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Dia 37_ “Toca- toca” a lutar contra um coração míope – parte II

Hoje foi dia de andar de “toca-toca” que é um transporte público, uma carrinha de 9 lugares (com uns bancos laterais), que faz longas distâncias e que é mais barato do que andar de táxi! Apanhei um “toca-toca” com destino a Quinhanmel, lá fui eu mais um membro da equipa, mais 24 pessoas (que eu contei!) que foram entrando ao longo do caminho, tudo dentro da mesma carrinha, a tal de 9 lugares, com as portas de trás abertas e gente empoleirada até ao tecto. Foi lindo, 50 minutos de viagem, ligeiramente apertada (!), ao som de música africana e com as pessoas do carro a cantarolar e tudo!

O objectivo era visitar o centro do Desafio Jovem na Guiné, sabia que era em Quinhanmel e não tinha mais indicação nenhuma…. Estamos na Guiné, improvisa-se! Perguntei às pessoas do “toca-toca” se sabiam onde era um centro de recuperação de drogados ao que uma senhora depois de eu ter tentado explicar mais do que uma vez no meu crioulo “todo o terreno” me pergunta com muita entoação : “ké, centro de Dúdos?!” bom… sim, pode dizer-se que sim, uns serão mais doidos do que outros, mas é lá que queremos ir! Ela levou-nos lá, depois percebi que ela ia lá visitar o primo. Claro que no caminho, uns 2 km que fizemos a pé e à chuva, ela foi contando em registo de pedido que o marido estava doente, que tinha 5 filhos, que tinha fome… nestas alturas nunca sei o que fazer, no último mês tenho aprendido muito sobre sustentabilidade, sobre capacitação da população, sobre desenvolvimento. Porém, ao mesmo tempo, a ajuda pontual parece fazer sentido, é claro que não fiquei indiferente ao pedido de ajuda, mas também não quero incentivar a mendicidade e a ideia de que todos os “brancos” são patrões, são ricos… Não tenho respostas! Aqui a miopia ganhou!

Chegámos ao Centro do desafio jovem! Não sei o que é que estava à espera de encontrar… talvez uma quinta com edifícios brancos e jardins…talvez! Encontrei uma “quinta”, mas não tinha jardins, os edifícios eram velhos e com um ar inacabado, um local feio e triste! Perguntei pelo director, mas não estava. Contudo, falei um bocado com a pessoa responsável, conversa agradável, o centro é dos únicos sítios na Guiné que recebe pessoas com problemas de toxicodependência, alcoolismo e toda uma variedade de patologia psiquiátrica, são a resposta para muitas necessidades! E isto é um sinal de esperança, uma esperança um pouco fosca, eles trabalham em más condições, sem estruturas, sem recursos humanos, sem experiência, sem apoio governamental… é árduo! No entanto, por mais fosca e baça que seja esperança é esperança e morre só lá para o fim… e num dos países mais pobres do mundo é bom saber que há quem se preocupe com os outros e não só com a sua porção de arroz!

No meio das minhas pseudo conclusões sobre o que tinha acabado de ver, sobre a conversa sobre a toxicodependência nesta terra, sobre aquilo que podíamos fazer para ajudar (sim, eu e vocês que estão a ler isto), bom… a meio disto reparei que estava um “toca-toca” dentro do centro. Duas perguntas depois e descobri que o “toca-toca” veio trazer uma família que ia deixar o seu filho no centro, era só esperar um bocadinho e tínhamos transporte directo para Bissau.

Desta vez íamos mais à larga, mas passado 10 minutos parámos… porquê? Para arranjar um pneu! Lá ficámos nós dentro da carrinha à porta daquilo que faz as vezes de “Zé dos pneus” de Quinhanmel, 45 minutos depois, olho pela janela e vejo um pneu com um remendo e alguém diz “kaba já” (já acabou)! Altura em que o membro da equipa que estava comigo exclama :” O quê, vão trocar o pneu connosco cá dentro?” Ninguém respondeu, não foi preciso! Ah pois trocaram! E partimos!

Leitor imaginário espero que hoje o teu coração esteja um bocadinho menos míope… o meu está, mas a luta continua (já dizia o manifesto!).

Um abraço

Comentários

  1. O coração está a sentir-se pequeno. Há muita vida que desconheço e é bom saber que há alguém que vive um pouco mais para além disto e que traz esse bocadinho novo de volta para quem cá fica, para que o coração deixe de ser tão míope e tão pequeno. E ninguém melhor que tu para o viver. A luta continua, tu ages, eu sigo.

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