos e doentes, matou muita gente, porque não tínhamos medicamentos, ninguém conhecia a doença, mas com o tempo as coisas mudaram, veio a esperança mascarada de “inibidores da protéase” (remédios!) e eles deixaram de morrer, não se cura, mas trata-se… Quer dizer, podíamos tratar… podemos… existem medicamentos… existem doentes… o problema é a coexistência! Vi SIDA como nunca tinha visto, vi a pele e o osso dos doentes sem nada no meio para amparar, vi o grave e o gravíssimo, vi lepra e micoses sistémicas, vi um bocadinho da Guiné e da Índia e revi a sensação de impotência, de pequenez, de insuficiência… Aqui estou eu mais uma vez de lanche (pão e peixe noutra época) na mão a dizer que só tenho isto…

Foi no meio destes pensamentos… tenho pouco, sou pouco, é ridículo de tão pouco, tenho de estudar mais, ouvir mais, ser mais, é aqui que chega um dos doentes que mais me marcou. (Dados fictícios) Cleidi que era Anderson, que era prostituta, que era travesti, que era toxicodependente, que tinha diagnóstico de HIV, mas que nunca quis tratar. Chega com falta de ar, aflita, vulnerável, precisa de ajuda, em poucas palavras conta que sabe que tem HIV mas que a vida é muito complicada, nunca tratou porque tem medo, hoje veio porque não consegue respirar, anda assim há 3 semanas. Mas há mais, ontem, algures num desses vãos de escadas da vida, colocou silicone industrial no “bum-bum” para parecer maior e mais redondinho. Incrédula, examino a pele inflamada, abcedada e ainda com bocadinhos de cartão a fazer de penso para tapar os locais de injeção. Porquê? (silêncio) Não preciso que ela (ele? Não interessa!) responda, cá dentro sei bem que o desespero humano, a falta de rumo, as contrariedades da vida aumentam a bola de neve de tal maneira que depois de cair dá a sensação que ainda estamos a rodar. Olho para ela e tento entender, o medo de tratar o HIV e a falta dele para colocar o silicone, o medo escondido atrás da maquilhagem e da roupa justa enquanto vende o que nunca deveria ser vendido, tento, mas não consigo. Mas sei que o problema dela é mais fundo do que a falta de juízo para tomar os medicamentos, bem mais complexo do que a identidade sexual, vai para lá… começou antes, precisou antes… e para isso não há comprimidos a inibirem enzimas. Então enquanto vejo a saturação de oxigénio, olho-a nos olhos e falo de mudança, vamos começar outra vez, vamos parar de desistir. Saio da sala sufocada pela máscara e pela ansiedade de ver alguém com 27 anos com tão pouca esperança.

A infeciologia tem destas coisas, o Brasil tem destas coisas, e eu… estou aqui para aprender!

Leitor imaginário, espero ter a capacidade de guardar no coração o que tenho visto e de partilhar contigo e com os nossos amigos o meu “lanche”.

Restantes amigos, se vieram à procura de sol e trópicos, espero que não tenham ficado desiludidos, as histórias sérias também ajudam a limpar a miopia.

domingo, 6 de março de 2016

A Epifania do Bonete!

Acordei com vontade de partilhar isto convosco, esta ideia anda a moer-me há demasiado tempo, ela vai aparecendo no meio dos meus pensamentos, vai espreitando, insinua-se, não explode, não dói, mas pica, incomoda, perturba, uma pedra no sapato, das pequeninas, como todas as angústias existenciais devem ser.

Tudo começou numa daquelas caminhadas loucas que vão dar à praia mais bela do mundo, com as cachoeiras mais majestosas, e tudo imperdível e mais meia dúzia de elogios, passarinhos e bichinhos tropicais, pronto, lá me enganou… como sempre! Então sapatinhos de caminhada, calças (ah pois, porque as picadas de mosquito do dia anterior ainda estavam na memória e nas perninhas), repelente, protetor solar (difícil é decidir qual pôr primeiro!) e lá vamos nós… 24 km… (em distância total, mas o acordo era ir até dar, eu já vos disse que sou sempre enganada com estas falinhas mansas!).

Uma subida para começar, lama da chuva de ontem, pedras, resumindo: “o mato!”, Eu a caminhar com cânticos de alegria (não!), mas lá fui, até tinha um pau de caminhada (que chique!), e fui… ultrapassei as subidas, quase caí mil vezes nas descidas (quase!), pés na lama demasiadas vezes, enfim! Não foram só adversidades, vi um passaroco endémico da região, o pica-pau de topete vermelho e fiquei contente porque só eu é que vi (AhAhAh) e quando chegámos à primeira cachoeira aí sim pensei que valeu a pena a lama que tinha nas unhas dos pés!

Não vou estar aqui a meter-vos inveja, mas sim, as cachoeiras eram ótimas, e depois da caminhada ainda melhores. Haviam mais duas com muitos quilómetros pelo meio, ainda tentámos alcançar a segunda, mas ali a meio tomámos a sábia decisão de voltar para trás, pelo princípio universal de que tudo o que caminhares para a frente, terás de caminhar para trás.

Foi no caminho da volta, no silêncio da mata atlântica, entre tocas de cobra, barulhinhos de qualquer coisa que de certeza que é perigoso, a água da cachoeira lá atrás, as folhas, a lama, a bicharada, e os pensamentos… Primeiro confusos, muitos, barulhentos, depois mais tranquilos, alinhados, transparentes, ao ritmo do passo. Enquanto olho para o chão, a cabeça voa para a caminhada, para onde ponho os pés, e estou atenta aos galhos do caminho, tenho cuidado com as poças de lama, procuro pôr os pés nas pedras secas, desvio-me da abelha, e vou andando, quero chegar, tenho fome, preciso de um banho, de certeza que falta pouco para chegar, e caminho, olho para os pés e de vez em quando para a frente, mas rapidamente olho para onde estou a pôr os pés, não quero escorregar! E o esquilo? Viste o esquilo? Não, estava a olhar para o chão. Onde está? Já fugiu!

Aqui muda tudo! Oiço lá no fundo dos ouvidos, perto do coração, uma pergunta daquelas com rasteira, engulo em seco, paro e olho à volta, olho para cima, respiro fundo, torno a ouvir a cachoeira, e a pergunta volta em tom suave. Para onde é que estás a olhar? Em defesa respondo que não quero cair, quero chegar depressa. E oiço! Respiro a brisa da epifania! Entendo! Reconheço! Recomeço! Agora caminho na mesma, contudo olho mais à volta, paro mais, sigo o cantar daquele pássaro, encontro o ninho, vou mais devagar, mas mais feliz, vi mais coisas, esperei que aparecessem. A caminhada continua e a tarde também, chego ao destino com 17km nos tornozelos e com uma nova lição. Esta caminhada tem que se fazer! Olhar para o chão, calcular os passos, uma etapa de cada vez, mais um desafio, uma subida ingreme, saltar uma poça, evitar cair, caminhar, caminhar e chegar. Porém, quero lembrar-me do que aprendi com a estrada para a praia do Bonete, quero olhar para os lados e ver o que se passa à minha volta e com os que me acompanham, quero parar por eles, parar para ouvir. Quero olhar para cima, respirar e saber porque é que caminho, relembrar o porquê e deixar o Como na mão de quem ele pertence.
Não chegámos a ver a praia do Bonete, mas vi o que precisava para continuar a caminhar.

Leitor imaginário, as caminhadas dão-me para isto, se por acaso me esquecer do que aprendi, lembras-me? Não quero andar para aí em correrias de olhos no chão!
Restantes amigos, um abraço e boas caminhadas!