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Mensagens

A mesma mesa

Volto a sentar-me aqui, a mesma mesa! Imagino-vos sentados, do outro lado do mundo, à minha frente. A conversa começa devagar, amanheceu há pouco tempo e ainda cheira a café, o bebé adormeceu e a T. foi com o pai às compras, fiquei sozinha com vocês. Os pensamentos correm em fila para a avaliação, passou um mês, conseguimos um mês, sobrevivemos um mês e descobrimos tantas coisas. Realmente foi ano novo, vida nova, e é tanta a novidade que ainda me sinto tonta da viagem. No entanto, esta já é a nossa casa, já tem as nossas rotinas, conhece-nos o cheiro e as vontades. Claro está que faltam coisas, falta aquele resto de queijo de Azeitão que sobrou de ontem à noite, falta o pão do Chico pela manhã, a sopa da avó, o chouriço enrolado em película no frigorífico que acabará por ir para o lixo, a sobremesa que ficou do jantar de amigos de há 2 dias, as nódoas na toalha, o chão por limpar… Faltam-nos as pessoas e o barulho delas (silêncio). Faltam e faltarão, até que um dia, ou dia-a-d...

Uma salada de fruta...

Ontem à noite tivemos direito a tempestade tropical, ribombou noite a dentro, tremeram as paredes e as janelas, e eu (confesso!), só as osgas permaneceram serenas enquanto se preparavam para o seu rodízio de insetos. Hoje, o dia amanheceu chuvoso e fresco, sabe-me tão bem esta temperatura abaixo dos 30 graus, só não gosto do cinzento carregado da chuva e da melancolia escorregadia da lama. Volto a escrever-vos da mesa da cozinha, a única mesa cá de casa! Gosto assim! Passaram 3 semanas e parece que foi ontem e, ao mesmo tempo, parece que foi sempre assim, esta mesa, esta chuva e o barulho do frigorífico que compete com os grilos lá de fora. O dia está quase no fim, a miúda está à porta de casa a brincar com os vizinhos, já escorregou uma porção de vezes na lama, está feliz da vida, há bocado apareceu aqui com uma banana na mão, foi uma vizinha que lhe deu. Ela comeu metade da banana e eu é que fiquei com o coração cheio, a fruta tem destas coisas! Foi como no outro dia, fo...

Viemos!

Passaram quase dois anos desde a última vez que escrevi aqui. Tinha saudades! Pensei em voltar várias vezes, mas por alguma razão esta vontade de escrever só ganha mãos e vírgulas em clima tropical! Então, aqui estou eu e espero que tu, querido leitor imaginário, não tenhas desistido! Escrevo sentada na mesa da cozinha da casa nova, uma mini casa no ainda mais pequeno país do continente Africano: Suazilândia ou como se diz agora o Reino de Eswatini. A primeira vez que ouvi falar nele tive de ir ao google para o encontrar, uma bolinha minúscula entre a África do Sul e Moçambique, a única monarquia absoluta do mundo, um reino pacífico e de boa gente. O país do mundo com a maior incidência de infeção por VIH/SIDA, um terço da população, fizeram um estudo em que estimavam que, se o ritmo da epidemia continuasse, em 2050 deixaria de haver habitantes no país. No entanto, muito tem sido feito para melhorar estes números. O desafio é gigantesco e todas as mãos são pequeninas e to...

Deu tudo certo!

A mala está semi-feita, faltam as coisas pequenas, falta fechar, despachar e partir. É bom partir para casa, mas é difícil fechar este ciclo. Atrás de mim ficam as histórias, as pessoas com quem aprendi a ser bem mais que médica, ficam as coisas que só poderia ter vivido num país virado para o sol e para os sorrisos abertos. Elas ficam e vêm comigo no coração, porque a mala já tem excesso de peso, trago o que sou agora e que não era há três meses atrás.  Aliás, essa é a beleza desta experiência, vou provavelmente esquecer-me dos critérios do síndrome hemofagocítico, mas dificilmente da médica que deu chocolate e coca-cola à menina que tinha uma sonda naso-gástrica, dos meninos da enfermaria, dos adolescentes da consulta, isto tudo vai comigo e irá para onde eu for! Escrevo isto com o peito apertado, aquele desconforto na garganta, um incómodo que não sei explicar, no fundo estou ansiosa de chegar e a rebentar de saudades e ao mesmo tempo triste por deixar isto tudo para t...

Mais um dia de consulta

Hoje escrevo de uma assentada só, o tempo escasseia e as vivências transbordam. Faltam só uns dias para partir e nestas páginas já faltaram 3 meses. É com um sorriso que olho para trás e sussurro entre dentes: “deu certo” como diriam estes meus novos amigos. É neste ambiente de “fazer a mala” que vos trago as histórias de hoje que na verdade são da semana passada, que vão sendo dos anos que passam pela vida destas crianças, as histórias têm nome, bochechas e birras, são pequenas, umas com final feliz, todas em construção, assim como os seus protagonistas. A consulta de pediatria começa devagar, um resumo do doente antes de entrar na sala, vêm à baila as histórias da infeção, este apanhou o HIV na barriga da mãe que nunca tomou a medicação, aquela menina foi abusada, aquela criança desconfiamos que também… e continuam as histórias que tornam as sístoles rápidas e secas, batimentos duros que lutam com a injustiça, os olhos pestanejam, as mãos arrefecem e a criança entra no gabine...

Às voltas na pediatria

Ando às voltas com este texto, enrolado nas pontas do pensamento, sem fim, sem meio, mas com vontade de ser dito. Um dia sonhei ser voz de quem não a tem, uns pela falta de boca e outros pela falta de ouvidos e atenção, um sonho daqueles que não se contam a ninguém, uma inconfidência, uma janela demasiado alta para quem só tem dois pés e duas mãos. Um dia, dois dias, três dias, agora já não tenho 14 anos, mas ficaram os sonhos, vieram as viagens pela medicina e pelos trópicos e vim parar ao Brasil. Cá ando eu de coração cheio, olhos arregalados, vontade de saber mais e ser mais, e o sonho volta! Incomodada escondo-me, ocupo-me, distraio-me, procrastino, finjo, lembro-me que o problema não é meu, a história não é minha, a voz não me diz respeito. E o sonho volta, pedrinha no sapato, esta vontade de justiça, esta ânsia de reconstrução, este querer contribuir. Com o quê? Com a voz, com a história, com a lição e com o pedido de ajuda, com o pão e os peixinhos. E porque continuo incomodad...

A festa continua!

A pediatria continua cheia de porcelanas.  É difícil sair dali sem perder um caco, sem um risco, sem uma lasquinha na ilustração, o coração sente a fragilidade a que não está habituado. Mas continuo, insisto nesta jornada que começa na razão da febre e termina na razão do abandono, do abuso, da injustiça.  Continuo? Vou tropeçando nas histórias, mas continuo. Vou chorando em sístoles disfarçadas, mas continuo. No entanto, há dias em que continuar é mais fácil, há pessoas que me empurram para a frente quando me pesa o choque da injustiça na barriga das pernas.  Trago-vos um destes empurrões na esperança que caminhemos mais juntos: A Dra. Y, a chefe da enfermaria, muito simpática, com um sotaque delicioso, com a experiência que muitos anos de pediatria, num país cheio de assimetrias, foram acrescentando. A manhã começou com a visita médica, discutimos todos os casos, tiram-se dúvidas, ela faz perguntas, as respostas vão aparecendo entre silêncios cúmplices. E apar...