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Dia 35_ as lutas de um coração míope

Voltei a Bissau, os próximos dias serão de descanso e de “turismo”!

Por aqui, as ruas continuam sujas, esburacadas, escuras… Feios, porcos e maus! Mas isso toda a gente vê, eu cá queria ir para lá do óbvio, e claro, vocês estão convidados a embarcar nesta “visita de estudo” : Bissau e os seus encantos!

Comecemos pelo alojamento, podia ter ficado num hotel com ar condicionado, duche quente (ai saudades!), croissants ao pequeno-almoço e wireless. Mas não, a estudante que há dentro de mim e que me cuida das contas disse que não! Então fiquei na D.Berta ou pensão Central como diz o Lonely planet (sabiam que havia um para a Guiné Bissau?!), sítio simpático e em conta, sem água canalizada e com luz só às vezes, mas com uma caminha boa e lavadinha… que me deu trabalho a conseguir, nesta terra tudo exige negociação! Cheguei à D. Berta lá pelas 16h, depois de uma viagem atribulada de canoa desde Bolama, estava toda molhadinha e com vontade de descansar. Pedi um quarto e perguntei pela D.Berta , uma velhota Cabo verdiana muito simpática, mas ela não estava, então tratei de tudo com o guarda, primeiro perguntei-lhe o nome e apresentei-me, a seguir perguntei-lhe se tinha passado bem o dia, como é que estava a família, (é assim que todas as conversas começam nesta terra, há que perder tempo com as introduções se queremos boas conclusões, foi das melhores lições que aprendi!) depois disto, deu-me uma chave e lá fui eu toda contente. Abri a porta e verifiquei se havia electricidade…e havia!!! Mas…bom, não havia toalhas nem lençóis na cama! Fui chamar o meu novo amigo, e o problema é que essas coisas estavam num quarto que estava fechado e quem tinha a chave estava a caminho… está bem, eu posso esperar! Claro! (Já referi o facto de que estava toda molhada e com frio?) Esperei 15 minutos! Fui chamá-lo! “ Ai, está quase resolvido, espera só um pouco, a chave vem goss-goss (agora, agora)”. Fui para o quarto e vi 2 episódios de uma serie (foram 90 minutos), mas tudo tem um limite…ai! Fui lá outra vez, “ai desculpe, a pessoa não vem, vou ter de arrombar a porta!”. E assim foi! Deu dois pontapés na porta do tal quarto e lá estavam as famosas toalhas, depois foram mais 30 minutos que ele levou a olhar para os lençóis e a escolher o correspondente (muito cómico, a sério!). E sim, passado 2h30 de ter chegado consegui tomar banho de água fria e à caneca, mas já não ter sido às escuras foi uma sorte! Nunca tinha esperado tanto por uma toalha!

Isto foi só o começo… depois fomos de táxi para o restaurante onde íamos jantar… adoro transportes públicos, se alguém quer conhecer um país tem de experimentar andar em toda a variedade possível de transportes, é tão importante como visitar museus!

E os táxis na Guiné são espectaculares, azuis e brancos, bastante velhos e usados, e apesar de terem apenas 5 lugares, levam 6 pessoas, e é tipo autocarro vai parando para recolher pessoas até encher. O nosso táxi à partida não tinha nada de especial, até que se houve um barulho e o condutor em andamento abre a porta, espreita para a roda e murmura “furou!”, altura em que encostou o carro à berma! NÃO! Não parámos, continuámos a andar como se nada fosse, lá íamos nós com o carro cheio, a chover torrencialmente, numa estrada em que há mais buracos do que alcatrão e com um pneu furado! Vá lá, correu bem… e jantámos bem, muito bem até! Nunca um bife com cogumelos me soube tão bem! Mas com o bife veio um pensamento que não estava na ementa, às vezes não há alienação gustativa que chegue para exorcizar as reflexões dum coração que anda à luta com a miopia. O restaurante era excelente, decoração perfeita, bom ambiente, comida boa! Claro, que o restaurante não era dos guineenses nem para os guineenses…Claro, porque se fosses escuro, escuro e pobre era uma tigela de arroz e já ias com sorte!!

Leitor imaginário… hoje ficamos por aqui, amanhã a luta contra a miopia continua…

Comentários

  1. "às vezes não há alienação gustativa que chegue para exorcizar as reflexões dum coração que anda à luta com a miopia." brilhante! entre banho gota-a-gota e os transportes colectivos a vida reserva-nos lições que ninguém aprende nos livros ou no celulóide. Passei o mesmo no Sri Lanka, depois do Tsunami ou mesmo na Moldávia. Força doc! bjs

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  2. Essa frase deve ter-te dado um gozo de escrever! :)
    Concordo 100% com a questão dos transportes públicos! É como ir a um museu ou ver um monumento! :) É obrigatório! Bons passeios. Vai até à igreja central :)

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  3. Estou a aprender imenso... estou mesmo grata!!!

    e já fui à igreja central, mas estava fechada... vou a um acampamento de jovens com pessoas de toda a Guiné na ilha das galinhas, começa Domingo...isso é que vai ser!!

    p.s: a frase...ai a frase!

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  4. Espera... viu que tinha um pneu furado em andamento?! Que bonita imagem essa, a chuva, o pneu, a estrada e o carro sempre a andar... Vais voltar com um grande (maior) amor à vida! E com uma visão menos baça.

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