quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Dia 62_ “O Capuchinho Vermelho & Beri-Beri!”

Esta é a minha última noite em Bolama, amanhã vou para Bissau e depois para casa! Entretanto, passaram 2 meses e com eles um sem número de experiências e de vivências, e parece-me que só quando a “poeira baixar” é que darei conta de muitas delas e das suas consequências em mim, na minha maneira de encarar a realidade, nos meus sonhos, na minha cabeça. Ao longo de todos estes dias fiz um esforço para (ao estilo do lobo do Capuchinho Vermelho) ver melhor, ouvir melhor, cheirar melhor, tocar melhor, saborear melhor… e assim aprender mais e melhor! Aqui “não aprender” era quase impossível, a realidade, por vezes chocante, por vezes violenta, por vezes agradável, entrou-me pelos olhos a dentro e teimou em fixar-se… talvez no coração, talvez na pele, talvez num circuito neuronal… o tempo o dirá!
E hoje, mais uma vez, descobri que ir para lá do óbvio é mais do que uma coisa bonita é uma obrigação, em todas as áreas da vida. Aliás se há coisa que tentei praticar nestes dois meses foi uma “atitude integral”, por isso é que nos textos publicados aqui no “tasco” os assuntos vão para além da medicina, a vida é bem mais interessante! Contudo, hoje foi a medicina que me ensinou que andar de olhos bem abertos não é uma opção, esta lição vem dum grupo de rapazes jovens, aparentemente saudáveis, todos da mesma tabanca, que de repente, adoecem com dois quadros clínicos distintos, mas igualmente preocupantes. Alguns dos rapazes apresentavam um edema generalizado, acompanhado de insuficiência cardíaca. Outros apresentavam uma neuropatia periférica dos membros inferiores (falta de força e de sensibilidade nas pernas) com repercussões significativas na marcha. As queixas tinham mais ou menos um mês de duração e nada parecia explicá-las, aliás só as juntámos num mesmo grupo, porque eles apareceram todos no mesmo dia e uns atrás dos outros. Não fazíamos ideia do diagnóstico ou dos diagnósticos, tínhamos várias hipóteses em cima da mesa, umas mais rocambolescas que outras, mas todas acompanhadas dum problema: a falta de meios auxiliares de diagnóstico, é que sem análises, sem radiologia, sem ECG, torna-se complicado perceber se estamos a ir pelo caminho certo. Passado alguns dias, o médico da missão surge com um diagnóstico: deficiência de tiamina (vitamina B1), também conhecida como Beri-Beri, uma doença que não existe no nosso “mundo” e que lá só serve para ocupar espaço nas noites de estudo de estudantes de medicina antes dum exame de bioquímica, ou melhor, servia… Doença estranha, com um nome pouco respeitável, com um quadro clínico muito diverso e por isso difícil de identificar, com consequências graves e nefastas (como a morte), mas com um tratamento fácil, pois basta repor vitamina B1 que é o que está em falta! Assim fizemos, e ontem e hoje constatámos uma melhoria enorme tanto nos doentes edemaciados como nos que tinham dificuldades em andar, é bom ter soluções… é tão bom!
Moral da história, estes doentes seriam tratados para duas doenças diferentes, com tratamentos desadequados se por acaso alguém não tivesse agarrado em vários livros com vontade de encontrar a melhor solução para este problema.
Ora, como seria de esperar, nunca mais me vou esquecer desta doença, agora o que espero é que também nunca mais me esqueça de, em todas as situações da vida, pôr todas as hipóteses de diagnóstico ou de decisão em cima da mesa e de ponderar cada uma delas com seriedade em vez de ficar com a óbvia, porque apesar de raro o Beri-Beri anda por aí… e se “em medicina o que é raro é raro e o que é comum é comum”, na vida isto nem sempre é assim!
E por hoje é tudo…
Leitor imaginário mais um dia e vamos para casa!
Leitores que gostam de imaginar continuemos de olhos abertos…os diagnósticos em conjunto têm mais piada!

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Dia 58_ “Os mitos da África”

O meu estágio está quase a acabar, em breve voltarei ao meu “mundo” que agora já não é o mesmo, até porque espero já não ser a mesma, se não tudo isto teria sido um grande desperdício de tempo e de recursos. E é em jeito de conclusão (provavelmente, uma de muitas) que hoje decidi escrever sobre os mitos que existem sobre “a África”, sendo que só nesta expressão reside um erro gigante, porque não há “a África”, mas as Áfricas! Várias, diferentes, cada país, cada região, cada povo tem uma identidade, não se pode pôr tudo num mesmo saco e dizer com a entoação dum turista a cheirar a repelente, besuntado em protector solar e calções de linho “na África” é assim ou é assado! Só a ignorância poderá não perceber as diferenças.

Comecemos então com um dogma muito famoso:

- Na África (sintam a ironia!) há muita fruta e boa fruta! Ele é mangas, papaias, goiabas, bananas, etc. Bom, estou cá há dois meses e nem vê-la, quanto mais comê-la! Por aqui, a expressão “fruta da época” tem realmente significado, cada fruta tem uma época em que é muito abundante e depois desaparece. Contudo, há a época das chuvas em que tudo é escasso… tive azar! E quando estava quase chateada com a “Dona África” por me ter enganado este tempo todo, pensei: “Olha que engraçado, há por aí muita gente que só come bananas na época delas, que só come mangas quando é tempo, e que quando não há fruta, como na época das chuvas…olha, não come!!” Pois é, aqui não dá para ir ao hipermercado comprar bananas da Costa Rica e mangas do Brasil. Nesta terra, a natureza ainda dita as regras, algumas bastante severas, estes três meses sem fruta significam crianças sem acesso a vitaminas o que em alguns casos resulta em avitaminoses nada bonitas de se diagnosticarem. Juntar a isso o facto da maioria das pessoas fazer apenas uma refeição por dia, a qual, normalmente, corresponde a uma tigela de arroz com molho e, às vezes, um pouco de peixe, juntemos ainda água não potável, misturemos tudo muito bem e na próxima vez que as ameixas do supermercado não nos agradarem, porque estão murchas ou verdes… pensemos duas, três vezes… Pensemos, porque pensar não faz mal, dói mas… o que arde cura!

Outra coisa engraçada:

- “Na África as coisas são muito baratas, é só pechinchas! “ é verdade que existem coisas absurdamente baratas, como o tabaco (3 cigarros não chegam a 20 cêntimos) e como o caju que pode encontrar-se a 50 cêntimos por kg (e depois é vendido na Europa a altos preços… alguém faz muito dinheiro com isto, e não são os camponeses que o colhem!). No entanto, há coisas que gostamos de chamar “essenciais” (palavra que muda consoante a latitude) como o leite em pó (não se esqueçam, que não há frigorífico cá em casa…não há electricidade, resta-nos a lata de leite em pó), os iogurtes, a carne que são caríssimas e totalmente inacessíveis para a maioria das pessoas. Num país sem indústria e com uma agricultura de subsistência quase tudo é importado e até o arroz que funciona como a base da alimentação vem de fora!

Passemos, para uma questão dita “fracturante”:

- Os meninos coitadinhos e ranhosos com barrigas grandes, “Ai, para aquelas crianças qualquer coisa serve, eles não têm nada, passam fome coitadinhos!” A sério, se há coisa que me irrita é este discurso de Miss Mundo, isso e enviarem caixas e caixotes de roupa estragada, cadernos cheios de folhas escritas, canetas que não escrevem, sapatos rotos e a minha preferida: uma caixa com mais de 200 sapatilhas de Ballet (sinceramente…). Por aqui, as necessidades são mais que muitas, há crianças desnutridas, há doenças facilmente curáveis que matam, e não há uma data de coisas que devia haver, porque este nosso mundo devia ser mais justo e igual! Mas, este fosso que há entre nós e eles não se resolve com uns quantos casacos velhos num contentor com destino “às Áfricas” para acalmar a consciência e arranjar espaço no armário. Esta injustiça vence-se com esforço, com uma aposta no chamado desenvolvimento sustentável, com formação, com estabilidade política e económica. E nós temos um papel a cumprir nesta missão que não se resume a suspirar diante de imagens de crianças magrinhas ou a fazer doações pela altura do Natal, até porque a ajuda pontual pode ser mais destrutiva do que benéfica. Descobrir o nosso papel nesta luta pela justiça é responsabilidade de cada um de nós! Por favor, não se contentem com as respostas fáceis que são como bálsamos para a alma e que deixam a realidade intacta e intocável… Há que abrir os olhos para o mundo que nos rodeia, mas também há que abrir as mãos e, por vezes, há que sujá-las…

Leitor imaginário e outros que por aí andam, é de mito em mito que vamos conhecendo o mundo, ia dizer “a África”, mas lembrei-me a tempo que isso é um mito…

Um abraço

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Dia 55_ “ silêncios e noites mal dormidas”

O dia começou com uma viagem de canoa para S.joão, onde vamos uma vez por mês dar assistência médica e trabalhar com a comunidade temas importantes, como planeamento familiar, nutrição, tratamento da água, entre outros.

Demos consulta em duas tabancas, e vimos de tudo um pouco, desde gente muito doente com pneumonia, gastroenterite grave, malária, a gente saudável que nem uma alface (o ícone das coisas saudáveis), mas com muito medo de estar doente e muita vontade de ser vista pelos “brancos” e estes são os mais difíceis de tratar… como aquela senhora que quando lhe perguntei a idade me respondeu que tinha 140 anos (bom…) e que se queixava de dores no corpo e cansaço: “pudera com essa idade!”, lá levou uma pomada para acalmar a passagem do tempo, um verdadeiro creme “anti age”!

O dia chegou ao fim, tranquilo, com tempo para ver o pôr-do-sol e ler “Os cus de judas” do Lobo Antunes e foi no meio da descrição fantástica que ele faz da guerra de Angola que me chamaram, porque havia mais consultas para fazer. Uma carrinha de caixa aberta tinha acabado de chegar vinda de uma tabanca distante e onde não há assistência médica, trazia 4 doentes, e só chegou ao fim do dia porque a “estrada” (que não tem alcatrão) estava em péssimo estado e tiveram de parar umas quantas vezes.

Começámos por uma criança, olho esquerdo inchado (inchado é pouco!) há mais de um mês, a miúda nem conseguia abrir o olho, esperemos que este seja um daqueles casos em que os antibióticos fazem milagres… ” Como é que é possível deixar isto andar um mês? É um olho! É uma criança! “- grita a nossa alma ocidental nascida e criada em centros de saúde, mas o eco que recebemos é o de uma mãe que vive num sítio onde NÃO HÁ assistência médica (silêncio… não há nada como o silêncio).

Agora é a vez da mãe, que também se queixava de um olho, e eis que foi à luz de uma lanterna, porque entretanto tinha anoitecido e não há electricidade no posto de saúde, que vi a minha primeira úlcera da córnea … (silêncio, outra vez!) uma pomada e olha… quer dizer “olhar” não é bem a palavra, poderá ser um termo de difícil utilização no futuro.

Passámos para uma senhora, agora era noite cerrada lá fora e eu estava a ficar cansada, confesso que quando ela se queixou de dores de garganta pensei: “ya, uma amigdalite viral, passa sozinho daqui a 3 dias… Até que ela abre a boca e na garganta, lá bem ao fundo, estava uma massa do tamanho de uma bola de ping-pong que de tão grande que era empurrava a úvula para um dos cantos da boca. Consistência dura, imóvel, recoberta de mucosa oral, sem febre, sem dor, sem outros sintomas a não ser um emagrecimento e um cansaço difíceis de quantificar. A pergunta a fazer é :”Mas que raio é isto?”, não temos resposta, ali de lanterna na mão a olhar “feitos parvos” para a garganta da senhora e a recapitular mentalmente os apontamentos das aulas de otorrino com vontade de ligar ao professor que no fim das consultas perguntava sempre aos doentes com um grande sorriso se tinham dúvidas. Não temos uma resposta definitiva, mas as que nos vêm à cabeça são más, são muito más… e se calhar teriam solução no IPO ou num qualquer serviço de otorrino num hospital central, mas… silêncio mais uma vez! Aconselhámo-la a ir ao hospital de Bissau, lá eles têm análises e Raio X… mas não há TAC, não há TAC em toda a Guiné… o silêncio voltou!

Para terminar vimos um rapaz, 19 anos, há um mês atrás tinha-se aleijado com um pau no olho e agora não conseguia ver bem, então de lanterna em punho, encontrámos uma córnea ”esfarelada”, reflexo pupilar inexistente, acuidade visual extremamente reduzida, 19 anos… menos um olho… mais silêncio! E foi com calma e com o máximo de tacto possível que lhe dissemos que não havia nada a fazer e que ele, muito provavelmente, não melhoraria a visão, ao que ele reage com um encolher de ombros e um olhar para o chão… A dureza e resignação também se aprendem, e por aqui essa escola começa cedo…

Dormi mal nessa noite, havia demasiados silêncios na minha cabeça e o barulho deles não me deixou dormir…

Leitor imaginário, continuarei por cá de lanterna na mão… um abraço!

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Dia 48_ “de vez em quando sinto-me em casa”

Esta foi a minha terceira viagem à ilha das galinhas (e última…ai!) e aconteceram muitas coisas interessantes, como a história do tio João e da seringa “en garde” na luta contra a pneumonia, como ter aprendido a pôr soro nos doentes (bom… não acertei na veia à primeira, mas o que conta é participar!), como ter comido Korn bife a todas as refeições, como ter apanhado um sem número de chuvadas em cima e… E era aqui que eu queria chegar (tudo técnicas para criar suspense), ter participado num acampamento de jovens cristãos vindos de toda a Guiné, e isto sim foi bem interessante!

Pelos vistos, este acampamento acontece todos os anos na ilha das galinhas, juntam-se uns 250-300 jovens vindos de várias igrejas protestantes de toda a Guiné, para uma semana de convívio, reflexão e descanso. Caso sejam frequentadores assíduos aqui do “tasco” devem ter lido uns comentários feitos por alguns dos leitores não imaginários (até custa a acreditar que os há!) que diziam que neste acampamento de jovens, há uns anos atrás, havia o projecto de comprar uma canoa para que houvesse um transporte público entre a ilha e Bissau e o de construir uma escola. E assim foi, lá estava a canoa em pleno funcionamento e a escola também, sendo que tudo nasceu devido a várias parcerias entre a igreja evangélica de Bissau, a ABLA (Associação de Beneficência Luso Alemã), algumas igrejas evangélicas portuguesas, a comunidade residente na ilha, entre muitos outros anónimos, e isto, caros leitores, isto é que é bonito!! É impossível não ficar feliz quando vejo que há pessoas que andam por esse mundo de olhos abertos e, mais do que isso, de mãos abertas, dispostas a fazer, a ensinar, a dar, a orar, a ir!

É a história de uma dessas pessoas que vos trago. Ontem ao fim da tarde, tive uma conversa muito agradável com a mulher do pastor da igreja da ilha, uma jovem de S.Tomé que viveu grande parte da vida em Portugal, onde estudou e conheceu o marido, e onde, também, decidiu ter uma vida relevante, para lá dos padrões de mulher bem sucedida, de carreira e de felicidade. Por causa disto, juntou-se ao marido num projecto de vida a dois com o objectivo de melhorar as condições de vida dos habitantes da ilha das galinhas e de outras ilhotas ali à volta. O que inclui a escola, a canoa, a responsabilidade da igreja e das várias congregações, e ainda colaborar com a AMI como agente de saúde local. Uma mulher de 30 e poucos anos, com uma filha pequena, num sítio sem electricidade, sem água, onde só há rede de telemóvel num sítio da ilha (ligeiramente à esquerda da porta do posto de saúde), mas com muitos sonhos, com muita vontade de ajudar a construir um país que agora é o dela!

A meio da conversa senti-me como se estivesse num daqueles cultos missionários a ouvir as histórias “da África”, reuniões onde, enquanto crescia, me habituei a sonhar e a sonhar alto, onde descobri que queria ser médica, onde decidi que queria ser relevante, onde no meio de bandeiras, fotografias e histórias mirabolantes fui descobrindo um mundo maior do que o meu, maior do que eu… Mas desta vez, não estava confortavelmente sentada na igreja enquanto o missionário falava, desta vez estava sentada no chão e sem tradutor, numa conversa onde me senti pequenina e muito grata! Grata pela oportunidade, grata por estar onde sonhei estar, grata por poder fazer parte…

E por falar em fazer parte, assisti a uma das reuniões da noite do acampamento e senti-me em casa, há coisas que são iguais em qualquer parte do mundo, principalmente no dito “movimento protestante”!

Por exemplo, estava para aí há duas semanas na Guiné e decidi ir visitar a igreja local, uma igreja pequenina com umas 40 pessoas, como não podia deixar de ser o culto começou com música e muita música, a qual eu só consegui acompanhar com palmas e cantar os “Aleluias” (dado que, o meu crioulo ainda andava pelas ruas da amargura, agora já encontrou a redenção!). Entretanto, a música acaba e a pessoa que estava a dirigir a reunião começa a falar num crioulo acelerado (chinês para mim) e termina a frase com a seguinte palavra: “visitante” e, de repente, todos estão a olhar na minha direcção, bom qualquer protestante sabe que este é o momento mais lindo da igreja : “os benvindos!” seja na Guiné, em Pequim ou em Fanhões! Lá me apresentei e recebi todos os sorrisos simpáticos da congregação e vá lá safei-me da música das “boas vindas” (isto deve ser uma adaptação portuguesa), e mais uma vez senti-me em casa! Na altura da pregação, uma senhora levanta-se do seu lugar e senta-se ao meu lado, tinha reparado que eu não tinha Bíblia para acompanhar a leitura e veio partilhá-la comigo, foi bonito, foi-me familiar… soube bem!

Leitor imaginário e outros que por aí estejam, espero que estas histórias vos façam sonhar e desejar fazer parte da construção desta obra… deste mundo! Para que a miopia, o medo, o esquecimento e as cadeiras fofinhas não nos impeçam de ir, de ir e de cumprir a nossa parte!

domingo, 19 de setembro de 2010

Dia 47_”O que é demais tem cheiro…”

Voltámos à ilha das Galinhas! E a palavra “exagero” não me sai da cabeça, trouxe-a comigo e vou guardá-la na mala à prova de água e de tempo, porque ela sozinha consegue resumir toda a minha experiência na ilha e no resto da Guiné! E antes de franzirem a testa e de acharem que eu é que estou a exagerar, deixem-me explicar.

Comecemos de cima para baixo, pelo céu desta terra, que é exageradamente lindo e impressionante, as estrelas brilham mais e melhor e a lua (ai a lua!) é avassaladora, o pôr-do-sol tem mais cores e texturas do que alguma vez me ensinaram. Neste céu tudo é gigante, cheio de beleza, tudo faz arregalar os olhos de alguém que, como eu e como nós, se habituou a olhar para o céu da janela do 5ºandar enquanto tenta evitar os postes de electricidade, os prédios vizinhos e a publicidade do próximo candidato.

Ainda vinda do céu temos a chuva e por aqui quando chove, chove a sério, o dia todo e em quantidades industriais, não é aquela “chuvinha molha parvos”, não se brinca se é para chover tem de haver raios e coriscos, árvores caídas e rios a transbordar! E com o calor é a mesma coisa, faz um calor que é um exagero…um exagero de suor e de sensação peganhenta e não há banho que salve, e com esse calor vem um cansaço, uma letargia, uma apatia inexplicável!

E em exagero e com exagero há que falar dos mafarricos que circulam no céu, os mosquitos, que são muitos, grandes e maus e que, ainda por cima, trazem com eles a caixinha da malária! Dessa há que ter medo, nestes últimos dias em 60 doentes 30 tinham malária, mais uma vez um exagero... tudo em exagero!

Mas não são só as doenças que se dão a exageros, aqui até os medicamentos o fazem, por exemplo, na ilha das galinhas chamaram-nos para ver um “Ome grande” (idoso) que estava muito doente, quando chegámos lá quase que não foi preciso usar estetoscópio para diagnosticar a pneumonia que ele tinha, estava com uma dificuldade respiratória gigante, com taquicardia, febre e ainda com uma perturbação da consciência. Os pulmões estavam cheios de bichos e de ranho até ao tecto (modo didáctico de explicar a pneumonia aos doentes), a solução era um antibiótico endovenoso, um soro, uma máscara de oxigénio, monitorização apertada, num hospital central numa enfermaria de medicina interna… era tudo muito lindo, mas não há! Estamos na Guiné, numa ilha sem electricidade, sem água potável, sem hospital, sem meios, e foi sentados no chão da palhota do Tio João que decidimos que a única coisa que podíamos fazer era dar um antibiótico injectável e esperar… e assim fizemos! Ou melhor, fiz, dei o meu primeiro antibiótico injectável!! No dia seguinte lá fui eu à palhota, depois de me perder 3 vezes, reavaliar o doente e dar a segunda dose de antibiótico, e constatar que nesta terra até os antibióticos têm um efeito exagerado, o Tio João estava muito melhor, exageradamente melhor… valha-nos isso! Terceiro dia e última dose de antibiótico! Mas estávamos noutra tabanca a 10 km de distância, era preciso ir lá de mota dar a injecção, preparou-se o antibiótico e colocou-se na seringa, o nosso marinheiro (que conduz motas nas horas livres) foi buscar a mota, e isto sim é digno de ser contado, lá fomos nós rumo à outra ponta da ilha, sendo que eu ia de seringa em punho (mesmo em punho, apontada para o céu, de modo a não ferir ninguém), estetoscópio num bolso e compressas no outro…tentem imaginar, mas só visto! E assim se matam os bichos dos pulmões, com exageros dignos do Macgyver!

Habituei-me a admirar o equilíbrio e a moderação, ensinaram-me que no meio morava a virtude, mas depois destas histórias, acho que isto nem sempre é verdade, claramente há muita virtude num céu brutalmente estrelado e não num céu moderadamente iluminado, há mais beleza num sorriso exageradamente aberto do que num parcialmente simpático. Por vezes, quanto mais melhor, às vezes o que é demais cheira bem, cheira muito bem!

Por outro lado, há alturas em que o que é de menos cheira mal, cheira mal não haver uma cama num hospital para o Tio João, cheira mal as pessoas ainda morrerem de malária, cheira mal não haver electricidade numa ilha inteira…

E assim se aprende a desconfiar daquilo que nos ensinaram, porque equilíbrio é bom e faz falta, a harmonia traz beleza e segurança, mas há exageros que sabem bem, há hipérboles magnificas… e esta terra está cheia delas, arrisco-me a dizer que a beleza da cultura guineense reside no exagero, nas cores exageradas, no sorriso rasgado, na música alta e na dança extravagante, na vontade alucinada de refazer um país que tal como as pessoas é exageradamente complexo…

Leitor imaginário, estou exageradamente contente por poder conhecer esta parte do mundo que é menos moderada, menos arrumada, menos limpa… mas nunca menos bela!

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Dia 44_ As assimetrias

A semana correu com tranquilidade, o sossego necessário para as reflexões, ninguém consegue pensar ou pelo menos ir longe nessa caminhada quando o relógio passa de indicador a inquisidor. Talvez por isto, hoje não vos trago um episódio ou um acontecimento marcante, mas alguns traços do dia-a-dia que por aqui se vive e que podem ou não dar origem a algumas conclusões interessantes, dependerá do tempo que tivermos disponível…

Comecemos pelo modo como as pessoas se cumprimentam:

-“Bon dia!kumo é ke bu manse?” - “Bom dia! Como é que acordaste?” – interessante, por aqui não se pergunta se dormiste bem, mas se acordaste bem, afinal é mesmo isso que importa!

Depois segue-se a pergunta : “Kumo é di Kurpo?” – “Como é que está o teu corpo, como está a saúde?” – num sítio onde a esperança média de vida anda nos 45 anos a questão do corpo ganha uma importância que do nosso lado da janela é difícil de compreender. A angústia não reside na pele casca de laranja, nos cabelos brancos, no perímetro abdominal… por estas bandas a angústia é outra. Crua. Elementar. Fome. Sede. Frio. Calor.

“Kumo stá a família?” – “ Como está a família?” – talvez isto ainda se pergunte nas aldeias de Portugal (e nesse grande centro urbano chamado Fanhões), mas nas cidades já ninguém pergunta, só alguém que conhece a nossa família é que vai perguntar por ela. Porém, aqui qualquer desconhecido tem essa preocupação, o que nos ajuda a conhecer um pouco mais do coração destas pessoas.

Um coração cheio de paradoxos, cheio de hipérboles, assim como todos os corações devem ser! Aqui respeitam-se os idosos como quem venera a riqueza da existência os “Omes Grandes” como lhes chamam têm mais voz e poder de decisão que toda a gente, são reconhecidos pela experiência e pela sabedoria adquirida ao longo dos dias, não há lares de idosos, nem casas de repouso… ninguém compreende a sua utilidade. (E afinal qual é?!)

Por outro lado, olham para as crianças com olhos muito diferentes dos nossos, não as protegem das esquinas dos móveis nem das correntes de ar, não lhes dão leite com extra cálcio e vitamina B12, não as inscrevem no inglês nem nas aulas de piano aos 4 anos… Estas crianças não vêem o Disney Channel e não é porque é muito violento, é porque não têm TV em casa, também não têm electricidade, bom… há muitas coisas que elas não têm, lá isso é verdade! Contudo, conhecem melhor o colo da mãe do que muitas crianças das nossas, andam nas costas da mãe para todo o lado, ninguém as põe na creche às 7h para as ir recolher às 20h… brincam descalças na rua, aprendem a participar nas tarefas da família bem cedo, sabem que ir à escola é um privilégio (aqui não se bate nos professores!). Se chegam aos 5 anos são umas vencedoras, atingir esta etapa é sinal de grande resistência física e de muita vontade de viver. No outro dia perguntei a uma mãe qual era o nome do seu recém nascido… não tinha nome, só tinha passado uma semana, ainda tinha muito a provar, os nomes vêm mais tarde! Nesta terra o valor das pessoas cresce à medida que vão envelhecendo, na nossa é precisamente ao contrário, enquanto eles lutam para poder envelhecer, nós lutamos para travar esse envelhecimento…

Oh mundo assimétrico e com tanto para ensinar… e quanto mais orientados, conscientes e colaborantes melhor, e assim fica provado que para conhecer o coração das pessoas basta saber como é que elas dizem os “Bons dias”, qual ecocardiograma qual quê!

E aqui ficam os desejos de um óptimo dia para o Leitor imaginário e para os menos imaginários, também.

domingo, 12 de setembro de 2010

Dia 37 (à tarde) _“vesgos e esquecidos”

Continuo a contar-vos a história do meu 37º dia por terras Guineenses, por aqui há dias compridos que merecem 2 entradas no “tasquim”.

O “toca-toca” chegou a Bissau às 15h, eu já estava com uma certa fome (adoro a especificidade da língua portuguesa, não há nada pior que ter uma fome incerta) e ia almoçar sozinha, porque o outro membro da equipa estava com febre e ia descansar para o hotel (passado umas horas descobriu-se que a febre era malária…ai… que eles “andem” aí! Bom, espero que a mefloquina não se esqueça de fazer efeito, é que para a quantidade de vezes que sou picada…). Recomendaram-me um restaurante que era barato e tinha umas espetadas muito boas, lá fui eu, à procura da “mana Bucha”, encontrei uma espécie de garagem escura e vazia, mas com a porta aberta e uma senhora a lavar roupa num grande alguidar! Era o sítio certo. Não estava fechado, mas hoje só fazia comida para levar, ora se eu levasse era para comer ali à porta, sentadinha nas escadas até porque estava a chover horrores lá fora. Depois de explicar a minha situação à senhora e quase a desistir de comer as famosas espetadas, numa última tentativa de persuasão hoteleira lá mandei para o ar (no meu melhor crioulo) “Pudi kumi li?” (posso comer aqui?) e a senhora limita-se a responder: “Pudi!” e tira uma mesa e uma toalha e está montado o restaurante (flexibilidade no seu melhor!).

Foi uma óptima refeição, daquelas em que a falta de limpeza do sítio é compensada pelo sabor da carne de origem duvidosa, e a companhia acabou por ser muito agradável, almocei com o Ryszard Kapuscinski, jornalista polaco que foi correspondente em África, América do sul e também na Europa de leste. Bom, mais precisamente, almocei com as histórias que ele conta no “The Soccer War” um livro sobre os vários conflitos que aconteceram em África na década de 60 e que ele testemunhou. Leiam, fica-se a perceber muita coisa sobre a realidade actual deste continente, há acontecimentos que é bom ter bem vivos na memória, não vá o Alzheimer atacar.

À tarde fui ao Bandim, o mercado principal de Bissau, é indescritível! Bancas e banquinhas por todo o lado, vende-se comida, sapatos, ganchos, regadores, escovas, panos coloridos, tudo e mais alguma coisa, toda a gente grita, empurra, vende, regateia, faz troco e estava especialmente animado porque a selecção de futebol da Guiné estava, naquele momento, a jogar em casa contra o Quénia, era toda a minha gente a ouvir o relato com aqueles rádios rectangulares pretos que todos os avós que se prezem têm. Estou eu a escolher um pano na barraquinha dos panos (tudo para estimular a economia local, porque uma pessoa compra um pano todo catita e exótico em Bissau e depois em Bolama vai ao Sr. Sadjo que é alfaiate e manda fazer um vestido ou umas calças, e assim se aposta no desenvolvimento da nação), e enquanto estou a olhar para os panos, a Guiné marca um golo… foi o delírio, a loucura! Mesmo assim, lá tive que me esforçar para negociar um preço aceitável pelos panos, nesta terra nada tem um preço fixo, e aprendi com o Kapuscinski que se o comprador não negoceia o preço é quase uma falta de respeito pelo vendedor, como se não o considerasse digno! Lá comprei os panos e o médico que estava comigo comprou uma T-shirt da selecção da Guiné (na loja do chinês, os chineses estão por todo o lado na Guiné, ai se eu gostasse de conspirações, tinha cá as minhas teorias!).

A Guiné ganhou ao Quénia 1:0, e segundo o que consta não ganhava um jogo há 12 anos… imaginem as ruas… qual marquês de pombal qual quê! E a tal T-shirt fez o sucesso das avenidas de Bissau…até um abraço dum total desconhecido levei!! E gritavam: ” Guiné no coração”!! Não gosto de futebol, mas gostei imenso da animação das ruas, estava toda a gente na rua a celebrar o facto de serem Guineenses, havia gargalhadas e felicidade no ar. É pena, é que seja só por causa do futebol, este orgulho em ser Guineense, esta vontade de vencer, se isto fosse canalizado para outras áreas como a saúde, a educação, o desenvolvimento do país, era tão melhor… Mas amanhã esta vontade de ver a Guiné vencer já passou e a velha frase vai voltar “jeto ca tem!” (não há maneira, não dá!). E isto não acontece porque eles são piores que nós (portugueses ou europeus) ou porque são mais preguiçosos, acho que a principal razão é a falta de memória! Eles esqueceram-se que é possível, que há esperança, que apesar de levar tempo as coisas podem melhorar! Estas pessoas viram muita desgraça nos últimos anos, viram e vêem, e com o passar do tempo esqueceram-se daquele velho princípio do “quem semeia, colhe!”, talvez por isso tenham deixado de semear…

Mas não foram só eles! O Alzheimer é muito prevalente do nosso lado do mundo assim como a miopia… então para que não nos tornemos vesgos e esquecidos, resta-nos estar atentos ou como há quem goste de lembrar: “vigiai e orai”…

Duvido que à excepção do leitor imaginário alguém tenha lido isto até ao fim, mas caso esse alguém exista, fica aqui um grande bem haja para o corajoso(a)!!

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Dia 37_ “Toca- toca” a lutar contra um coração míope – parte II

Hoje foi dia de andar de “toca-toca” que é um transporte público, uma carrinha de 9 lugares (com uns bancos laterais), que faz longas distâncias e que é mais barato do que andar de táxi! Apanhei um “toca-toca” com destino a Quinhanmel, lá fui eu mais um membro da equipa, mais 24 pessoas (que eu contei!) que foram entrando ao longo do caminho, tudo dentro da mesma carrinha, a tal de 9 lugares, com as portas de trás abertas e gente empoleirada até ao tecto. Foi lindo, 50 minutos de viagem, ligeiramente apertada (!), ao som de música africana e com as pessoas do carro a cantarolar e tudo!

O objectivo era visitar o centro do Desafio Jovem na Guiné, sabia que era em Quinhanmel e não tinha mais indicação nenhuma…. Estamos na Guiné, improvisa-se! Perguntei às pessoas do “toca-toca” se sabiam onde era um centro de recuperação de drogados ao que uma senhora depois de eu ter tentado explicar mais do que uma vez no meu crioulo “todo o terreno” me pergunta com muita entoação : “ké, centro de Dúdos?!” bom… sim, pode dizer-se que sim, uns serão mais doidos do que outros, mas é lá que queremos ir! Ela levou-nos lá, depois percebi que ela ia lá visitar o primo. Claro que no caminho, uns 2 km que fizemos a pé e à chuva, ela foi contando em registo de pedido que o marido estava doente, que tinha 5 filhos, que tinha fome… nestas alturas nunca sei o que fazer, no último mês tenho aprendido muito sobre sustentabilidade, sobre capacitação da população, sobre desenvolvimento. Porém, ao mesmo tempo, a ajuda pontual parece fazer sentido, é claro que não fiquei indiferente ao pedido de ajuda, mas também não quero incentivar a mendicidade e a ideia de que todos os “brancos” são patrões, são ricos… Não tenho respostas! Aqui a miopia ganhou!

Chegámos ao Centro do desafio jovem! Não sei o que é que estava à espera de encontrar… talvez uma quinta com edifícios brancos e jardins…talvez! Encontrei uma “quinta”, mas não tinha jardins, os edifícios eram velhos e com um ar inacabado, um local feio e triste! Perguntei pelo director, mas não estava. Contudo, falei um bocado com a pessoa responsável, conversa agradável, o centro é dos únicos sítios na Guiné que recebe pessoas com problemas de toxicodependência, alcoolismo e toda uma variedade de patologia psiquiátrica, são a resposta para muitas necessidades! E isto é um sinal de esperança, uma esperança um pouco fosca, eles trabalham em más condições, sem estruturas, sem recursos humanos, sem experiência, sem apoio governamental… é árduo! No entanto, por mais fosca e baça que seja esperança é esperança e morre só lá para o fim… e num dos países mais pobres do mundo é bom saber que há quem se preocupe com os outros e não só com a sua porção de arroz!

No meio das minhas pseudo conclusões sobre o que tinha acabado de ver, sobre a conversa sobre a toxicodependência nesta terra, sobre aquilo que podíamos fazer para ajudar (sim, eu e vocês que estão a ler isto), bom… a meio disto reparei que estava um “toca-toca” dentro do centro. Duas perguntas depois e descobri que o “toca-toca” veio trazer uma família que ia deixar o seu filho no centro, era só esperar um bocadinho e tínhamos transporte directo para Bissau.

Desta vez íamos mais à larga, mas passado 10 minutos parámos… porquê? Para arranjar um pneu! Lá ficámos nós dentro da carrinha à porta daquilo que faz as vezes de “Zé dos pneus” de Quinhanmel, 45 minutos depois, olho pela janela e vejo um pneu com um remendo e alguém diz “kaba já” (já acabou)! Altura em que o membro da equipa que estava comigo exclama :” O quê, vão trocar o pneu connosco cá dentro?” Ninguém respondeu, não foi preciso! Ah pois trocaram! E partimos!

Leitor imaginário espero que hoje o teu coração esteja um bocadinho menos míope… o meu está, mas a luta continua (já dizia o manifesto!).

Um abraço

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Dia 35_ as lutas de um coração míope

Voltei a Bissau, os próximos dias serão de descanso e de “turismo”!

Por aqui, as ruas continuam sujas, esburacadas, escuras… Feios, porcos e maus! Mas isso toda a gente vê, eu cá queria ir para lá do óbvio, e claro, vocês estão convidados a embarcar nesta “visita de estudo” : Bissau e os seus encantos!

Comecemos pelo alojamento, podia ter ficado num hotel com ar condicionado, duche quente (ai saudades!), croissants ao pequeno-almoço e wireless. Mas não, a estudante que há dentro de mim e que me cuida das contas disse que não! Então fiquei na D.Berta ou pensão Central como diz o Lonely planet (sabiam que havia um para a Guiné Bissau?!), sítio simpático e em conta, sem água canalizada e com luz só às vezes, mas com uma caminha boa e lavadinha… que me deu trabalho a conseguir, nesta terra tudo exige negociação! Cheguei à D. Berta lá pelas 16h, depois de uma viagem atribulada de canoa desde Bolama, estava toda molhadinha e com vontade de descansar. Pedi um quarto e perguntei pela D.Berta , uma velhota Cabo verdiana muito simpática, mas ela não estava, então tratei de tudo com o guarda, primeiro perguntei-lhe o nome e apresentei-me, a seguir perguntei-lhe se tinha passado bem o dia, como é que estava a família, (é assim que todas as conversas começam nesta terra, há que perder tempo com as introduções se queremos boas conclusões, foi das melhores lições que aprendi!) depois disto, deu-me uma chave e lá fui eu toda contente. Abri a porta e verifiquei se havia electricidade…e havia!!! Mas…bom, não havia toalhas nem lençóis na cama! Fui chamar o meu novo amigo, e o problema é que essas coisas estavam num quarto que estava fechado e quem tinha a chave estava a caminho… está bem, eu posso esperar! Claro! (Já referi o facto de que estava toda molhada e com frio?) Esperei 15 minutos! Fui chamá-lo! “ Ai, está quase resolvido, espera só um pouco, a chave vem goss-goss (agora, agora)”. Fui para o quarto e vi 2 episódios de uma serie (foram 90 minutos), mas tudo tem um limite…ai! Fui lá outra vez, “ai desculpe, a pessoa não vem, vou ter de arrombar a porta!”. E assim foi! Deu dois pontapés na porta do tal quarto e lá estavam as famosas toalhas, depois foram mais 30 minutos que ele levou a olhar para os lençóis e a escolher o correspondente (muito cómico, a sério!). E sim, passado 2h30 de ter chegado consegui tomar banho de água fria e à caneca, mas já não ter sido às escuras foi uma sorte! Nunca tinha esperado tanto por uma toalha!

Isto foi só o começo… depois fomos de táxi para o restaurante onde íamos jantar… adoro transportes públicos, se alguém quer conhecer um país tem de experimentar andar em toda a variedade possível de transportes, é tão importante como visitar museus!

E os táxis na Guiné são espectaculares, azuis e brancos, bastante velhos e usados, e apesar de terem apenas 5 lugares, levam 6 pessoas, e é tipo autocarro vai parando para recolher pessoas até encher. O nosso táxi à partida não tinha nada de especial, até que se houve um barulho e o condutor em andamento abre a porta, espreita para a roda e murmura “furou!”, altura em que encostou o carro à berma! NÃO! Não parámos, continuámos a andar como se nada fosse, lá íamos nós com o carro cheio, a chover torrencialmente, numa estrada em que há mais buracos do que alcatrão e com um pneu furado! Vá lá, correu bem… e jantámos bem, muito bem até! Nunca um bife com cogumelos me soube tão bem! Mas com o bife veio um pensamento que não estava na ementa, às vezes não há alienação gustativa que chegue para exorcizar as reflexões dum coração que anda à luta com a miopia. O restaurante era excelente, decoração perfeita, bom ambiente, comida boa! Claro, que o restaurante não era dos guineenses nem para os guineenses…Claro, porque se fosses escuro, escuro e pobre era uma tigela de arroz e já ias com sorte!!

Leitor imaginário… hoje ficamos por aqui, amanhã a luta contra a miopia continua…