quarta-feira, 16 de março de 2016

Ainda vamos a meio!


 O dia está cinzento, volto do trabalho, estou cansada, talvez por isso o desenrolar lento dos passos, ou talvez porque chegar será igual a sentar-me a estudar. Não me apetece chegar! Então vou andando, este caminho já não me é estranho, conheço-lhe os detalhes, já sei que ali o pão não é bom, mas as mangas são (caras!) mas ótimas, um verdadeiro paraíso das mangas. E mais à frente, o pão é melhor e os bolos também, depois ao virar temos a frutaria orgânica, nunca tem mangas, mas tem dióspiros e laranjas da Bahia sempre doces, feios e pequenos se não os “orgânicos” levam a mal!

Assim se passa um mês e meio! Aprendi as manhas da fruta e do fiambre que aqui não é fiambre é presunto, tenho sempre de repetir as frases e de preferência cantadas em português do Brasil, descobri que toda a gente gosta do meu sotaque e que todos os brasileiros têm um familiar português (seja uma tia, primo, afilhado, o vizinho da vizinha) e que sítio não é lugar, mas sim uma grande quinta!

Comecei o estágio pelo serviço de urgência, um mês, 5 dias por semana das 7h às 20h (mais os picos)… Doeu! Ainda dói, arde, à espera que cure! As muitas horas diárias não doeram, arranharam, o que doeu, o que “machucou” até ao fim do estômago, onde agora tenho um grande nó foi o que vi! Vi muita desgraça, tristeza, pobreza, declínio… Vi a SIDA, entidade que surgiu nos anos 80 e que assustou médicos e doentes, matou muita gente, porque não tínhamos medicamentos, ninguém conhecia a doença, mas com o tempo as coisas mudaram, veio a esperança mascarada de “inibidores da protéase” (remédios!) e eles deixaram de morrer, não se cura, mas trata-se… Quer dizer, podíamos tratar… podemos… existem medicamentos… existem doentes… o problema é a coexistência! Vi SIDA como nunca tinha visto, vi a pele e o osso dos doentes sem nada no meio para amparar, vi o grave e o gravíssimo, vi lepra e micoses sistémicas, vi um bocadinho da Guiné e da Índia e revi a sensação de impotência, de pequenez, de insuficiência… Aqui estou eu mais uma vez de lanche (pão e peixe noutra época) na mão a dizer que só tenho isto…

Foi no meio destes pensamentos… tenho pouco, sou pouco, é ridículo de tão pouco, tenho de estudar mais, ouvir mais, ser mais, é aqui que chega um dos doentes que mais me marcou. (Dados fictícios) Cleidi que era Anderson, que era prostituta, que era travesti, que era toxicodependente, que tinha diagnóstico de HIV, mas que nunca quis tratar. Chega com falta de ar, aflita, vulnerável, precisa de ajuda, em poucas palavras conta que sabe que tem HIV mas que a vida é muito complicada, nunca tratou porque tem medo, hoje veio porque não consegue respirar, anda assim há 3 semanas. Mas há mais, ontem, algures num desses vãos de escadas da vida, colocou silicone industrial no “bum-bum” para parecer maior e mais redondinho. Incrédula, examino a pele inflamada, abcedada e ainda com bocadinhos de cartão a fazer de penso para tapar os locais de injeção. Porquê? (silêncio) Não preciso que ela (ele? Não interessa!) responda, cá dentro sei bem que o desespero humano, a falta de rumo, as contrariedades da vida aumentam a bola de neve de tal maneira que depois de cair dá a sensação que ainda estamos a rodar. Olho para ela e tento entender, o medo de tratar o HIV e a falta dele para colocar o silicone, o medo escondido atrás da maquilhagem e da roupa justa enquanto vende o que nunca deveria ser vendido, tento, mas não consigo. Mas sei que o problema dela é mais fundo do que a falta de juízo para tomar os medicamentos, bem mais complexo do que a identidade sexual, vai para lá… começou antes, precisou antes… e para isso não há comprimidos a inibirem enzimas. Então enquanto vejo a saturação de oxigénio, olho-a nos olhos e falo de mudança, vamos começar outra vez, vamos parar de desistir. Saio da sala sufocada pela máscara e pela ansiedade de ver alguém com 27 anos com tão pouca esperança.

A infeciologia tem destas coisas, o Brasil tem destas coisas, e eu… estou aqui para aprender!

Leitor imaginário, espero ter a capacidade de guardar no coração o que tenho visto e de partilhar contigo e com os nossos amigos o meu “lanche”.

Restantes amigos, se vieram à procura de sol e trópicos, espero que não tenham ficado desiludidos, as histórias sérias também ajudam a limpar a miopia.

2 comentários:

Sarah Catarino disse...

Que triste, Bianca. Que dor. Que Deus te dê força para tratares muitas como esta (este?) Algures, há ainda a imagem de Deus...

Sarah Catarino disse...
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