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a brevidade da vida...

Hoje li:

"(...)e não a podem entender por mais que façam, porque na vida deles tudo é provisório, tudo precário, tudo passa sem remédio, os deuses, os homens, o que foi, acabou já, o que é, não será sempre,(...)"

"intermitências da Morte"
, Saramago

e, mais uma de muitas outras vezes, apercebi-me da grande vantagem que há em ler o que os outros pensam, mesmo quando usam personagens envoltas num lençol e que mantêm diálogos metafisicos com uma gadanha (que, por pura coincidência, é o caso da citação de cima, ali, é a morte que ouvimos a descrever a vida dos humanos!). Ora, um dos benefícios em "escarafunchar" no pensamento alheio é perceber que não estamos sozinhos... e que antes de nós nos angustiarmos outros já se enjoaram com o mesmo cheiro, outros já questionaram, já buscaram respostas... o que traz pelo menos um pensamento à minha mente: "há mais esquisitos por aí,não sou a única!"

Continuando, (mas sem largar este sentimento de pertença, quanto mais não seja ao grupo dos esquisitos) esta época do ano pede mais do que passas e festas temáticas (nada contra, e até já tenho o vestido de parte!), pede balanços, avaliações e listas de objectivos...Mas para isto, há que levar em conta a opinião da morte, vulgo a personagem que vos apresentei há pouco, a vida é breve e fugaz... então resta-nos investir no que vale, realmente, a pena!

deixo-vos com outra citação, desta vez do meu alter ego...

"Nunca foi tão claro para mim, o facto de a vida ser passageira e tão fugaz… a intensidade das coisas que vão acontecendo é inebriante, por vezes chega a ser ensurdecedora…. Como se o barulho exterior me impedisse de Te ouvir e até de Te ver. O prazer dos dias, rapidamente, torna-se absorvente e ditador dos meus pensamentos e do modo como vou interpretando aquilo que sinto, mas não só o prazer! A dor, também, dita as regras, e regras bastante severas… faz de mim a única ocupação de mim mesmo, torna-me centro e altar, acabando com o espaço para o alheio e o não próprio."

Como a vida e os dias que a recheiam são tão passageiros temos de estar especialmente atentos às coisas boas que vão acontecendo, talvez por isso, (ou porque é uma óptima desculpa para uma festa), amanhã comemora-se o Ano Velho, em jeito de almoço de Acção de Graças!!

Boa noite a todos os leitores... imaginários ou por imaginar:)

Comentários

  1. Bianca.
    O que tu escreves é tão intenso e faz-me jorrar tantas torrentes de tudo por todo o eu, que o leio depressa, para não pensar nisso, para não sentir nisso, para não estar nisso. E assim, protegida, escondida e mais treinada a só ouvir aquilo que me dá razão, continuo a negar uma parte do mim. Que é também, negar o meu todo.
    Por isso, o teu texto, vou rezá-lo, de frente para uma parede, sem distracções, com uma caneta para fazer anotamentos nas margens. (Tipo castigo)
    Vou ATÉ imprimi-lo, vê só!
    Bianca! És a pior!

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  2. Gosto da sinceridade do texto, alías tu és "sin cera" (sim separado) quanto escreves. Uma citação, de Peter Jonhansen, de como tudo passa tudo e breve, relacionada com o tempo:
    "o tempo a trouxe, o tempo a leva, é ele que me caça
    na vida tudo é assim, nada fica e o tempo também passa."

    Peter Jonhansen in o tempo

    (assim vão saber que o peter jonhansen sou eu lolol)

    ResponderEliminar
  3. Mas em que é que esta época é diferente de qualquer outra? Será por a azáfama ser maior do que a do quotidiano? Ou talvez por despertar nas mentes esquecidas o desejo de algo mais, para além de prendas sem utilidade e promessas de ano novo esquecidas rapidamente... Sim creio que é esse resquício de algo mais elevado que ainda torna esta época num misto de alegria, confusão, tristeza e solidão...

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  4. Lénise, sinto-me honrada!fizeste-me sorrir!

    Peter(caso gostes mais assim!),quero sempre ser "Sem Cera", não gosto de sensações empacotadas e com rótulos feitos em serie... prefiro o gosto original, único, sem aditivos nem conservantes! Talvez, por isso, o texto te pareça assim... "sem cera", sem verniz... Porém, reconheço que preciso de ajuda para ver para além da "cera" que cobre o mundo, a cultura, os outros e até os meus sentidos... a aí a tua ajuda e do resto dos leitores, imaginários ou não, será preciosa!

    Lilian,esta inquietação sobre a brevidade da vida nasceu em mim muito antes desta época de "fins de ano e de prendas no sapatinho". Contudo, concordo contigo... há uma ansiedade social quase patológica por algo mais elevado e que, finalmente, seja suficiente!! O problema é que continuamos a teimar em viver alienados e de cabeça cheia, venham os novos desafios, venha a estabilidade financeira, venha a adrenalina...e dopamina também...venha venha venha...qualquer coisa que seja tão anestesiante e absorvente que se torne impossível de ouvir o clamor que há dentro de mim por alguma coisa que não sei o que é, mas também não me apetece descobrir!

    ResponderEliminar
  5. ela tem um blogue!
    é comum aos outros mortais!!

    não li o texto mas prometo voltar.
    vou adicionar-te para nao me esquecer de te visitar

    kiss kiss

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