terça-feira, 28 de dezembro de 2010

"Panaceias & copinhos de água"

“Panaceia” - esta palavra não me sai da cabeça, há dias que anda aos gritos dentro de mim, oiço-a por todo o lado, nos meus sonhos, nos meus esforços, na minha rotina e quando abro a janela do meu mundo, ela está do lado de fora a dizer-me : - “Adeus”- com um sorriso rasgado.

Se for ao cinema ela é a actriz principal, se prestar atenção às letras das canções é sobre ela que cantam, se perguntar ao senhor importante qual a razão das suas horas extraordinárias ele vai dizer em voz off : - “panaceia”, e se interrogar a senhora que limpa as escadas do meu prédio ela vai dizer que: - ” A razão, oh menina, a razão tem um nome – panaceia!

E afinal o que é que significa esta palavra?

Bom, no grego e para os gregos ela representa “ a cura de todos os males”, uma espécie de milagre, de super tónico, um espinafre ultra poderoso!

Mas aqui para nós (e já que ninguém nos ouve) ela terá outras irradiações, comecemos pelo cinema, em Hollywood panaceia quer dizer Romance, mas uma coisa de qualidade, com chama (!), duas pessoas com muito bom aspecto, cabelos brilhantes, sem rugas, sem imperfeições, com as frases estudadas para o momento e a música a condizer com as emoções. Nas canções, a panaceia rimará com um amor que era impossível mas que deixou de ser, ou com sonhos tornados realidade. Para o senhor importante a “cura de todos os males” é a segurança que ele sente quando olha para o extracto da conta, ou quando recebe os aplausos de vários anos de trabalho árduo. Para a senhora da escada a cura virá dum marido que, de uma vez por todas, a trate com respeito, de filhos a endireitar-se na vida, duma ida semanal ao cabeleireiro. Para o estudante universitário a panaceia será passar a todos os exames de modo rápido, indolor e de preferência sem estudar, tudo isto seguido de uma festa poderosíssima! Já os males das famílias modernas serão sarados numa ida ao IKEA: “com um sofá novo, aquela estante e aquela saladeira, aí sim, vamos ser muito mais felizes, ah e não te esqueças daquele pote, temos de ter aquele pote!”

Na verdade, todos nós ansiamos pela cura para os nossos males, e desejamos encontrá-la num só sítio e em doses industriais, procuramos em vários embrulhos: num percurso académico brilhante, numa carreira promissora, num casamento estável, num carro novo, numa viagem ao Cambodja, no último livro de auto ajuda, na última noitada… seria uma lista infindável…

Contudo, temos um problema, a panaceia … esgota-se! O sofá ganha manchas, o namorado fica gordo, os filhos portam-se mal e não querem estudar, a carreira não é o que sonhámos. A vida, por vezes, é feia e cheira mal! E falta, falta sempre qualquer coisa… até porque depois de provarmos, a panaceia sabe a inacabado, a insuficiente, a vazio…ou a vaidade, como o Rei sábio gostava de lembrar! E por falar nele, algures na sua “antologia poética” ou no Eclesiastes, como gostarem mais, existe a frase: “(…) também pôs na mente do homem a ideia da eternidade (…)”

No meio de tantos frascos e elixires, se calhar a panaceia é um mito, uma história mal contada, é provável que não haja remédio para todos os males, até porque, como dizia o outro, “há males que vêm por bem!” e não ganhamos muito em curá-los… Mas então? E a eternidade? Será ela a resposta para tal insatisfação, para este desconforto existencial? Fica a pergunta mas não fica a retórica, esta questão exige resposta, se não a corrida pela panaceia nunca terá fim… e não há necessidade de andar a correr atrás do vento!

Leitor imaginário, o texto de hoje é para ler com dois copinhos de água… para não te engasgares… mas é com este tipo de incómodo que nos mantemos conscientes, orientados e colaborantes… e já lá vai um ano! Hoje aqui o “tasco” faz um ano!

Aos outros leitores, uma boa noite e espero que este “espaço” estimule as conversas com copinhos de água…é para isso que cá estamos!

domingo, 5 de dezembro de 2010

Guiné: “O pós e o pó”

Passaram 63 dias… tantos como os que passei na Guiné…

E só agora é que me sinto preparada para escrever sobre os que passaram e os que passam, sobre o “pós Guiné” e sobre os pós que me ficaram na alma, nos olhos, nas unhas…

Desculpem-me se vos desiludir, é possível que o que vão ver aqui escrito não corresponda às vossas expectativas, até porque também não correspondeu às minhas… Imaginei o regresso a casa, várias vezes, tentei contabilizar as saudades que teria da Guiné, das pessoas, do trabalho, fiz previsões sobre como me sentiria, como seria estar cá e não lá, depois de um período que me pareceu gigante… E finalmente cheguei a Lisboa! Não chorei! Não quis voltar para trás! Adorei a viagem para casa, adorei o facto de haver alcatrão na estrada, delirei com o elevador do meu prédio, com o interruptor da luz, com a torneira cheia de água, com o copo de água fresquinha que bebi sem ter de lhe juntar lixívia, com a comida, com o pequeno-almoço fantástico que estava em cima da mesa… Foi óptimo falar cara a cara com os que são os “meus”! E assim foi… voltei!

Depois apareceram as perguntas… “Então como é que foi a Guiné?” e apareceram os silêncios e um encolher de ombros mais frequente do que o habitual…

-“ A Guiné… foi fixe, foi intenso, sim, essa é a palavra… intenso”.

- “ E mais? Conta mais!”

- “Mais? Não sei… aconteceu tanta coisa… não sei!”

E sempre que me aventurei a contar as minhas histórias, as minhas e as da Guiné… os jantares ficaram mais silenciosos, as faces passaram de descontraídas a pensativas, por vezes culpadas… por vezes sem saber o que dizer. Porque apesar de haver umas quantas histórias engraçadas, a maioria delas não teve e não tem graça nenhuma… a vida é dura, a Guiné foi dura… e eu sou mole!

Contudo, já passou algum tempo… e com ele passou a alegria do conforto que há nesta terra, da comodidade, da segurança… isso já não é tão brilhante e empolgante como foi na primeira semana.

Agora tenho saudades! Uma espécie diferente de saudades, não tenho saudades de comer peixe e arroz todos os dias, nem dos mosquitos, nem de água com lixívia, nem de ler com a lanterna do telemóvel, nem do calor, nem de andar sempre suada e cansada. Mas tenho saudades de olhar para o céu e de ficar em silêncio, por não existir vocabulário suficiente, tenho saudades dos doentes que víamos, de falar crioulo, de andar de calções e chinelos, de andar de mota… de barco, de ter tempo para ler e escrever…para pensar!

Olhando para trás destes 63 dias e falando nas costas e das costas deles diria que tenho saudades do “pó” da Guiné, daquilo que me ficou entranhado, das coisas que agora sou e que antes nem fazia ideia que era, daquilo que vi, que aprendi, dos incómodos que encontrei… E, tal e qual como o pó, estas saudades, acumularam-se desde o primeiro dia. Mas não reparei! A euforia inicial tornou-se demasiado anestesiante, no entanto com o tempo formaram-se montinhos de pó, de cotão… aglomerados de pensamentos, de imagens, de vontade de voltar atrás. Agora consigo ver o pó que há em mim, este pó do “pós Guiné”, espero que no futuro ele se acumule de modo a que seja possível deixar mensagens, fazer esculturas, enfim que sirva para construir! Até lá, há que protegê-lo dos panos e sprays da especialidade, das vidas agitadas, inebriadas e sem sentido, dos dias que correm sem saber para onde, da mania de perseguir o vento… Porque há pó que convém guardar!

Conto com a vossa ajuda para manter a vida empoeirada… consciente, orientada e colaborante, afinal de contas é para isso que este blog serve…

Leitor imaginário e outros resistentes que por aí andem, hoje não houve muitas piadas… cada vez gosto mais de conversas sérias, daquelas com silêncios e encolher de ombros, daquelas que acrescentam pó… Boa noite a todos!