sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

A bata_ segunda temporada !

Voltemos então à novela da "bata branca" (ups...é melhor reformular), voltemos à serie do "white coat" ...muito melhor assim, novelas portuguesas só as velhotas desocupadas é que vêem, agora series americanas...opah aí a conversa é diferente!!

Ontem foi filmado o último episódio da primeira temporada desta magnífica serie cheia de emoções e calafrios clínicos (ouçam isto com uma emocionante música de fundo, por favor!) que retratam a minha vida de pseudo estudante de medicina! E foi o último, porque ontem tive a última aula prática do semestre... (suspiros), acabaram-se as caminhadas contra a corrente na estação de entre campos e as reflexões metafísicas que daí nasciam (passo a explicar: de manhã, quando ia de metro para o Curry Cabral a maioria das pessoas estava a andar no sentido oposto ao meu o que dava uma espécie de sensação matinal de "remar contra a corrente"...), acabou-se o cheiro indecifrável da enfermaria (as apostas estão entre a ferrugem, o cocó, o produto de limpeza estranho... e o cocó), acabaram-se as conversas com os doentes e as perguntas indiscretas, por exemplo:

- o Sr.X costuma beber?
- Oh Dra. não, não bebo nada de especial!
- Mas, bebe um copinho de vinho à refeição?
- Ah isso bebo, bebo mais ou menos uma garrafinha das pequenas!
- E depois de comer bebe alguma coisa com o café?
- Ah, doutora, tem de ser, bebo o meu bagacinho!
- Olhe, e de tarde bebe cerveja?
- Ah, bebo umas 4 ou 5 cervejas, nada de especial! A doutora devia ver era os meus amigos lá do café, eles é que bebem, aquilo é uma tristeza!!!

bom... e havia muito mais para contar...oh oh se havia! Mas isto por agora acabou!

Os próximos tempos vão ser dedicados ao estudo intenso (cof cof cof)e à romaria pelas bibliotecas, cafés, centros comerciais e/ou cantinhos onde se consiga estudar com boa companhia, de preferência, para que ao menos durante as pausas haja alguma higiene mental!

Voltando ao episódio final, foi um bonito momento de televisão, fiz uma espécie de avaliação da minha caminhada naqueles corredores e cheguei a algumas conclusões:

1- Nunca acordes um doente, porque ele fica mal disposto e não te conta bem a história (pede à auxiliar que o chame para tomar o pequeno almoço e depois, subitamente, apareces lá e fazes umas perguntinhas!!)
2- Se perguntares: "tem tensão alta?" e eles responderem que não, nunca acredites! Volta a perguntar, desta vez de outra maneira: "toma medicamentos para a tensão?" e, quase de certeza, vão dizer que sim, porque agora já não está alta!lol
3- Se o doente for idoso e quiseres saber se ele teve alguma doença sexualmente transmissível, pergunta-lhe se esteve no ultramar e depois, como quem não quer a coisa, perguntas: "por acaso, teve alguma daquelas doenças da tropa?"

... um dia destes publico os outros!

Agora vou-me dedicar à segunda temporada, e sinceramente, até gosto da rotina da biblioteca na primeira semana...:)

A bata vai para lavar (finalmente!) e este post foi, mais ou menos, como que um esvaziar de bolsos!

Mas, antes de fechar a tampa do cesto da roupa suja, encontrei uma frase perdida que escrevi na aula de ética :
" um juízo prudente não é um juízo certo!", leitores do imaginário e outros que tais... pensemos então sobre prudência, desde que prudentemente... Ou então, pensemos, pensemos apenas, porque pensar só por si já é bom!! O que vale é que a época de exames é sempre rica em questões existenciais... sempre numa tentativa de auto sabutagem do estudo!!

P.S:É impressão minha ou a palavra "cocó" aparece duas vezes neste post???

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

reflexões urgentes...

Finalmente, comecei a ler o livro do Camus, "a queda", e lá ia eu de manhãzinha (depende do conceito...) no metro a beber o meu café, quando me deparo com a seguinte frase (não aconselhada a menores,pessoas facilmente impressionáveis ou com problemas cardíacos)... precauções à parte...
" Cismo, por vezes, no que dirão de nós os futuros historiadores.Bastar-lhes-á uma frase para definir o homem moderno: fornicava e lia jornais. Depois desta forte definição, o assunto ficará, se assim me posso exprimir, esgotado."

O Camus pôs uma das suas personagens a dizer isto dos "modernos"!
E nós? Os pós modernos ou os pós pós modernos (para quem gosta destas mariquices), o que dirão de nós os historiadores? Palpites?

Acho que poderão dizer: " eles relativizavam e ficavam ansiosos"... depois do dia de hoje, isto faz tanto sentido!(como a primeira afirmação é relativa vou só falar da segunda).

Estive umas 3h na urgência e entre pernas partidas e cólicas renais, havia muita mas muita ansiedade!Pura e dura! Ansiedade ao ponto de dar dor no peito com irradiação para o braço, palpitações, náuseas, tremores, dores de cabeça... entre outros! E toda esta sintomatologia regrediu "magicamente" com uma amarguinha (Calma, até agora a única bebida que levo na mala é mesmo o café! Amêndoa amarga, só em casamentos, natais e outros que tais!), leia-se uma fórmula de diazepan dissolvida em água!
O caso mais gritante foi o de um rapaz muito jovem e com muito bom aspecto que veio com queixas de ansiedade, o rapaz estava a trabalhar e teve de parar para vir à urgência, porque não conseguia parar de tremer e estava tão nervoso... Poça, é assustador! Mas não foi só este, eram uns atrás dos outros, vi mais ansiedade do que gripes!uhhhhhh (isto não se pode dizer!).

Bom, a reflexão urgente que se impõe é "e a ansiedade o que fazer com ela?"...parece-me que esta pergunta tem acompanhado não só o homem pós moderno, mas o homem ao longo de todas as épocas, até porque ainda na gestação do cristianismo já Jesus dizia para não andarmos ansiosos por coisa alguma... Contudo, embora a ansiedade não tenha habitação específica numa época, penso que na nossa tem um contrato de longo termo...

Agora, quanto ao relativismo, esse sim, comprou por cá um T2 com vista para o mar, e grita a plenos pulmões com a cabecinha fora da janela :"aqui vou ser feliz"...mas, logo a seguir, conclui...opah, o que é a felicidade? E, rapidamente, conclui ahhh...isso é relativo, fecha a janela e liga a televisão porque "aquela" serie já começou!

E com isto vos deixo...a vocês e aos leitores imaginários!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

a bata voltou...

e já tinha saudades dela, foram duas semanas de ausência e o "frio" instalou-se!

Entre ontem e hoje, essa foi a verdade que saltitou entre os parietais e os frontais!
No fundo, no fundo temos uma relação amor-ódio muito ao estilo Hollywodesco quando ela está perto acho que podia ter uma melhor e que, na verdade, ando é a enganar-me e a empatar a minha vida nesta relação...Porém, quando ela bate com a porta e vai embora, fico triste (dramaticamente triste, tipo encostada à porta e a deslizar lentamente) e percebo que a vida sem ela não faz sentido!

Bom... fora estes estados de puro amor pela minha linda bata e de completa falta de interesse por ela... na maior parte das vezes temos um casamento feliz (um dia destes compramos uma bimby, que nesta analogia "não muito bem conseguida" poderá corresponder a um daqueles estetoscópios todos "very nice" com MP3 e tudo!).

Acabando a, mais uma vez, longuíssima introdução...

Eu sei que parece estranho ou bizarro, mas tenho mesmo saudades do hospital (isto escrito ainda é mais esquisito!), sinto falta dos doentes, das tentativas, na maioria das vezes, frustradas de colher uma história clínica em condições, do raciocínio do diagnóstico diferencial, dos corredores, até do cheiro horrível da enfermaria do Curry...
Ups, esqueci-me de mencionar o "caos da urgência", e hoje aquilo estava completamente cheio... e, como é meu hábito, no meio da confusão dá-me para reflectir, para tirar conclusões existenciais,meditar sobre o sentido da vida, bom...esquisitices!!

No meio das minhas sinapses metafisicas encontrei uma vontade enorme de tratar bem os meus filhos para que quando eu for velhinha e tiver de ir para o hospital de semana a semana eles me levem, fiquem lá comigo,tenham a lista dos 300 medicamentos que tomo, saibam bem as minhas doenças, e empurrem a minha cadeira até às análises... (hoje vi muita coisa triste!)
No emaranhado de raciocínios formou-se, também, a necessidade de aprender a ouvir o que se diz e o que não se diz mas que se queria dizer, ouvir os olhares, os gestos, e as idas à urgência...como o senhor que tinha tosse e que apareceu lá hoje...com tosse e mais nada, quer dizer, tosse e mais medo de ter gripe A porque o filho já tinha tido, e passados 5 minutos de conversa sobre a tosse, descubro que num raio x do mês passado havia uma "sombra" no pulmão... e havia medo...medo e tosse!
E houve mais muito mais... a tarde foi cheia de vislumbres de humanidade e de condição humana, se é que há diferenças entre os termos!

Bom...a bata voltou e com ela os raciocínios genéricos e placebos...

Placebo 1: a conversar com um doente idoso uma colega que queria perceber se o doente em causa já tinha feito uma colonoscopia pergunta: "Oh Sr.X por acaso já fez aquele exame em que colocam um... (silêncio) tubo no ... (pausa, silêncio, suspiros)...no (suspiro)... rabo?!

Depois disto e de inspirar o ar pestilento da enfermaria, pensei "a minha vida voltou ao normal...e Gosto!"