sábado, 30 de abril de 2016

Deu tudo certo!

A mala está semi-feita, faltam as coisas pequenas, falta fechar, despachar e partir.

É bom partir para casa, mas é difícil fechar este ciclo. Atrás de mim ficam as histórias, as pessoas com quem aprendi a ser bem mais que médica, ficam as coisas que só poderia ter vivido num país virado para o sol e para os sorrisos abertos. Elas ficam e vêm comigo no coração, porque a mala já tem excesso de peso, trago o que sou agora e que não era há três meses atrás. 
Aliás, essa é a beleza desta experiência, vou provavelmente esquecer-me dos critérios do síndrome hemofagocítico, mas dificilmente da médica que deu chocolate e coca-cola à menina que tinha uma sonda naso-gástrica, dos meninos da enfermaria, dos adolescentes da consulta, isto tudo vai comigo e irá para onde eu for!
Escrevo isto com o peito apertado, aquele desconforto na garganta, um incómodo que não sei explicar, no fundo estou ansiosa de chegar e a rebentar de saudades e ao mesmo tempo triste por deixar isto tudo para trás. Ontem no meu jantar de despedida, à volta do famoso bacalhau português e da tarte de pastel de nata, falávamos disto, fui partilhando que uma parte de mim quer ir outra quer ficar, a pessoa à minha frente respondeu que outra parte de mim deve querer ir para a Índia, e de imediato do outro lado ouviu-se que outra parte queria estar em África… e eu sorri e concordei totalmente! A perspicácia dos brasileiros aguçada por um prato de bacalhau! E é isto o meu coração tem bem mais que quatro divisões, desejo profundamente que ele continue assim apesar do desafio da rotina, da trivialidade e da mesmice. 

Assim, digo adeus a estes novos amigos e a este lindo país que me recebeu tão bem! Fica para sempre a frase que uma das melhores pessoas que conheci aqui me disse logo no primeiro dia que estive na urgência:” Vai dar tudo certo!” E não é que deu!

Leitor imaginário, hoje é difícil falar do que aprendi e do que esta experiência significou, o futuro dirá, mas espera sinceramente que esta oportunidade que de graça me foi dada possa servir para construir bem mais do que a minha vida!
Restantes amigos, a viagem chegou ao fim, obrigada pela companhia. O blog continuará, Portugal tem muito para ensinar e eu prometo lutar contra a preguiça de escrever! Um abraço!


terça-feira, 26 de abril de 2016

Mais um dia de consulta

Hoje escrevo de uma assentada só, o tempo escasseia e as vivências transbordam. Faltam só uns dias para partir e nestas páginas já faltaram 3 meses. É com um sorriso que olho para trás e sussurro entre dentes: “deu certo” como diriam estes meus novos amigos.
É neste ambiente de “fazer a mala” que vos trago as histórias de hoje que na verdade são da semana passada, que vão sendo dos anos que passam pela vida destas crianças, as histórias têm nome, bochechas e birras, são pequenas, umas com final feliz, todas em construção, assim como os seus protagonistas.

A consulta de pediatria começa devagar, um resumo do doente antes de entrar na sala, vêm à baila as histórias da infeção, este apanhou o HIV na barriga da mãe que nunca tomou a medicação, aquela menina foi abusada, aquela criança desconfiamos que também… e continuam as histórias que tornam as sístoles rápidas e secas, batimentos duros que lutam com a injustiça, os olhos pestanejam, as mãos arrefecem e a criança entra no gabinete.

Não vem sozinho e também já não é uma criança, é um homem feito, traz ao colo a filha e atrás vem a esposa. O menino começou a ser seguido nesta consulta há mais de 20 anos, com a mesma médica e com a conversa do costume: “se tomares os remédios direitinho vai tudo correr bem”. E não é que correu?! Hoje já é grande, é fisioterapeuta, é pai de uma criança saudável, “deu certo”! E o HIV? Está bem, obrigado! Mas a conversa vai para lá da infeção, falamos das dúvidas de um casal de pais jovens, os medos, as inseguranças, ele fala, nós escutamos. E de repente, ela com a criança nos braços interrompe para dizer que não se importa com a doença dele, que sabe bem os cuidados que deve ter e que isso basta, faz uma pausa, respira fundo e diz que ele foi a melhor coisa que lhe aconteceu e que um vírus não vai mudar isso! E esta mini médica (piegas!) suspira, sorri e o pensamento foge para os meninos internados no andar de cima. Isto sim é seguimento ambulatorial bem feito! A conversa teve pouco de ciência e muito de vida, houve conselhos para os jovens pais, houve espaço para desabafar o que não se fala com ninguém, ali no consultório renovaram-se mais do que receitas. A porta fechou, ficaram os médicos, uma sensação de dever cumprido pairava no ar. 
No fim, veio a história deste menino que já é homem, há muitos anos atrás, quando o diagnóstico foi feito, o pai dele transtornado pela notícia, deu um tiro na mãe que morreu à frente do filho. (silêncio) Olho agora para a porta de onde ele acabou de sair e agradeço pela possibilidade de fazer parte, uma minúscula parte, desta história de esperança. Humilde, desejo que estas experiências, estas histórias ouvidas e vividas construam o que aí vem, sejam parte integrante deste projeto de mini-médica.
A consulta continuou, as histórias também e o sorriso inspirado na esperança manteve-se.

Leitor imaginário, no meio da injustiça da vida e desta enfermaria cheia de desgraças, soube-me tão bem ver a cara de orgulho que o “menino” fez quando mostrou a filha à sua médica. Que privilégio este de poder ver muito mais do que o HIV na criança, aqui tenho visto a criança… o HIV estudo em casa.

Restantes leitores, as saudades de casa deixaram subir a pieguice à superfície do texto, talvez o futuro traga mais sobriedade, por agora ficamos com os trópicos e com a esperança nos olhos molhados! Que linda combinação! Um abraço para vocês e obrigada pela companhia.


quarta-feira, 20 de abril de 2016

Às voltas na pediatria

Ando às voltas com este texto, enrolado nas pontas do pensamento, sem fim, sem meio, mas com vontade de ser dito. Um dia sonhei ser voz de quem não a tem, uns pela falta de boca e outros pela falta de ouvidos e atenção, um sonho daqueles que não se contam a ninguém, uma inconfidência, uma janela demasiado alta para quem só tem dois pés e duas mãos. Um dia, dois dias, três dias, agora já não tenho 14 anos, mas ficaram os sonhos, vieram as viagens pela medicina e pelos trópicos e vim parar ao Brasil. Cá ando eu de coração cheio, olhos arregalados, vontade de saber mais e ser mais, e o sonho volta! Incomodada escondo-me, ocupo-me, distraio-me, procrastino, finjo, lembro-me que o problema não é meu, a história não é minha, a voz não me diz respeito. E o sonho volta, pedrinha no sapato, esta vontade de justiça, esta ânsia de reconstrução, este querer contribuir. Com o quê? Com a voz, com a história, com a lição e com o pedido de ajuda, com o pão e os peixinhos. E porque continuo incomodada trago-vos as histórias das últimas semanas aqui na pediatria, as histórias de quem não tem voz. As histórias que me fizeram engolir em seco e trazer-vos a seco este texto.

O menino C. tem 2 anos, nasceu antes do tempo e já estava doente há muito tempo, ele e a mãe. Durante a gestação a mãe, menina jovem, apanhou uma infeção e o desenvolvimento do C. levou um grande safanão. Então, este menino apesar de lindo, tem uma grande parte do cérebro que não se desenvolveu, na imagem do crânio dele há uma espécie de espaço vazio… e agora? Dois anos depois ele volta porque está piorzinho, já não diz “pá”, está muito irrequieto e grita muito, depois de excluídas as coisas más, dizemos à mãe que é mesmo assim, esta é a evolução natural da doença. A mãe pergunta se ele consegue ver e nós dizemos que não, porque ele não tem essa parte do cérebro, ela discorda, com respeito, mas discorda, porque o filho dela tem dois olhos, então ele tem de conseguir ver. Ela pergunta porque é que o filho não brinca, porque é que é agressivo com as outras crianças, ela sonha com um filho que vá para a escola aprender a ler, mas o C. dela não vai conseguir andar nem falar… e no fundo, ela sabe, mas não quer dizer, falta-lhe a coragem, falta-lhe a voz! Resta-nos ouvir!

E do outro lado do corredor temos o bebé L., veio porque tem febre, parecia dos dentes, depois da creche, depois da irmã que estava doente, mas depois a febre não passou e ele veio ter connosco. Não tinha nada que chamasse a atenção, estava bem-disposto, até deixava a bata branca aproximar-se, mas tinha febre! A marcha da febre começou! Análises e imagens, tudo normal, sem dor, sem manchinhas, sem ponta por onde se pegue. E um dia decidimos fazer uma punção lombar (aquele exame que tira liquido das costas para ver se não há infeções na cabeça), e por precaução chatinha, daquelas coisas que nem era preciso, mas se calhar é melhor, lá fizemos uma ecografia à cabeça do menino antes de tirar o líquido para evitar as complicações. Conseguimos a ecografia no mesmo dia e até já tínhamos o material para fazer o exame em cima da mesa, saio da sala e vejo a mãe e o L. a voltarem da ecografia com a médica que traz na mão o relatório. Faço uma festinha no bebé e olho para a mãe que chora, imagino que esteja nervosa por causa da punção, digo meia dúzia de palavras de conforto e penso que temos de nos despachar. Logo ali, pergunto à jovem médica o que diz o relatório do exame e antecipo mentalmente a próxima pergunta: “ Já fizeste alguma punção lombar? Queres ajuda?”, e ela faz-me sinal e dá-me o relatório para a mão. Despeço-me da mãe e entro na sala, leio linha por linha que o L. tem um tumor no cérebro, grande, demasiado grande. O diagnóstico está feito. A mãe chora. Choramos todos (uns para dentro e outros para fora). E agora? Conseguimos uma transferência nesse mesmo dia, no dia seguinte o menino foi operado, agora aguarda, a histologia dirá. E agora? (silêncio) 
No caminho para casa lembro-me da mãe e do L., pesa-me o coração, ele tem 10 meses e ela teve 10 meses com ele… Um aperto no peito, pesa-me a insuficiência, dói-me a doença e lembro-me que isto faz parte! Fazer parte do pior dia da vida das pessoas faz parte… e isso também é ser a voz de quem hoje não consegue falar.

Leitor imaginário, isto às vezes é para lá de difícil, mas a vontade de lutar contra a miopia mantem-se.
Restantes amigos, leitores, companheiros de peregrinação, falta uma semana e meia… e uma vida inteira de aprendizagens e no meu cesto só há um pequeno lanche… há que caminhar com a certeza da multiplicação. Vamos?
Um abraço

quinta-feira, 31 de março de 2016

A festa continua!

A pediatria continua cheia de porcelanas. 
É difícil sair dali sem perder um caco, sem um risco, sem uma lasquinha na ilustração, o coração sente a fragilidade a que não está habituado. Mas continuo, insisto nesta jornada que começa na razão da febre e termina na razão do abandono, do abuso, da injustiça. 
Continuo? Vou tropeçando nas histórias, mas continuo. Vou chorando em sístoles disfarçadas, mas continuo. No entanto, há dias em que continuar é mais fácil, há pessoas que me empurram para a frente quando me pesa o choque da injustiça na barriga das pernas. 

Trago-vos um destes empurrões na esperança que caminhemos mais juntos: A Dra. Y, a chefe da enfermaria, muito simpática, com um sotaque delicioso, com a experiência que muitos anos de pediatria, num país cheio de assimetrias, foram acrescentando. A manhã começou com a visita médica, discutimos todos os casos, tiram-se dúvidas, ela faz perguntas, as respostas vão aparecendo entre silêncios cúmplices. E aparece a doente X, uma menina linda, pequena e enfezada para a idade, veio sozinha, já sabe o caminho da sala dos médicos, ela já está internada há muito tempo (demasiado!). Já está ao colo! Linda, com a trança que as enfermeiras fizeram e com uma molinha cor-de-rosa no cabelo a segurar a ponta da sonda naso-gástrica que leva a comida até ao estômago. 
Enquanto olho para ela, seguro as lágrimas que vêm com alegria e tristeza misturadas, vejo uma menina de 3 anos, com o HIV que a mãe lhe ofereceu, com as consequências de quem nunca tomou bem os remédios do HIV, com um esófago doente que a impede de comer sem sonda e que até já foi operada, com um atraso na fala, com uma marcha atabalhoada, mas olhinhos lindos, ela está tão melhor! Então, cheia de charme com a sua sonda pendurada no cabelo, olha para a médica e aponta para um copo de plástico, ela não pediu verbalmente, não foi preciso! Rapidamente, esta Dra. encheu o copo de sumo, contra o protesto dos espetadores: “ Ela vai vomitar, cuidado, só pode ser pela sonda!”, e respondeu: “ pela sonda não vai sentir o gosto, criança gosta de sumo, vamos dar só um bocadinho!”. E sentada no colo da chefe de serviço, a menina da sonda bebeu um golinho de sumo e sorriu (e eu segurei as lágrimas)! Entre golinhos a Dra. contou a história do fim-de-semana em jeito de confissão, era Páscoa e todos os meninos tinham chocolates, menos esta menina (porque o esófago está tão doente que só passa comida pela sonda, ela vomita tudo, ela está a vomitar há meses), ora isso não é justo, ela é tão pequenina! Então a Dra. ensinou- a a contar até 15 enquanto lhe deu 15 pedaços de ovo de chocolate, pela boca, devagarinho, até derreter. Não vomitou, ficou feliz, e aprendeu a contar! 
Depois juntaram-se os outros médicos à conversa e começaram as histórias que só pessoas assim têm, as vezes em que encomendaram pizza para os meninos que tinham apenas mais alguns dias de vida, mas que queriam muito pizza, as comidas especiais, os copos de coca-cola oferecidos aos meninos que perderam o apetite.

Minutos depois passa o menino XY, pequenino, magricela e quase transparente da anemia que vai arrastando. Ele tem uma daquelas febres com 3 meses de evolução que ainda não têm diagnóstico, e se há coisa que um infeciologista gosta é de uma febre, uma linda febre (“pelam-se por descobrir o mistério!”), mas também tem falta de apetite e, por isso, está cada vez mais magro. E a Dra. não foi “de modas”, até porque a estética não é para aqui chamada, ela perguntou ao menino o que é que ele gostava de comer e ele responder com uma lista de doces e salgados, tudo coisas que fazem mal. E agora? Agora, temos uma festa amanhã com direito a salgadinhos e guloseimas, porque as crianças têm de comer para crescer! A mim calhou-me estudar a febre e levar bolinhos de queijo (primo da coxinha de frango, mas sem frango).

Leitor imaginário de festa em festa vou aprendendo pediatria com quem é bem mais do que médico.

Restantes leitores, às vezes precisamos de um empurrão para continuar a correr, espero que ao lerem este texto se sintam empurrados para continuar a lutar contra a mesmice. A peregrinação continua!

segunda-feira, 21 de março de 2016

Amanhã é dia de festa!

Acabei agora de tirar do forno um bolo. A casa cheira bem, cheira a confortável, o bolo está bonito, falta a cobertura de chocolate e as bolinhas coloridas, mas acho que no fim ficará um bonito bolo de aniversário! Amanhã é dia de festa na enfermaria de pediatria, um menino faz anos e nós vamos fazer uma surpresa, vai haver bolo, brigadeiros, e até um hamburger do MacDonald´s!

Enquanto escrevo isto imagino a festa que aí vem sorrio e fico contente por poder participar! Ao mesmo tempo pesa-me o sorriso e o olhar resvala para a tristeza. A festa é especial, porque o motivo é especial, este menino é o mais especial de todos, gostava tanto que ele soubesse isso, este bolo de cenoura é a minha maneira de dizer isso… espero que ele entenda.

A história que aí vem é triste, escura e feia. Nem sei se a devia partilhar convosco, será que a vamos entender? Ou vai ser só a desgraça alheia, como quando abrandamos o carro para ver um acidente (Quem bateu? Quantos carros? Há sangue?). Esse é um dos riscos deste blog, fazer disto uma montra de histórias umas mais tristes do que outras, mas são as “dos outros”, estão longe de nós, como ver o massacre que está a acontecer na Síria e pedir para mudar de canal porque até parece mal comer o jantar e ver milhões de pessoas em fuga do seu próprio país, muda para os anúncios, desliga, aliena, evade, foge, isso é dos outros, ainda bem, olha passa-me o pão!… Perigos à parte, o desafio é tornar estas histórias nossas, próximas, tão perto que nos façam querer mudar, alterar o que está mal neste mundo tão cheio de pontas soltas.

A mãe deste menino morreu e ele teve de ir viver com o pai com quem não tinha muito contacto. De repente, adoeceu, adoeceu tanto que alguém pediu um teste VIH que deu positivo, foram atrás do motivo e encontraram. Ele foi abusado, ninguém sabe por quem, e ele não fala sobre isso. Continua doente, muito doente e não fala sobre isso. Deixou de comer e começou a emagrecer ao ponto de necessitar de um tubo no nariz que leva a comida diretamente ao estômago e nem sobre isso ele quer falar. Ele desistiu! Comer para quê? Talvez por isso, no início nem respondia às minhas perguntas, nunca sorria, nunca chorava, ele não queria falar. E o que é que o médico faz? Este projeto de infeciologista fez o quê? Pouco, continuei a ir lá dar os bons dias com umas tentativa de piada pelo meio, sugeri um antidepressivo, fui contra a colocação da sonda no nariz, mas depois rendi-me aos 30kgs, ajustei os retrovirais… pouquíssimo! O que vale é que nem tudo depende do que fazemos! (silêncio, enquanto gravo isto no coração) É o que vale! Esta semana ele sorriu para mim, ele até disse mais do que monossílabos, engordou umas gramas e vi-o comer o pão do pequeno-almoço! A esperança também pode vir em forma de sandes! Ele está a melhorar! E amanhã temos festa! Amanhã celebramos o fato de ele ter nascido, um menino especial que viveu o que nunca deveria ter vivido, mas que está a tentar ultrapassar as suas dificuldades, ele até já come o pão! E amanha há bolo!

Leitor imaginário, esta enfermaria é pesada, e as histórias agarram-se ao coração, não têm sido dias fáceis, mas tenho aprendido muito e esse é que é o objetivo. Espero que também tu (vocês?) possas lembrar-te, enquanto lês este texto, que as histórias dos outros também são nossas e que essa é a beleza da Páscoa.
Quanto aos outros leitores que aqui vieram parar, bem-vindos a esta casa, espero que estas “minhas” histórias também vos aproximem duma Páscoa com menos coelhinhos e mais partilha, menos ovos de chocolate e mais esperança na reconciliação.


quarta-feira, 16 de março de 2016

Ainda vamos a meio!


 O dia está cinzento, volto do trabalho, estou cansada, talvez por isso o desenrolar lento dos passos, ou talvez porque chegar será igual a sentar-me a estudar. Não me apetece chegar! Então vou andando, este caminho já não me é estranho, conheço-lhe os detalhes, já sei que ali o pão não é bom, mas as mangas são (caras!) mas ótimas, um verdadeiro paraíso das mangas. E mais à frente, o pão é melhor e os bolos também, depois ao virar temos a frutaria orgânica, nunca tem mangas, mas tem dióspiros e laranjas da Bahia sempre doces, feios e pequenos se não os “orgânicos” levam a mal!

Assim se passa um mês e meio! Aprendi as manhas da fruta e do fiambre que aqui não é fiambre é presunto, tenho sempre de repetir as frases e de preferência cantadas em português do Brasil, descobri que toda a gente gosta do meu sotaque e que todos os brasileiros têm um familiar português (seja uma tia, primo, afilhado, o vizinho da vizinha) e que sítio não é lugar, mas sim uma grande quinta!

Comecei o estágio pelo serviço de urgência, um mês, 5 dias por semana das 7h às 20h (mais os picos)… Doeu! Ainda dói, arde, à espera que cure! As muitas horas diárias não doeram, arranharam, o que doeu, o que “machucou” até ao fim do estômago, onde agora tenho um grande nó foi o que vi! Vi muita desgraça, tristeza, pobreza, declínio… Vi a SIDA, entidade que surgiu nos anos 80 e que assustou médicos e doentes, matou muita gente, porque não tínhamos medicamentos, ninguém conhecia a doença, mas com o tempo as coisas mudaram, veio a esperança mascarada de “inibidores da protéase” (remédios!) e eles deixaram de morrer, não se cura, mas trata-se… Quer dizer, podíamos tratar… podemos… existem medicamentos… existem doentes… o problema é a coexistência! Vi SIDA como nunca tinha visto, vi a pele e o osso dos doentes sem nada no meio para amparar, vi o grave e o gravíssimo, vi lepra e micoses sistémicas, vi um bocadinho da Guiné e da Índia e revi a sensação de impotência, de pequenez, de insuficiência… Aqui estou eu mais uma vez de lanche (pão e peixe noutra época) na mão a dizer que só tenho isto…

Foi no meio destes pensamentos… tenho pouco, sou pouco, é ridículo de tão pouco, tenho de estudar mais, ouvir mais, ser mais, é aqui que chega um dos doentes que mais me marcou. (Dados fictícios) Cleidi que era Anderson, que era prostituta, que era travesti, que era toxicodependente, que tinha diagnóstico de HIV, mas que nunca quis tratar. Chega com falta de ar, aflita, vulnerável, precisa de ajuda, em poucas palavras conta que sabe que tem HIV mas que a vida é muito complicada, nunca tratou porque tem medo, hoje veio porque não consegue respirar, anda assim há 3 semanas. Mas há mais, ontem, algures num desses vãos de escadas da vida, colocou silicone industrial no “bum-bum” para parecer maior e mais redondinho. Incrédula, examino a pele inflamada, abcedada e ainda com bocadinhos de cartão a fazer de penso para tapar os locais de injeção. Porquê? (silêncio) Não preciso que ela (ele? Não interessa!) responda, cá dentro sei bem que o desespero humano, a falta de rumo, as contrariedades da vida aumentam a bola de neve de tal maneira que depois de cair dá a sensação que ainda estamos a rodar. Olho para ela e tento entender, o medo de tratar o HIV e a falta dele para colocar o silicone, o medo escondido atrás da maquilhagem e da roupa justa enquanto vende o que nunca deveria ser vendido, tento, mas não consigo. Mas sei que o problema dela é mais fundo do que a falta de juízo para tomar os medicamentos, bem mais complexo do que a identidade sexual, vai para lá… começou antes, precisou antes… e para isso não há comprimidos a inibirem enzimas. Então enquanto vejo a saturação de oxigénio, olho-a nos olhos e falo de mudança, vamos começar outra vez, vamos parar de desistir. Saio da sala sufocada pela máscara e pela ansiedade de ver alguém com 27 anos com tão pouca esperança.

A infeciologia tem destas coisas, o Brasil tem destas coisas, e eu… estou aqui para aprender!

Leitor imaginário, espero ter a capacidade de guardar no coração o que tenho visto e de partilhar contigo e com os nossos amigos o meu “lanche”.

Restantes amigos, se vieram à procura de sol e trópicos, espero que não tenham ficado desiludidos, as histórias sérias também ajudam a limpar a miopia.

domingo, 6 de março de 2016

A Epifania do Bonete!

Acordei com vontade de partilhar isto convosco, esta ideia anda a moer-me há demasiado tempo, ela vai aparecendo no meio dos meus pensamentos, vai espreitando, insinua-se, não explode, não dói, mas pica, incomoda, perturba, uma pedra no sapato, das pequeninas, como todas as angústias existenciais devem ser.

Tudo começou numa daquelas caminhadas loucas que vão dar à praia mais bela do mundo, com as cachoeiras mais majestosas, e tudo imperdível e mais meia dúzia de elogios, passarinhos e bichinhos tropicais, pronto, lá me enganou… como sempre! Então sapatinhos de caminhada, calças (ah pois, porque as picadas de mosquito do dia anterior ainda estavam na memória e nas perninhas), repelente, protetor solar (difícil é decidir qual pôr primeiro!) e lá vamos nós… 24 km… (em distância total, mas o acordo era ir até dar, eu já vos disse que sou sempre enganada com estas falinhas mansas!).

Uma subida para começar, lama da chuva de ontem, pedras, resumindo: “o mato!”, Eu a caminhar com cânticos de alegria (não!), mas lá fui, até tinha um pau de caminhada (que chique!), e fui… ultrapassei as subidas, quase caí mil vezes nas descidas (quase!), pés na lama demasiadas vezes, enfim! Não foram só adversidades, vi um passaroco endémico da região, o pica-pau de topete vermelho e fiquei contente porque só eu é que vi (AhAhAh) e quando chegámos à primeira cachoeira aí sim pensei que valeu a pena a lama que tinha nas unhas dos pés!

Não vou estar aqui a meter-vos inveja, mas sim, as cachoeiras eram ótimas, e depois da caminhada ainda melhores. Haviam mais duas com muitos quilómetros pelo meio, ainda tentámos alcançar a segunda, mas ali a meio tomámos a sábia decisão de voltar para trás, pelo princípio universal de que tudo o que caminhares para a frente, terás de caminhar para trás.

Foi no caminho da volta, no silêncio da mata atlântica, entre tocas de cobra, barulhinhos de qualquer coisa que de certeza que é perigoso, a água da cachoeira lá atrás, as folhas, a lama, a bicharada, e os pensamentos… Primeiro confusos, muitos, barulhentos, depois mais tranquilos, alinhados, transparentes, ao ritmo do passo. Enquanto olho para o chão, a cabeça voa para a caminhada, para onde ponho os pés, e estou atenta aos galhos do caminho, tenho cuidado com as poças de lama, procuro pôr os pés nas pedras secas, desvio-me da abelha, e vou andando, quero chegar, tenho fome, preciso de um banho, de certeza que falta pouco para chegar, e caminho, olho para os pés e de vez em quando para a frente, mas rapidamente olho para onde estou a pôr os pés, não quero escorregar! E o esquilo? Viste o esquilo? Não, estava a olhar para o chão. Onde está? Já fugiu!

Aqui muda tudo! Oiço lá no fundo dos ouvidos, perto do coração, uma pergunta daquelas com rasteira, engulo em seco, paro e olho à volta, olho para cima, respiro fundo, torno a ouvir a cachoeira, e a pergunta volta em tom suave. Para onde é que estás a olhar? Em defesa respondo que não quero cair, quero chegar depressa. E oiço! Respiro a brisa da epifania! Entendo! Reconheço! Recomeço! Agora caminho na mesma, contudo olho mais à volta, paro mais, sigo o cantar daquele pássaro, encontro o ninho, vou mais devagar, mas mais feliz, vi mais coisas, esperei que aparecessem. A caminhada continua e a tarde também, chego ao destino com 17km nos tornozelos e com uma nova lição. Esta caminhada tem que se fazer! Olhar para o chão, calcular os passos, uma etapa de cada vez, mais um desafio, uma subida ingreme, saltar uma poça, evitar cair, caminhar, caminhar e chegar. Porém, quero lembrar-me do que aprendi com a estrada para a praia do Bonete, quero olhar para os lados e ver o que se passa à minha volta e com os que me acompanham, quero parar por eles, parar para ouvir. Quero olhar para cima, respirar e saber porque é que caminho, relembrar o porquê e deixar o Como na mão de quem ele pertence.
Não chegámos a ver a praia do Bonete, mas vi o que precisava para continuar a caminhar.

Leitor imaginário, as caminhadas dão-me para isto, se por acaso me esquecer do que aprendi, lembras-me? Não quero andar para aí em correrias de olhos no chão!
Restantes amigos, um abraço e boas caminhadas!