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a bata voltou...

e já tinha saudades dela, foram duas semanas de ausência e o "frio" instalou-se!

Entre ontem e hoje, essa foi a verdade que saltitou entre os parietais e os frontais!
No fundo, no fundo temos uma relação amor-ódio muito ao estilo Hollywodesco quando ela está perto acho que podia ter uma melhor e que, na verdade, ando é a enganar-me e a empatar a minha vida nesta relação...Porém, quando ela bate com a porta e vai embora, fico triste (dramaticamente triste, tipo encostada à porta e a deslizar lentamente) e percebo que a vida sem ela não faz sentido!

Bom... fora estes estados de puro amor pela minha linda bata e de completa falta de interesse por ela... na maior parte das vezes temos um casamento feliz (um dia destes compramos uma bimby, que nesta analogia "não muito bem conseguida" poderá corresponder a um daqueles estetoscópios todos "very nice" com MP3 e tudo!).

Acabando a, mais uma vez, longuíssima introdução...

Eu sei que parece estranho ou bizarro, mas tenho mesmo saudades do hospital (isto escrito ainda é mais esquisito!), sinto falta dos doentes, das tentativas, na maioria das vezes, frustradas de colher uma história clínica em condições, do raciocínio do diagnóstico diferencial, dos corredores, até do cheiro horrível da enfermaria do Curry...
Ups, esqueci-me de mencionar o "caos da urgência", e hoje aquilo estava completamente cheio... e, como é meu hábito, no meio da confusão dá-me para reflectir, para tirar conclusões existenciais,meditar sobre o sentido da vida, bom...esquisitices!!

No meio das minhas sinapses metafisicas encontrei uma vontade enorme de tratar bem os meus filhos para que quando eu for velhinha e tiver de ir para o hospital de semana a semana eles me levem, fiquem lá comigo,tenham a lista dos 300 medicamentos que tomo, saibam bem as minhas doenças, e empurrem a minha cadeira até às análises... (hoje vi muita coisa triste!)
No emaranhado de raciocínios formou-se, também, a necessidade de aprender a ouvir o que se diz e o que não se diz mas que se queria dizer, ouvir os olhares, os gestos, e as idas à urgência...como o senhor que tinha tosse e que apareceu lá hoje...com tosse e mais nada, quer dizer, tosse e mais medo de ter gripe A porque o filho já tinha tido, e passados 5 minutos de conversa sobre a tosse, descubro que num raio x do mês passado havia uma "sombra" no pulmão... e havia medo...medo e tosse!
E houve mais muito mais... a tarde foi cheia de vislumbres de humanidade e de condição humana, se é que há diferenças entre os termos!

Bom...a bata voltou e com ela os raciocínios genéricos e placebos...

Placebo 1: a conversar com um doente idoso uma colega que queria perceber se o doente em causa já tinha feito uma colonoscopia pergunta: "Oh Sr.X por acaso já fez aquele exame em que colocam um... (silêncio) tubo no ... (pausa, silêncio, suspiros)...no (suspiro)... rabo?!

Depois disto e de inspirar o ar pestilento da enfermaria, pensei "a minha vida voltou ao normal...e Gosto!"

Comentários

  1. Olá Bianca! É bué enriquecedor ouvir as tuas ideias tão lúcidas e pertinentes nos núcleos do GBU e, pela amostra, desconfio que também tens muito jeito para transmitir essas ideias através da escrita. Ganhaste um leitor! Bons textos e boas colonoscopias!!

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  2. Estás no teu melhor, escrevendo o teu coração. Serei tua seguidora incondicional!
    Beijinhos.

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