sábado, 30 de abril de 2016

Deu tudo certo!

A mala está semi-feita, faltam as coisas pequenas, falta fechar, despachar e partir.

É bom partir para casa, mas é difícil fechar este ciclo. Atrás de mim ficam as histórias, as pessoas com quem aprendi a ser bem mais que médica, ficam as coisas que só poderia ter vivido num país virado para o sol e para os sorrisos abertos. Elas ficam e vêm comigo no coração, porque a mala já tem excesso de peso, trago o que sou agora e que não era há três meses atrás. 
Aliás, essa é a beleza desta experiência, vou provavelmente esquecer-me dos critérios do síndrome hemofagocítico, mas dificilmente da médica que deu chocolate e coca-cola à menina que tinha uma sonda naso-gástrica, dos meninos da enfermaria, dos adolescentes da consulta, isto tudo vai comigo e irá para onde eu for!
Escrevo isto com o peito apertado, aquele desconforto na garganta, um incómodo que não sei explicar, no fundo estou ansiosa de chegar e a rebentar de saudades e ao mesmo tempo triste por deixar isto tudo para trás. Ontem no meu jantar de despedida, à volta do famoso bacalhau português e da tarte de pastel de nata, falávamos disto, fui partilhando que uma parte de mim quer ir outra quer ficar, a pessoa à minha frente respondeu que outra parte de mim deve querer ir para a Índia, e de imediato do outro lado ouviu-se que outra parte queria estar em África… e eu sorri e concordei totalmente! A perspicácia dos brasileiros aguçada por um prato de bacalhau! E é isto o meu coração tem bem mais que quatro divisões, desejo profundamente que ele continue assim apesar do desafio da rotina, da trivialidade e da mesmice. 

Assim, digo adeus a estes novos amigos e a este lindo país que me recebeu tão bem! Fica para sempre a frase que uma das melhores pessoas que conheci aqui me disse logo no primeiro dia que estive na urgência:” Vai dar tudo certo!” E não é que deu!

Leitor imaginário, hoje é difícil falar do que aprendi e do que esta experiência significou, o futuro dirá, mas espera sinceramente que esta oportunidade que de graça me foi dada possa servir para construir bem mais do que a minha vida!
Restantes amigos, a viagem chegou ao fim, obrigada pela companhia. O blog continuará, Portugal tem muito para ensinar e eu prometo lutar contra a preguiça de escrever! Um abraço!


terça-feira, 26 de abril de 2016

Mais um dia de consulta

Hoje escrevo de uma assentada só, o tempo escasseia e as vivências transbordam. Faltam só uns dias para partir e nestas páginas já faltaram 3 meses. É com um sorriso que olho para trás e sussurro entre dentes: “deu certo” como diriam estes meus novos amigos.
É neste ambiente de “fazer a mala” que vos trago as histórias de hoje que na verdade são da semana passada, que vão sendo dos anos que passam pela vida destas crianças, as histórias têm nome, bochechas e birras, são pequenas, umas com final feliz, todas em construção, assim como os seus protagonistas.

A consulta de pediatria começa devagar, um resumo do doente antes de entrar na sala, vêm à baila as histórias da infeção, este apanhou o HIV na barriga da mãe que nunca tomou a medicação, aquela menina foi abusada, aquela criança desconfiamos que também… e continuam as histórias que tornam as sístoles rápidas e secas, batimentos duros que lutam com a injustiça, os olhos pestanejam, as mãos arrefecem e a criança entra no gabinete.

Não vem sozinho e também já não é uma criança, é um homem feito, traz ao colo a filha e atrás vem a esposa. O menino começou a ser seguido nesta consulta há mais de 20 anos, com a mesma médica e com a conversa do costume: “se tomares os remédios direitinho vai tudo correr bem”. E não é que correu?! Hoje já é grande, é fisioterapeuta, é pai de uma criança saudável, “deu certo”! E o HIV? Está bem, obrigado! Mas a conversa vai para lá da infeção, falamos das dúvidas de um casal de pais jovens, os medos, as inseguranças, ele fala, nós escutamos. E de repente, ela com a criança nos braços interrompe para dizer que não se importa com a doença dele, que sabe bem os cuidados que deve ter e que isso basta, faz uma pausa, respira fundo e diz que ele foi a melhor coisa que lhe aconteceu e que um vírus não vai mudar isso! E esta mini médica (piegas!) suspira, sorri e o pensamento foge para os meninos internados no andar de cima. Isto sim é seguimento ambulatorial bem feito! A conversa teve pouco de ciência e muito de vida, houve conselhos para os jovens pais, houve espaço para desabafar o que não se fala com ninguém, ali no consultório renovaram-se mais do que receitas. A porta fechou, ficaram os médicos, uma sensação de dever cumprido pairava no ar. 
No fim, veio a história deste menino que já é homem, há muitos anos atrás, quando o diagnóstico foi feito, o pai dele transtornado pela notícia, deu um tiro na mãe que morreu à frente do filho. (silêncio) Olho agora para a porta de onde ele acabou de sair e agradeço pela possibilidade de fazer parte, uma minúscula parte, desta história de esperança. Humilde, desejo que estas experiências, estas histórias ouvidas e vividas construam o que aí vem, sejam parte integrante deste projeto de mini-médica.
A consulta continuou, as histórias também e o sorriso inspirado na esperança manteve-se.

Leitor imaginário, no meio da injustiça da vida e desta enfermaria cheia de desgraças, soube-me tão bem ver a cara de orgulho que o “menino” fez quando mostrou a filha à sua médica. Que privilégio este de poder ver muito mais do que o HIV na criança, aqui tenho visto a criança… o HIV estudo em casa.

Restantes leitores, as saudades de casa deixaram subir a pieguice à superfície do texto, talvez o futuro traga mais sobriedade, por agora ficamos com os trópicos e com a esperança nos olhos molhados! Que linda combinação! Um abraço para vocês e obrigada pela companhia.


quarta-feira, 20 de abril de 2016

Às voltas na pediatria

Ando às voltas com este texto, enrolado nas pontas do pensamento, sem fim, sem meio, mas com vontade de ser dito. Um dia sonhei ser voz de quem não a tem, uns pela falta de boca e outros pela falta de ouvidos e atenção, um sonho daqueles que não se contam a ninguém, uma inconfidência, uma janela demasiado alta para quem só tem dois pés e duas mãos. Um dia, dois dias, três dias, agora já não tenho 14 anos, mas ficaram os sonhos, vieram as viagens pela medicina e pelos trópicos e vim parar ao Brasil. Cá ando eu de coração cheio, olhos arregalados, vontade de saber mais e ser mais, e o sonho volta! Incomodada escondo-me, ocupo-me, distraio-me, procrastino, finjo, lembro-me que o problema não é meu, a história não é minha, a voz não me diz respeito. E o sonho volta, pedrinha no sapato, esta vontade de justiça, esta ânsia de reconstrução, este querer contribuir. Com o quê? Com a voz, com a história, com a lição e com o pedido de ajuda, com o pão e os peixinhos. E porque continuo incomodada trago-vos as histórias das últimas semanas aqui na pediatria, as histórias de quem não tem voz. As histórias que me fizeram engolir em seco e trazer-vos a seco este texto.

O menino C. tem 2 anos, nasceu antes do tempo e já estava doente há muito tempo, ele e a mãe. Durante a gestação a mãe, menina jovem, apanhou uma infeção e o desenvolvimento do C. levou um grande safanão. Então, este menino apesar de lindo, tem uma grande parte do cérebro que não se desenvolveu, na imagem do crânio dele há uma espécie de espaço vazio… e agora? Dois anos depois ele volta porque está piorzinho, já não diz “pá”, está muito irrequieto e grita muito, depois de excluídas as coisas más, dizemos à mãe que é mesmo assim, esta é a evolução natural da doença. A mãe pergunta se ele consegue ver e nós dizemos que não, porque ele não tem essa parte do cérebro, ela discorda, com respeito, mas discorda, porque o filho dela tem dois olhos, então ele tem de conseguir ver. Ela pergunta porque é que o filho não brinca, porque é que é agressivo com as outras crianças, ela sonha com um filho que vá para a escola aprender a ler, mas o C. dela não vai conseguir andar nem falar… e no fundo, ela sabe, mas não quer dizer, falta-lhe a coragem, falta-lhe a voz! Resta-nos ouvir!

E do outro lado do corredor temos o bebé L., veio porque tem febre, parecia dos dentes, depois da creche, depois da irmã que estava doente, mas depois a febre não passou e ele veio ter connosco. Não tinha nada que chamasse a atenção, estava bem-disposto, até deixava a bata branca aproximar-se, mas tinha febre! A marcha da febre começou! Análises e imagens, tudo normal, sem dor, sem manchinhas, sem ponta por onde se pegue. E um dia decidimos fazer uma punção lombar (aquele exame que tira liquido das costas para ver se não há infeções na cabeça), e por precaução chatinha, daquelas coisas que nem era preciso, mas se calhar é melhor, lá fizemos uma ecografia à cabeça do menino antes de tirar o líquido para evitar as complicações. Conseguimos a ecografia no mesmo dia e até já tínhamos o material para fazer o exame em cima da mesa, saio da sala e vejo a mãe e o L. a voltarem da ecografia com a médica que traz na mão o relatório. Faço uma festinha no bebé e olho para a mãe que chora, imagino que esteja nervosa por causa da punção, digo meia dúzia de palavras de conforto e penso que temos de nos despachar. Logo ali, pergunto à jovem médica o que diz o relatório do exame e antecipo mentalmente a próxima pergunta: “ Já fizeste alguma punção lombar? Queres ajuda?”, e ela faz-me sinal e dá-me o relatório para a mão. Despeço-me da mãe e entro na sala, leio linha por linha que o L. tem um tumor no cérebro, grande, demasiado grande. O diagnóstico está feito. A mãe chora. Choramos todos (uns para dentro e outros para fora). E agora? Conseguimos uma transferência nesse mesmo dia, no dia seguinte o menino foi operado, agora aguarda, a histologia dirá. E agora? (silêncio) 
No caminho para casa lembro-me da mãe e do L., pesa-me o coração, ele tem 10 meses e ela teve 10 meses com ele… Um aperto no peito, pesa-me a insuficiência, dói-me a doença e lembro-me que isto faz parte! Fazer parte do pior dia da vida das pessoas faz parte… e isso também é ser a voz de quem hoje não consegue falar.

Leitor imaginário, isto às vezes é para lá de difícil, mas a vontade de lutar contra a miopia mantem-se.
Restantes amigos, leitores, companheiros de peregrinação, falta uma semana e meia… e uma vida inteira de aprendizagens e no meu cesto só há um pequeno lanche… há que caminhar com a certeza da multiplicação. Vamos?
Um abraço