quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Muito açúcar, poucas remelas!

Hoje levei a manhã a pensar em como o meu mundo é pequeno. Ou será dos meus olhos? Desta miopia que teima em voltar! Esta ideia bateu-me à porta no meio de uma aula sobre cobras venenosas.
E agora que já tenho a vossa atenção, passo a explicar. 
Durante as minhas duas últimas semanas aqui na Índia estou a fazer um curso de Medicina Tropical, o que é uma oportunidade excelente de sedimentar tudo o que vi e aprendi nos últimos tempos. O grupo de professores é de grande qualidade, tudo gente com muita experiência e de vários países, assim como os alunos.
Começámos na segunda-feira com a velha e boa malária, a ceifar vidas desde… sabe-se lá, há tanto para fazer, mas há melhorias, há esperança. E, por aí fora, fomos navegando o mapa dos trópicos, os parasitas, as diarreias, as crianças que não chegam aos 5 anos, as doenças que não têm medicamentos porque não afetam as pessoas “certas”. Como por exemplo, a doença do sono. Não, não é o cansaço que todos sentimos por não dormirmos tudo o que precisávamos, é aquela que vem com a mosca Tsé-Tsé e que vai matando africanos sem dar contas a ninguém. Sabiam que o único medicamento disponível para a forma grave da doença ainda é à base de arsénio e que só por si também mata os doentes, mas não temos alternativa… o mercado africano não é muito atrativo para as farmacêuticas (silêncio!).

Continuamos a viagem com aquilo que leva o nome de “doenças tropicais negligenciadas” ou achavam que a negligência não se aplicava às doenças? Há para aí muito parasita a quem ninguém liga nenhuma! Sozinhos no nosso mundo, abandonados à sua vontade. Mas, também, há um grupo de inconformados que com um financiamento aqui e outro ali vão fazendo andar a carruagem, e a ciência avança com passinhos de bebé enquanto empurra com a barriga os constrangimentos, os interesses, os lados errados do mundo. Mas avançamos!

E a semana dança no ritmo da savana africana, das metrópoles asiáticas, dos rios da américa do sul, das tribos da Papua Nova Guiné! Ai que ritmo, ai que “abre-olhos” como dizia o outro, ai que sorte que esta mini infeciologista tem e um desabafo salta do coração para a boca: “ é isto, é mesmo isto!”.

Entretanto vem a primeira aula da manhã, beberico o meu açúcar polvilhado de leite com um bocadinho de café e oiço o Sr. Professor, um senhor inglês com os seus 70 anos, homem brilhante, fartou-se de publicar artigos, escreveu capítulos de alguns dos meus livros, já viu muito, já fez muito, e não precisa de muito para me ganhar a atenção (o açúcar também ajuda). Falamos de cobras venenosas e da sua importância médica, ele descreve as cobras e os seus habitats, os venenos, os antídotos, mostra fotografias e vai dizendo: “aqui na Tanzânia onde trabalhei 7 anos, nos anos 80, tivemos um doente que veio 2 dias depois da mordida de cobra…”, mais uma fotografia: “ aqui em Bangkok onde ajudei a começar o hospital e onde trabalhei uns quantos anos e tivemos este doente…”, “olha este é um doente na Nigéria”, “isto foi no Panamá”… e continuou… A aula foi excelente, falámos dos bichinhos venenosos quase todos, mas o melhor foi ouvi-lo falar, e não foi só o sotaque que achei delicioso, foi a vida, uma vida inteira de verdadeiras aventuras a lutar contra as negligências, uma inspiração! Hoje, cá estava ele na Índia com os seus cabelos brancos, num subúrbio sem graça nenhuma onde não pára de chover, e a cumprimentar-me com um “bom dia” que aprendeu no Brasil quando lá foi para estudar as cobras.

No meio deste cenário, convenço-me ou sou convencida (?) que vejo mal! Vejo pouco! E longe da vista, longe do coração! Em resposta vou murmurando, em súplica, que quero ver melhor. Mais longe, mais perto. Mais! Talvez assim o que vejo me chegue ao coração! Porque só depois deste ajuste nos sentidos é que posso realmente contribuir e participar na luta das negligências e da injustiça. Enquanto escrevo lembro-me da D. Domingas, uma senhora que vi na Guiné, a primeira picada de cobra que vi… não conseguimos fazer nada… e caminhei em silêncio com os olhos mais abertos. Hoje, 5 anos depois, volto a limpar as remelas do tempo e da mesmice e agradeço pelo que vejo e peço para ver melhor! Para fazer melhor! Para servir melhor!

Leitor imaginário, não consigo deixar de estar grata pela oportunidade gigante que estou a ter! Quero ver como é que vou pôr isto tudo na mala daqui a 10 dias.

Restantes amigos, se chegaram aqui há pouco tempo e não conhecem as histórias da Guiné, andem para trás aqui no blog e encontrarão um conjunto de aventuras africanas! Um abraço!

domingo, 8 de novembro de 2015

Os corredores da pediatria

Esta semana andei pela infeciologia pediátrica. Já não via crianças na consulta ou na enfermaria há muito tempo, resultado: andei a maior parte do tempo de coração encolhido, espremido na tentativa de manter os olhos abertos e acabar com a visão em túnel.

As crianças aqui são mais pequenas, enfezadas, a tisica, o arroz sem mais nada, a lombriga e o resto dos parasitas intestinais, o muito que correm, tudo isto dá em crianças magras, baixinhas, olhos encovados, imunidade frágil, portadoras de doenças que nunca me tinham passado pelos olhos, quanto mais pelas mãos.

A semana foi assim, cheia de coisas novas, umas mais duras do que outras, apimentada de sorrisos curiosos e bebés magrinhos! Lembro-me de duas meninas na consulta, irmãs, muito parecidas, olhei para elas e pensei devem ter 6-5 anos, elétricas, não pararam quietas, tantas perguntas num inglês simples que fui entendendo com ajuda, interessadíssimas em conhecer-me, em tocar-me e sem vergonha até um beijo na face me roubaram. Queridas meninas que afinal tinham 11 e 10 anos, ambas com tuberculose óssea em tratamento. De repente, involuntariamente, lembro-me dos nossos meninos com 11 anos, a quem chamamos pré-adolescentes, com os seus telemóveis, os seus penteados, os sapatos a condizer com o chapéu, e sim, o coração encolhe com as diferenças dum mundo injusto.

Continuamos, e vêm os meninos que têm VIH, com os seus xaropes e comprimidos, tantos medicamentos para tão pouca idade, tantas consequências, um futuro condicionado (…) O médico conhece-os bem, eles sorriem, e eu cá dentro agradeço pelo avanço científico no VIH, falta muito, mas já temos muito, obrigada pelos medicamentos e pelo conhecimento, obrigada porque não mandamos estes meninos e os seus pais para casa sem solução!

O dia da visita à enfermaria é sempre mais difícil, aqui eles estão mesmo doentes, muito dengue, muita meningite, a tuberculose sempre presente, a pergunta constantemente dirigida a mim: “ Já tinhas visto isto?” E a resposta constantemente repetida: “ Não, nós não temos, é a primeira vez que vejo! Não temos doenças tropicais, ou temos vacina, ou temos um bom sistema de cuidados de saúde primários (Ai é bom, é tão bom, vocês nem imaginam) ”.
Seguimos para a unidade de cuidados intensivos, bebés entubados, crianças muito doentes, não gosto nada disto, de cama em cama, a patologia vai piorando! Chegamos à última, uma menina de 9 anos com difteria, vejo pela primeira vez uma doença que até agora era só a letra D ao lado do T na vacina TD (tétano e difteria), quadro gravíssimo, tinha entrado ontem, 3 dias de doença, a suspeita fez com que se iniciasse o tratamento, análises em curso, umas horas depois vim a saber que a criança faleceu (silêncio). A vacina teria evitado isto, 9 anos, aquilo a que chamamos morte desnecessária… Silêncio! E é em silêncio que o coração se vai contraindo enquanto escrevo isto, a vontade de fazer alguma coisa neste mundo desigual explode com a taquicardia, e de sístole em sístole encho o coração com fome e sede de justiça! 

A miopia melhora, o coração está cheio e uma memória da semana passada reaparece, vi um jovem com lepra, um leproso, já no fim do tratamento, quase sem sintomas, para a infeciologista que vive dentro de mim foi ótimo, um caso de lepra, o primeiro que vi na vida! Mas para a pessoa que vive dentro de mim, foi mais do que a raridade da patologia, enquanto examinava os nervos da perna, lembrei-me do Mestre, imaginei-o a tocar o leproso que ninguém queria tocar, um leproso bem mais doente do que o que estava à minha frente, imaginei-o a tocar com a intensão de curar muito mais do que a lepra, e o coração enche-se com vontade de se esvaziar!

Leitor imaginário, a viagem continua e a aprendizagem também, estou contente e grata por esta oportunidade.
Restantes amigos um abraço aqui da Índia que continua quente e suja mas cheia de coisas para aprender. Obrigada pelas mensagens, pelos comentários, pela companhia…